Descrição de chapéu Opinião

Globo de Ouro privilegia filme chapa-branca e visão agridoce sobre racismo

Diante de escolhas mais ousadas, associação de imprensa fez opções conservadoras em cinema

Viggo Mortensen, Peter Farrelly, Linda Cardellini e Mahershala Ali com as estatuetas de 'Green Book: O Guia'

Viggo Mortensen, Peter Farrelly, Linda Cardellini e Mahershala Ali com as estatuetas de 'Green Book: O Guia' Kevin Winter/Getty Images/AFP

Guilherme Genestreti
São Paulo

A última cerimônia do Globo de Ouro, que aconteceu no domingo (6), deveria ganhar a pecha de “GoldenGlobesSoWhite”, tamanha foi a consagração da chapa-branquice e de certa “visão branca” da história. 

Filmes carregados de tom político, como as comédias "Vice” e “A Favorita”, ou que tratam do racismo sem rodeios, caso dos dramas “Infiltrado na Klan” e “Se a Rua Beale Falasse”, foram preteridos pelos anódinos “Green Book” e “Bohemian Rhapsody”. 

A premiação sepultou esperanças de que Hollywood havia, enfim, aderido a obras mais arrojadas, num retorno à boa fase que marcou o cinema americano das décadas de 1960 e 1970. Em vez disso, ficou claro que a fórmula agridoce está longe de acabar —para frustração daqueles que aguardam uma produção mais condizente com as turbulências do mundo fora das telas.

Isso é grave se considerarmos que o Globo de Ouro é a largada da temporada de premiações e acontece no mesmo período em que os membros da Academia estão fazendo suas escolhas para o Oscar. É de se esperar que uma coisa não contamine a outra. 

Quatro dos longas indicados tratavam de questões raciais, a começar pelo surpreendente “Pantera Negra”, que toma emprestadas as convulsões dos Estados Unidos pós-movimento Black Lives Matter e as embala sob um filme de super-herói. 

“Se a Rua Beale Falasse”, de Barry Jenkins, recorre à obra de James Baldwin, um dos pilares do pensamento afro-americano, para falar de discriminação no Harlem. E “Infiltrado na Klan” marca um retorno à boa fase de Spike Lee, aqui traçando ligações diretas entre a organização racista  Ku Klux Klan e Donald Trump.

Além desses três dramas, todos dirigidos por cineastas negros, havia “Green Book: O Guia”, o único dirigido por um diretor branco, Peter Farrelly, e que acabou levando a estatueta em comédia, além das de roteiro e ator coadjuvante (para Mahershala Ali).

A história fala de um sujeito ítalo-americano (Viggo Mortensen) que aceita a tarefa de ser chofer de um jazzista negro (Ali) enquanto eles enfrentam a segregação do Sul do país nos anos 1960. É um longa que vê a desigualdade racial sob uma lente cor-de-rosa, como se ela fosse apenas uma chaga praticada por brancos malvados, e não a enfermidade estrutural que de fato é.

Com esse filme, Farrelly, oriundo de besteiróis politicamente incorretos, como “Quem Vai Ficar com Mary?” e “O Amor É Cego”, se “redime”, abraçando aquela que é a sua obra mais piegas. 

“Green Book” sofre de alguns dos mesmos males que “A Forma da Água”, vencedor do Oscar do ano passado. Há ali um excesso de bom-mocismo, uma opção pelo tom conciliatório que, em última análise, serve mais para manter o status quo do que para induzir a mudanças sociais. 

O longa de Farrelly é praticamente um “revival” de “Conduzindo Miss Daisy”, outro título algo delirante e com mensagem motivacional sobre um tema complexo como o racismo. 

Ao consagrar “Green Book”, a associação de imprensa estrangeira de Hollywood, que concede o Globo de Ouro, tomou uma decisão conservadora, para dizer o mínimo. Enviou a mensagem de que é contrária ao racismo, mas o fez optando pela obra menos ousada e a que menos ameaça o estado das coisas. Escolheu a visão branca sobre o racismo.

