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'Carcereiros' humaniza dramas de presos em meio a debate sobre criminalidade

Série inspirada em livro de Drauzio Varella volta à Tv com 14 novos episódios

Paraíba (José Loreto) espera por Rejane, mas ela não aparece em cena da segunda temporada de 'Carcereiros'

Paraíba (José Loreto) espera por Rejane, mas ela não aparece em cena da segunda temporada de 'Carcereiros' Ramon Vasconcelos/Rede Globo

Guilherme Genestreti
São Paulo

Na pele de um presidiário que se contorce como  um cão raivoso, o ator José Loreto bate em todo mundo e escancara a boca ensopada de sangue. A fúria animalesca de seu personagem na segunda temporada de “Carcereiros” só é aplacada com mulher, segundo os agentes penitenciários que têm de domá-lo.

Mas e se a esposa do sujeito, que sossega sua ira por meio de cartas apaixonadas, já não quer mais saber dele? Daí os seus disciplinadores terão de achar outro jeito para o rapaz não atrapalhar o equilíbrio sempre delicado da cadeia.

Inspirada no livro homônimo de Drauzio Varella, colunista da Folha e médico voluntário em instituições penais há 30 anos, a série volta à TV aberta a partir da noite desta terça (16). Em cena, histórias que destrincham a micropolítica penitenciária, isto é, os xadrezes operados pelos carcereiros, e os dramas pessoais dos que estão encarcerados. 

Os 14 novos episódios vão ao ar num momento quente para discussões, com Sergio Moro tentando aprovar um pacote anticrime que reza pela cartilha do endurecimento.

Diretor-geral da atração, José Eduardo Belmonte está ciente do nervo que ela toca. 

“As pessoas têm posições radicais, querem soluções fáceis, mas o sistema é medieval, não recupera ninguém”, diz. “Para a criminalidade baixar, o tratamento ali tem que melhorar.”

O agente penitenciário Adriano (Rodrigo Lombardi) é quem mais uma vez assume o fardo de ser “ético e humanista”, na descrição do diretor, enquanto lida com um sistema deteriorado. Sua história é inspirada na de carcereiros reais, que dão as caras nos episódios contando suas histórias entre uma cena e outra. 

Só que desta vez, a ação, que deu o tom à primeira temporada, agora cede mais espaço ao drama dos personagens. Além da rotina, Adriano lida ainda com a prisão de sua namorada (Letícia Sabatella). 

A trilha sonora, composta pelos irmãos Guilherme e Gustavo Garbato para nomes como Tiê e Liniker, adensam essa guinada mais emotiva.

Outra mudança vem na ambientação. Os 15 episódios da primeira temporada foram filmados num presídio real, na cidade paulista de Votorantim, que ainda não estava em operação. Com a abertura, a produção da série teve que optar por construir cenários. 

Não deixa ser um ganho, segundo Belmonte. “As novas penitenciárias estão cada vez mais americanizadas.”

Com os cenários, diz, puderam construir celas que estão mais no “imaginário brasileiro”. Por “brasileiro”, ele deve se referir à imagem cristalizada de solitárias apertadas, varais, travas pesadas e fotos de mulheres nuas coladas na parede. 

É o que aparece no longa “Carandiru”, de Hector Babenco, e nas obras desse quase gênero que é o filme de penitenciária. No segundo semestre, “Carcereiros” irá engrossar essa prateleira. É quando deve ser lançado o filme derivado do seriado, produzido pela Gullane e pela Spray Filmes. 

“É mais próximo da primeira temporada, mas com história toda nova”, diz Belmonte.

Diretor que começou sua carreira no cinema, em filmes como “A Concepção” e “Meu Mundo em Perigo”, ele crê ter conseguido experimentar mais com as séries, “em termos estéticos e narrativos”. “As fronteiras estão difusas.”

Tão difusas que os episódios de “Carcereiros” já estão na plataforma Globoplay, antes de irem ao ar na TV —uma estratégia da Globo para fazer frente ao domínio das americanas Netflix, Amazon, Disney e Apple, que estão repartindo o mercado do streaming.

Carcereiros
Terças, por volta das 23h, na Globo; todos os episódios da segunda temporada disponíveis no Globoplay

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