Se depender de Mauricio de Sousa, Cebolinha não usa losa nem blinca de boneca

Quadrinista diz que gibis não levantarão bandeiras de gênero antes que elas sejam socialmente aceitas

Divulgação

Gustavo Fioratti
São Paulo

Cebolinha, Cascão, Chico Bento e outros personagens masculinos criados por Mauricio de Sousa não deverão usar peças de roupa cor-de-rosa nem brincar de boneca tão cedo.

Nos quadrinhos da Turma da Mônica, incluindo a versão em que os personagens atingiram a juventude, esses são, até segunda ordem, elementos femininos. 

“Não posso mudar o comportamento dos nossos personagens com novas bandeiras, novas tendências, novas ideologias, e arrebentar toda a nossa história”, disse à Folha o autor de quadrinhos. 

Na semana passada, ele participava da gravação de um programa do canal Nat Geo que será dedicado a contar sua história e está programado para 2019.

A recusa de um mundo menos categórico pode ser passageira, porém. “Se é uma bandeira que estão levantando agora, nós não devemos levantar junto. Se é uma bandeira que já foi empunhada pela sociedade, daí nós temos de estar lá”, afirma o pai de Mônica e de outros nove filhos que inspiraram personagens seus.

Mais distante ainda está a possibilidade de criar, nas histórias em quadrinhos da Mauricio de Sousa Produções, situações que possam discutir a escolha do gênero independentemente do sexo. Nada de menino fazer trança ou passar rímel.

O autor se vê como um observador que retrata os costumes do país sem a obrigação de cumprir uma agenda educativa voltada para mudanças de comportamento. 

Uma das maiores ousadias de seu estúdio foi criar a sugestão de que um personagem da revista “Tina”, com seu círculo de pessoas mais maduras, era gay. Foi algo que chamou a atenção dos leitores em 2009, com repercussão na imprensa, e que Mauricio preferiu deixar aberto a interpretações.

O personagem em questão era um rapaz que, dialogando com um casal, dizia ser comprometido. Depois ele se virava para um outro rapaz e pedia a confirmação: “Não é? Fala aí pra eles”. 

“Eu me coloco como um criador com um nível de cultura que tende para um conservadorismo. Não somos ignorantes, estou observando. Mas há uma preocupação com a vida de um grande estúdio, onde hoje trabalham muitos artistas”, diz. 

Essa não é uma decisão comercial “apenas”, prossegue, “também é filosófica”. “É um conservadorismo vivo e atento, pronto para entrar em transformações assim que a sociedade aceitá-las [as mudanças].”

Entre as poucas viradas comportamentais que tiveram influência em suas histórias, ele cita duas: Chico Bento não solta mais balão —“algo que eu fazia quando criança, mas que hoje é considerado errado”— e Cebolinha não picha mais o muro para provocar a Mônica, retratando-a como dentuça.

As questões comerciais, porém, se impõem sobre uma produção que foi se notabilizando pela vocação para a exportação. 

Mauricio conta, por exemplo, que a Rússia é um dos países que mais veem “Monica Toy”, versão animada da Turma da Mônica desenvolvida para o YouTube, sem falas, apenas com onomatopeias. 

O ano de 2019 será especialmente prolífico. Na última edição da CCXP, feira dedicada a quadrinhos, séries, games e filmes, o autor falou sobre o próximo filme da turma. Previsto para estrear em junho, logo antes das férias da criançada, “Turma da Mônica - Laços” não é uma animação —traz atores de carne e osso interpretando os personagens.

A HBO também produz em parceria com ele uma animação protagonizada pelo Astronauta, personagem criado pelo quadrinista em 1963.

Já programa da Nat Geo, por sua vez, fará parte da série “Bios” e vai ter depoimentos de familiares, amigos e colegas de profissão. 

O quadrinista conta que o documentário mostrará, por exemplo, uma visita sua à primeira escola em que estudou, a Coronel Almeida, em Mogi das Cruzes. 

Quando ele entrou em uma das salas de aula, conta, lembrou-se de que costumava se sentar nos fundos para poder desenhar sem que o flagrassem.

“Depois de 70 anos, voltar a um lugar que fez parte da sua vida mexe com muita coisa. Você acende uns pontinhos nos neurônios que estavam lá meio esquecidos, entorpecidos. Você puxa de lá: ‘Ah, então foi assim?’.”

“O senhor sofreu ou praticou bullying?” Sousa diz que essa palavra representa um conceito muito mais recente. “Havia gozação, brincadeira, como sempre houve. Só que agora batizaram: tirar sarro de alguém chama bullying. Tomou um ar de pecado mortal”, contesta.

“Talvez seja alguma coisa grave para algumas pessoas. Mas a Mônica, minha personagem, dá um recado de como não se deve sofrer com o bullying: é só reagir com uma coelhada ou reagir com vigor. E não levar para casa. Reagiu, acabou”, afirma.

O autor não concorda com a ideia de que o conceito de bullying foi criado sob a hipótese de a crueldade ter se sofisticado nas escolas. 

“Geralmente as pessoas mais frágeis sentem demais uma ofensa, uma gozação, uma brincadeira, e ficam se vitimizando. Daí piora”, afirma o autor. “Tem que reagir normalmente. Não precisa levar desaforo para casa. Não estou dizendo que é preciso bater em alguém. Mas tem que haver uma discussão, tem que haver o conhecimento de que há a possibilidade de reagir.”

O conselho vale para os próprios filhos e netos. “Digo: Pessoal, não se queixem, discutam, a não ser que a coisa saia do normal. Palavras, frases, xingamento, isso não mata ninguém. Há competição sempre. Inveja. Uma porção de coisas assim, com que o pessoal tem que aprender a conviver”, afirma.

Para Sousa, há exagero na “criminalização” do bullying. “Virou uma coisa mais concreta. E não é. É uma coisa de fala, de som. Falou alguma coisa? Vai embora, daqui a pouco é para ser esquecido. As crianças estão em uma fase em que podem brigar e podem depois fazer as pazes. E fica tudo na mesma”, diz.  

Essa seria “a filosofia que tem a turma da Mônica”, compara. Bateu, xingou, levou o troco. E página virada.

Mauricio de Sousa, 83
Mauricio de Sousa, 83 Nascido em Santa Isabel, na Grande São Paulo, iniciou sua carreira como criador de quadrinhos no jornal Folha da Tarde, em 1959. Com Bidu e Franjinha, deu início à Turma da Mônica, que logo se tornaria uma das HQs mais lidas do país. É dono da Mauricio de Sousa Produções, empresa que já vendeu mais de 1 bilhão de gibis - Bruno Santos/Folhapress

 

Desenhos recebem novos tons

• Na Turma da Mônica, Chico Bento não solta mais balão, atendendo às leis criadas para evitar incêndios; e Cebolinha não picha mais o muro para provocar a Mônica

• O marinheiro Popeye, chegado em dar baforadas em  seu cachimbo desde os anos 1930, trocou a peça por um apito em versão criada neste ano para o YouTube. Nos episódios, o personagem também cultiva espinafre orgânico 

• Em 2013, o Cartoon Network deixou de exibir 27 episódios de ‘Tom & Jerry’. O desenho passou a ser considerado muito violento para os novos padrões. Espancamentos, atropelamentos, mordidas, marteladas e pirotecnias faziam parte do repertório criado a partir da rivalidade entre o gato e o rato

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