Em drama, “Pantera Negra”, “Se a Rua Beale Falasse” e “Infiltrado na Klan” foram suplantados por “Bohemian Rhapsody”, a cinebiografia quadradona que conta a trajetória da banda Queen. O longa desbancou ainda “Nasce uma Estrela”, o grande favorito da noite e que acabou ficando restrito ao prêmio de canção original.

Com duas estatuetas —a outra foi a de melhor ator dramático para Rami Malek por sua interpretação no papel de Freddie Mercury—, o filme foi a grande surpresa da noite e coroou a alta do filão de longas sobre músicos. 

Aqui, há que se apontar que é um gênero que padece por chegar às telas trazendo certa visão oficial e chapa-branca da história. A trama de “Bohemian Rhapsody” se esforça para não enfurecer ninguém, para não extrapolar nas cenas sobre os relacionamentos gays de Mercury ou  para retratá-lo de forma mais nuançada. É uma versão “Sessão da Tarde”, despida de riscos e ousadia.

Sintomático, aliás, que os integrantes do Queen —e fiadores do projeto— tenham subido ao palco com a vitória do filme. Subversivo, o rock merecia um tratamento bem melhor no cinema. 

Diretor do filme, Bryan Singer não foi convidado para a cerimônia e tampouco foi citado nos discursos. O cineasta foi demitido pela Fox e substituído antes de acabarem as filmagens. O estúdio se queixava das constantes ausências. Em uma rede social, o cineasta escreveu que se sentia "honrado" com o prêmio e agradeceu a estatueta. 

Já do lado dos vencedores, o saldo foi positivo para a Netflix. Em cinema, o serviço sob  demanda conquistou duas estatuetas graças a "Roma" (melhor direção e melhor filme estrangeiro), e, em televisão, amealhou outras duas por "O Método Kominsky". 

 

Veja a lista completa dos vencedores:

CINEMA

Melhor filme - Drama
"Bohemian Rhapsody", "Infiltrado na Klan", "Nasce uma Estrela", "Pantera Negra" e "Se a Rua Beale Falasse"

Melhor Filme - Musical ou comédia
"A Favorita", "Green Book: O Guia", "Podres de Ricos", "O Retorno de Mary Poppins" e "Vice"

Melhor atriz de filme - Drama
Glenn Close ("A Esposa"), Lady Gaga ("Nasce uma Estrela"), Nicole Kidman ("O Peso do Passado"), Melissa McCarthy ("Poderia Me Perdoar?") e Rosamund Pike ("A Private War")

Melhor ator de filme - Drama
Bradley Cooper ("Nasce uma Estrela"), Willem Dafoe ("No Portal da Eternidade"), Lucas Hedges ("Boy Erased - Uma Verdade Anulada"),Rami Malek ("Bohemian Rhapsody") e John David Washington ("Infiltrado na Klan")

Melhor atriz em filme - Musical ou comédia
Emily Blunt ("O Retorno de Mary Poppins"), Olivia Colman ("A Favorita"), Elsie Fisher ("Oitava Série"), Charlize Theron ("Tully") e Constance Wu ("Podres de Ricos")

Melhor ator em filme - Musical ou Comédia
Christian Bale ("Vice"), Lin-Manuel Miranda ("O Retorno de Mary Poppins"), Viggo Mortensen ("Green Book: O Guia"), Robert Redford ("The Old Man and the Gun") e John C. Reilly ("Stan & Ollie")

Melhor diretor
Adam McKay ("Vice"), Alfonso Cuarón ("Roma"), Bradley Cooper ("Nasce uma Estrela"), Peter Farrelly ("Green Book: O Guia") e Spike Lee ("Infiltrado na Klan")

Melhor atriz coadjuvante
Amy Adams ("Vice"), Claire Foy ("Primeiro Homem"), Emma Stone ("A Favorita"), Rachel Weisz ("A Favorita") e Regina King ("Se a Rua Beale Falasse")

Melhor ator coadjuvante
Adam Driver ("Infiltrado na Klan"), Mahershala Ali ("Green Book: O Guia"), Richard E. Grant ("Poderia Me Perdoar?"), Sam Rockwell ("Vice") e Timothée Chalamet ("Querido Menino")

