Stone Temple Pilots testa fábula da vida após as mortes no rock com novo vocalista

Depois de perder Scott Weiland e Chester Bennington, banda volta ao Brasil com Jeff Gutt no vocal e toca com o grupo Bush

Rafael Gregorio
São Paulo

Se morre o rosto à frente do grupo de rock, nada resta além de aceitar a aposentadoria. Certo?

Errado, responderia Brian Johnson, que assumiu o microfone do AC/DC em 1980, depois da morte de Bon Scott, e acabou elevando a popularidade do grupo australiano.

Em um gênero de ideário afeito a excessos, a história é mais comum do que se imagina. Em alguns casos, os grupos não apenas seguiram em frente como ampliaram sua popularidade e base de fãs.

Mick Jagger e Keith Richards, por exemplo, assumiram os Stones depois da morte de Brian Jones, em 1969. Ele foi o fundador e, até então, esteio conceitual do grupo.

Bandas como Grateful Dead e Lynyrd Skynyrd sobreviveram à morte de líderes.

Também o fizeram o Red Hot Chili Peppers —John Frusciante assumiu a guitarra em 1988, depois que Hillel Slovak morreu de overdose— e o Alice In Chains, que substituiu Layne Staley por William DuVall.

A fábula se repete com os Stone Temple Pilots, que tem como espinha dorsal hoje o baixista Robert DeLeo, seu irmão, o guitarrista Dean DeLeo, e o baterista Eric Kretz.

À frente do conjunto, no entanto, está um novato, Jeff Gutt, que veio com a missão de substituir vozes que nele se tornaram emblemáticas.

O grupo faz shows no dia 14 de fevereiro, em São Paulo, no dia 15, no Rio, e em Belo Horizonte, no dia 17, com ingressos à venda.

Famosa nos anos 1990, a banda nascida em 1989 em San Diego, na Califórnia, vem ao Brasil com o novo vocalista depois de perder não um, mas dois cantores —Scott Weiland e Chester Bennington.

O grupo chegou a seu auge na esteira do grunge e passou perto de herdar o trono do rock após a morte de Kurt Cobain, do Nirvana, em 1994.

Mas ficou no quase. Apesar de sucessos como “Plush” e “Interstate Love Song”, a banda liderada por Weiland, morto há quatro anos, teve discos e turnês sabotados pelo drama dele com as drogas.

Weiland experimentou heroína em 1993. Foi o gatilho para uma narrativa trágica que chama a atenção até mesmo numa geração descarrilada como poucas pelo uso de narcóticos e pela depressão.

O cantor atravessaria as décadas seguintes frequentando dezenas de reabilitações.

Em 1996, o terceiro disco, “Tiny Music...”, teve a turnê cancelada porque Weiland, à beira da morte, precisava de tratamento. Em 1999, quando a pauta era o álbum “N4”, o cantor foi preso por seis meses após testar positivo para drogas na liberdade condicional.

Weiland, que em sua carreira lançou quatro trabalhos solo, um álbum com standards de jazz e dois discos com Slash e Duff McKagan no grupo Velvet Revolver, ainda gravaria o quinto e o sexto álbuns do STP.

Acabou demitido em 2013 do grupo que fundou e, em 2015, morreu de overdose de cocaína e remédios, aos 48 anos, nos fundos de um ônibus durante uma turnê solo.

Àquela altura, os ex-colegas já pareciam contar com a iminência de sua partida. Semanas antes, fizeram show com a cantora Joss Stone. Depois, passaram a se apresentar com Chester Bennington, líder do Linkin Park e fã de Weiland, com quem gravaram um EP.

Mas a morte não deu trégua. Bennington, com um histórico de depressão e uso de drogas, se matou em 2017, aos 41, quando já havia saído do STP.

Como superar a perda de duas vozes tão idiossincráticas?

Recrutar um novato foi a escolha do Stone Temple Pilots, que, há três anos, recebeu mais de 20 mil candidatos e testou dezenas, sem sucesso.

Foi quando Robert DeLeo fez um show com a banda Hollywood Vampires, de Johnny Depp e Joe Perry, do Aerosmith. O baixista viu no cantor de uma das bandas de abertura uma luz no fim do túnel.

Era Jeff Gutt, 42, a voz à frente da banda desde 2017 e também em passagem agora por Brasil, Argentina, Chile e Peru.

Estarão acompanhados do Bush, outro expoente do rock alternativo dos anos 1990.

Eles vêm tocar o sétimo disco do conjunto, “Stone Temple Pilots” (2018), gravado com Gutt, e rever clássicos de seu cancioneiro, como “Sex Type Thing” e “Down”.

“Queríamos alguém que fizesse justiça com as músicas, mas que escrevesse material novo. Levou um tempo, mas achamos o cara”, disse Dean DeLeo à revista NME.

Apesar de ser um nome novo, Gutt, nascido em Michigan e pai solteiro de Talon, de dez anos, é um sobrevivente no melhor estilo rock n’ roll. Ele perseverou em uma trajetória repleta de meios acertos, formando dezenas de bandas desde a adolescência.

