Descrição de chapéu Artes Cênicas

Em era de conservadorismo, peças discutem a intolerância e os conflitos de relações

'Tom na Fazenda' estreia em SP, 'O Preço', de Arthur Miller, ganha montagem, e espetáculo reúne textos de Matéi Visniec

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Tom perdeu o namorado num acidente e somente após o infortúnio conhece a família do companheiro. No encontro, descobre que os parentes, um tanto conservadores, não sabiam que o rapaz era gay, tampouco que Tom era mais que seu amigo. Mas o protagonista de "Tom na Fazenda" não consegue esclarecer os fatos e se enreda num jogo de mentiras.

Quando estreou uma montagem brasileira da peça do canadense Michel Marc Bouchard (já levada ao cinema por Xavier Dolan), o ator e produtor Armando Babaioff temia que ela se tornasse algo de nicho, restrito ao público gay.

"Mas esse sentimento foi por água abaixo na primeira semana", diz ele. A peça foi sucesso no Rio de Janeiro, onde fez temporadas por dois anos e levou dois prêmios Shell —para o diretor Rodrigo Portella e para o ator Gustavo Vaz— e agora chega a São Paulo.

"Há questões pilares da sociedade, principalmente sobre a verdade e a mentira e como as pessoas têm dificuldade em se conectar", diz Babaioff.

Essa é uma discussão sobre a intolerância, os conflitos de relações e os discursos inverídicos que tem ganhado bastante corpo num momento em que se assiste a uma ascensão do conservadorismo e de ideias extremistas.

"Você escolheu a fantasia, não está olhando para a verdade da vida", diz o diretor Gustavo Paso, citando um trecho de "O Preço", que ele estreia com sua CiaTeatro Epigenia.

Erom Cordeiro, Luciana Fávero e Romulo Estrela na peça "O Preço", montagem da CiaTeatro Epigenia, com direção de Gustavo Paso, para o texto de Arthur Miller
Erom Cordeiro, Luciana Fávero e Romulo Estrela na peça "O Preço" - Gustavo Paso/Divulgação

Primeira parte de uma trilogia com obras do americano Arthur Miller, a peça trata de dois irmãos (aqui vividos por Erom Cordeiro e Romulo Estrela) que se reencontram anos depois da morte do pai para tratar de desocupar a casa paterna, até então intacta. Mas entram em conflito sobre suas escolhas e aquilo que escondem um do outro.

"A peça tem essa mensagem: viva a vida de verdade, saia dessa fantasia que está lhe atrapalhando", diz Paso.

Num caminho afetivo e também abstrato vai "Condomínio Visniec", reunião de monólogos retirados da coletânea "O Teatro Decomposto ou O Homem - Lixo", do romeno Matéi Visniec. Na montagem, costuram-se seis textos que tratam de personagens solitários. De uma maratonista que não consegue parar de correr a um bicho da maçã em crise existencialista ou um adestrador que sente prazer em ser devorado por seus animais.

"É uma meditação poética sobre a existência humana", comenta a diretora Clara Carvalho, que há quatro anos coordena uma oficina de estudos sobre a obra de Visniec.

A cada monólogo, o restante do elenco forma um coro que, em vez de cantar ou falar, enseja uma ambientação, seja com sons de respiração ofegante ou criando imagens coreográficas com os corpos, como se representasse o âmago de cada personagem em crise.

O instinto, no caso de "Tom na Fazenda", surge também na cenografia. Na encenação de Rodrigo Portella, o palco e todo o elenco vai sendo sujado aos poucos de lama.

Trata-se de uma referência ao espaço onde se passa a história, uma fazenda, mas também ao primitivo que leva os personagens a reações intolerantes e virulentas. E ainda, complementa Babaioff, a "essa lama que a gente não vê, a lama do Brasil, da sociedade". Enfim, as mazelas que escondemos e não queremos ver.

 

Condomínio Visniec
Sesc Ipiranga, r. Bom Pastor, 822. Qui. e sex., às 21h30, sáb., às 19h30, dom., às 18h30. De 15/3 a 7/4. Ingr.: R$ 6 a R$ 20. 14 anos

O Preço
Sesc Copacabana, r. Domingos Ferreira, 160, Rio. Qui. a dom., às 19h. De 14 a 31/3. Ingr.: R$ 7,50 a R$ 30. 12 anos

Tom na Fazenda
Sesc Santo Amaro, r. Amador Bueno, 505. Sex. e sáb., às 21h, dom., às 18h. De 16/3 a 14/4. Ingr.: R$ 9 a R$ 30. 18 anos

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