Melhor roteiro
Adam McKay ("Vice"), Alfonso Cuarón ("Roma"), Barry Jenkins ("Se a Rua Beale Falasse"), Deborah Davis e Tony McNamara ("A Favorita"), Peter Farrelly, Nick Vallelonga e Brian Currie ("Green Book: O Guia")

Melhor filme em língua estrangeira
"Assunto de Família" (Japão), "Capernaum" (Líbano), "Girl" (Bélgica), "Nunca Deixe de Lembrar" (Alemanha) e "Roma" (México)

Melhor animação
"Homem-Aranha no Aranhaverso", "Os Incríveis 2", "Ilha dos Cachorros", "Mirai" e "WiFi Ralph: Quebrando a Internet"

Melhor trilha original para filmes
Alexandre Desplat ("Ilha dos Cachorros"), Marco Beltrami ("Um Lugar Silencioso"), Ludwig Göransson ("Pantera Negra"), Justin Hurwitz ("O Primeiro Homem") e Marc Shaiman ("O Retorno de Mary Poppins")

Melhor música para filmes
"All the Stars”, de "Pantera Negra"; "Revelation”, de "Boy Erased - Uma Verdade Anulada"; "Girl in the Movies”, de "Dumplin"; "Shallow", de "Nasce uma Estrela"; e "Requiem for a Private War", de "A Private War"

TELEVISÃO

Melhor série - Drama
"The Americans", "Bodyguard", "Homecoming", "Killing Eve" e "Pose"

Melhor série - Musical ou comédia
"Barry", "Kidding", "The Good Place", "O Método Kominsky" e "Maravilhosa Sra. Maisel"

Melhor série limitada ou filme para TV
"The Alienist", "O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story", "Escape at Dannemora", "Objetos Cortantes" e "A Very English Scandal"

Melhor ator em série - Musical ou comédia
Donald Glover ("Atlanta"), Bill Hader ("Barry"), Jim Carrey ("Kidding"), Michael Douglas ("O Método Kominsky") e Sascha Baron Cohen ("Who Is America") 

Melhor atriz em série - Musical ou comédia
Alison Brie ("Glow"), Candice Bergen ("Murphy Brown"), Debra Messing ("Will & Grace"), Kristen Bell ("The Good Place") e Rachel Broshnahan ("Maravilhosa Sra. Maisel")

Melhor atriz em série - drama
Caitriona Balfe ("Outlander"), Elisabeth Moss ("The Handmaid's Tale"), Julia Roberts ("Homecoming"), Keri Russell ("The Americans") e Sandra Oh ("Killing Eve")

Melhor ator em série - Drama
Billy Porter ("Pose"), Jason Bateman ("Ozark"), Matthew Rhys ("The Americans"), Richard Madden ("Bodyguard") e Stephan James ("Homecoming")

Melhor ator em série limitada ou filme para TV
Antonio Banderas ("Genius: Picasso"), Benedict Cumberbatch ("Patrick Melrose"), Daniel Bruhl ("The Alieniest"), Darren Criss ("O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story") e Hugh Grant ("A Very English Scandal")

Melhor atriz em série limitada ou filme para TV
Amy Adams ("Objetos Cortantes"), Connie Britton ("Dirty John"), Patricia Arquette ("Escape at Dannemora"), Laura Dern ("O Conto") e Regina King ("Seven Seconds")

Melhor ator coadjuvante em série, série limitada ou filme para TV
Alan Arkin ("O Método Kominsky"), Ben Whishaw ("A Very English Scandal"), Kieran Culkin ("Succession"), Edgar Ramirez ("O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story") e Henry Winkler ("Barry")

Melhor atriz coadjuvante em série, série limitada ou filme para TV
Alex Bornstein ("Maravilhosa Sra. Maisel"), Patricia Clarkson ("Objetos Cortantes"), Penélope Cruz ("O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story"), Thandie Newton ("Westworld") e Yvonne Strahovski ("The Handmaid's Tale")

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