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Brilhante, 'Vice' dosa trama e humor para reduzir Dick Cheney

Mágica de filme de McKey é unir fatos reais a diálogos inventados, mas verossímeis

Cena do filme 'Vice', de Adam McKay
Cena do filme 'Vice', de Adam McKay - Divulgação
São Paulo

Adam McKay fez em "Vice" o que Michael Moore passou a vida a tentar: uma crítica contundente, mordaz, sofisticada e crível, na qual a acidez não corrói o bom senso nem compromete a verdade.

Em sua cinebiografia de Dick Cheney, o vice nada decorativo de George W. Bush (2001-09), o diretor de "A Grande Aposta" a um só tempo ridiculariza o homem por trás da ideia de invadir o Iraque e mostra que as consequências de suas ações estão vivas dez anos após ele deixar o cargo e se dissipar no noticiário.

Aos 78, Cheney põe a cabeça fora do casco raramente, menos ainda após cair, no ano passado, em pegadinha do humorista Sasha Baron Cohen, que disfarçado de expert em segurança israelense o fez dar entrevista e autografar um kit de tortura (ops, técnicas reforçadas de interrogatório).

A mágica do filme de McKey é unir fatos reais a diálogos inventados, mas verossímeis, para cenas ocorridas no passado ou a portas fechadas. E deixar clara a fórmula. Assim, ressalta a tragicomédia em um personagem retratado até então apenas como um gênio da estratégia política.

O vice-presidente enxergado pelo cineasta, vivido com o vigor costumeiro pelo genial Christian Bale, é um tipo ardiloso porém mesquinho; de intelecto limitado mas muito obstinado. É arrivista e oportunista e pouco comprometido com quaisquer valores.

Ao injetar em Cheney um humor galhofeiro normalmente reservado a Bush, McKey apequena uma figura sombria cujo espectro ainda ronda responsáveis por criar políticas e ideias mundo afora.

Esse teor cômico é reforçado pela decisão de entregar o papel de Bush a Sam Rockwell ("Três Anúncios para um Crime") e Donald Rumsfeld, o secretário de Defesa e mentor/parceiro de Cheney, a Steve Carell ("Querido Menino"). Com Bale e Amy Adams como Lynne Cheney, fica difícil pensar em elenco melhor.

Para quem acompanhou a política americana na primeira década deste século, o filme é uma recapitulação competente e quase nostálgica.

Estão ali as guerras em suas gestações e consequências, as ideias tortas, o linguajar marqueteiro que continua a moldar ideias, a normalização da tortura e da espionagem que estarreceriam o mundo ao virem a tona, quando não esperávamos que absurdos maiores apenas se amontoariam.

De novo, só há a revisão do papel de Lynne Cheney, apresentada como metade de um casal ambicioso à Bill e Hillary.

Escritora, professora e brevemente apresentadora de talk-show, Lynne sempre operou à sombra de um sujeito que era a própria escuridão. Ao mostrá-la como o pulso mais firme do casal, McKey dá em seu alvo o tiro derradeiro.

 

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