Em 2013, Gutt se inscreveu no reality musical “X Factor”. Foi bem e, na temporada 2014, chegou à final —um quase pelo qual agradeceria depois.

“Se tivesse ganhado, teria de seguir uma carreira pré-formatada e ficaria no purgatório pelo resto da vida. Mas acho que provei que sou mais do que só um cantor de TV.”

Seu desafio atual é imenso —como substituir duas das mais relevantes vozes do rock sem imitar nem profanar o legado?

“Estou tentando achar meu caminho, dar às músicas minha própria voz”, diz Gutt, lembrando que ainda se adapta à condição de celebridade.

Para fugir à tentação do cover, ele tem driblado armadilhas; não vai usar o megafone no palco nem cantar músicas de letras íntimas, como “Sour Girl”. “Meu desafio é aplicar o máximo de verdade, achar o meio-termo entre respeito e meu jeito. A ver se consigo.”

Stone Temple Pilots e Bush

  • Onde Credicard Hall - av. das Nações Unidas, 17.955, São Paulo. Sex. (14): 21h. Ingr.: R$ 120 a R$ 600. Km de Vantagens Hall RJ - av. Ayrton Senna, 3.000, Rio. Sáb. (15): 21h. Ingr: R$ 260 a R$ 590. Km de Vantagens Hall BH - av. Nossa Sra. do Carmo, 230, Belo Horizonte. Dom. (17): 21h. Ingr.: R$ 100 a R$ 450, p/ www.ticketsforfun.com.br.
  • Classificação 15 anos.

As muitas vozes do Stone Temple Pilots

Jeff Gutt Após tentar estourar no rock com dezenas de bandas e até avançar em duas temporadas do reality ‘X Factor’, foi escolhido o cantor do STP em 2017

Chester Bennington Assumiu a voz do STP em 2013, após a demissão de Weiland, e ficou na banda até 2016, conciliando o trabalho com seu grupo Linkin Park. Morreu em 2017

Scott Weiland Membro fundador do STP, gravou seis discos com a banda, além de dois álbuns com o Velvet Revolver e quatro trabalhos solo. Morreu em 2015

Outras bandas que sobreviveram à morte

AC/DC Após a morte de Bon Scott, em 1980, o grupo seguiu com Brian Johnson (foto) no vocal. Sua estreia foi o disco ‘Back in Black’, que fez do grupo australiano uma das bandas clássicas do rock

Alice in Chains O grupo liderado pelo guitarrista e vocalista Jerry Cantrell perdeu o cantor Layne Staley em 2002. Em 2006, William DuVall (foto) foi recrutado em seu lugar, e a banda segue na ativa

Rolling Stones Mick Jagger e Keith Richards assumiram as rédeas do grupo após a morte de Brian Jones (centro), até então o esteio conceitual da banda. Vieram discos clássicos e a consagração

Red Hot Chili Peppers Embora não fosse o rosto à frente, Hillel Slovak tinha criado o acento funk de guitarra que marca o som da banda. Foi sucedido por John Frusciante (terceiro da esquerda)

Queen Após a morte de Freddie Mercury, em 1991, foram anos até que o grupo se arriscasse com novas vozes. Primeiro foi Paul Rodgers (à esq.), de 2004 a 2009, e, depois, Adam Lambert

Para entender STP

'Core' (1992) Na estreia, a banda surfou a onda grunge, mais na linha do Alice in Chains do que na do Pearl Jam, que os críticos erroneamente a acusaram de copiar —muitos, como David Fricke, da Rolling Stone, fariam mea-culpa nas décadas seguintes

'Purple' (1994) A banda encontra sua voz como uma atração pós-grunge no segundo álbum e mira o Olimpo do rock com hits como “Vasoline”, “Interstate Love Song” e “Big Empty”

'Tiny Music... Songs from the Vatican Gift Shop' (1996) O quarteto tangencia o glam rock no terceiro disco, aclamado pela crítica e rechaçado pelo público; músicas como “And So I Know”, “Art School Girl” e “Daisy” flertaram até com a bossa nova

'N4' (1999) Após hiato durante o qual Scott Weiland lançou (ótimo) disco solo e os músicos gravaram o (bom) projeto Talk Show, o STP volta com som pesado, contíguo ao metal; com Sarah Michelle Gellar, vídeo da canção “Sour Girl” leva a banda de volta às paradas

'Shangri-La Dee Da' (2001) A banda atinge seu ápice criativo e estético neste que é um dos mais belos álbuns de rock do século 21, mas fracassa em fazer de canções como “Wonderful” um hit; a banda se separa, e Weiland entra no supergrupo Velvet Revolver

'Stone Temple Pilots' (2010) O grupo deixa as atmosferas taciturnas e repagina o hard rock no sexto álbum, o primeiro —e último— depois da segunda reconciliação com Weiland; músicas como “First Kiss on Mars” não alçam a atenção que mereciam

'Stone Temple Pilots' (2018) O sétimo álbum, o primeiro com Jeff Gutt, é razoável e brilha em destaques como “Meadow”, mas falta algo...

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