Descrição de chapéu

Gigantes abatem 'Jenifer' e a ilusão de que é possível opor-se à indústria dos hits

Alçada a 'sucesso do verão', canção teve queda vertiginosa e chegou ao Carnaval atrás de fenômenos

Rafael Gregorio
São Paulo

Nos últimos meses do ano passado, poucos teriam apostado que o ano novo começaria sob a égide de “Jenifer”.

Em semanas, a canção escrita por um grupo de compositores de Goiânia e tornada célebre na voz de Gabriel Diniz virou o mais famoso hit do país e favorita ao título simbólico de “hit do Carnaval”, no embalo de um vídeo bem-humorado e de letra sobre aspectos com os quais nós, pessoas comuns, nos identificamos —rejeição, solidão, paquera via aplicativos e volta por cima.

Reportagens se apressaram em analisar o fenômeno: por quanto tempo lideraria paradas? Que qualidades justificam seu sucesso? Haverá um tsunami de Jenifers nos jardins da infância em 2025? Como vivem e o que pensam as homônimas na vida real?

Sem falar nas perguntas de alguns milhões de reais. Qual teria sido o desempenho de “Jenifer” se não tivesse sido alçada a “hit do verão” e como antecipar as próximas febres?

Em uma era de métricas virtuais, a ascensão da canção parece ter feito a corrida cair no gosto popular. Notícias e redes sociais passaram a fazer dos rankings o assunto.

Assim, foi possível ver em tempo quase real como ela nunca parou de cair desde que virou febre, no início de janeiro. À chegada da folia, não só havia sido destronada, no YouTube, no Spotify e no Deezer, por “Bola Rebola” e “Terremoto”, de Anitta, como suava para se manter no top dez.

Nas rádios, onde nunca mostrou a mesma pujança do digital, a música também cedeu os primeiros lugares a novas apostas de ícones do sertanejo pós-universitário, como mostram dados da consultoria Crowley: “Cem Mil”, de Gusttavo Lima, “Bem Pior que Eu”, de Marília Mendonça, e “Estado Decadente”, de Zé Neto e Cristiano.

E, quando se analisa um recorte temporal maior, sobressaem sucessos mais perenes, como “Atrasadinha”, de Felipe Araújo (com Ferrugem).

A canção continua uma esfinge a decifrar. Talvez só saibamos agora que seu maior atrativo tenha sido deslocar o holofote para alvos distintos dos suspeitos usuais: Anitta e nomes fortes do sertanejo e do funk, com picos ocasionais de outras estrelas, como Wesley Safadão e Ludmilla.

Ao opor os estandartes de sempre, o simpático hit pop e seu carismático mensageiro fizeram crer que é possível subverter a linha de montagem da indústria dos sucessos.

Em outras palavras, “Jenifer” reavivou a fábula pop segundo a qual qualquer um pode escrever uma canção de ritmo pegajoso e letra identificável e, assim, vencer a máquina. Tipo Davi versus Golias.

De fato, a música brilhou, mas seus dividendos não foram comparáveis aos de outros sucessos.

Mesmo Michel Teló, pouco conhecido à época da febre “Ai, Se Eu te Pego”, em 2011/2012, tinha por trás de seu nome um esteio que o permitiu engatar novos sucessos, algo que Diniz ainda não logrou obter com “Safadezinha”, sua aposta subsequente a “Jenifer”.

Alcançar a pujança de uma Anitta ou de um Gusttavo Lima demanda mais que um refrão e uma boa história.

É preciso construir, paciente e estrategicamente, os pilares multidisciplinares —música, comportamento, posicionamento (a)político, consumo e status com influenciadores— sobre os quais se escoram os fenômenos de massa.

Esse é outro jogo.

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