Filme 'Filho Nativo' atualiza livro de 1939 sobre negro na sociedade americana

Produção da HBO sobre a experiência negra é baseada em livro de Richard Wright

Fernanda Ezabella
Nova York

Resgatar um personagem de 1939 e atualizá-lo para os dias de hoje forçou o diretor estreante Rashid Johnson a pensar no que mudou, de fato, nos EUA, especialmente para um jovem negro e pobre de Chicago.

“Filho Nativo”, que estreia na HBO nesta segunda (8), é baseado no livro de mesmo nome de Richard Wright (1908-1960), escritor influente que ajudou a pensar as relações entre brancos e negros no país. Na história, um garoto de origem humilde tem a chance de trabalhar como motorista para uma família de brancos abastados, até que um crime interrompe sua carreira.

“É um personagem que negocia com o medo o tempo todo. Muita coisa mudou desde 1939. Mas queria abordar a fragilidade do sistema, raça, masculinidade, disparidade econômica... São temas que ainda debatemos”, disse o diretor, conhecido como artista plástico, nos escritórios da HBO em Nova York. “Os resultados da atualização dessa história são trágicos e frustrantes”.

Apesar da vibração jovem e da camaradagem inicial do filme, seja entre os amigos negros ou entre os novos amigos brancos do protagonista, Bigger Thomas, o filme logo toma uma direção desconfortável com um assassinato na mansão da família Dalton. Mesmo sem vilões aparentes, o espectador presencia o crime e passa a julgar as ações de Bigger.

Cena do filme 'Native Son', de Rashid Johnson
Cena do filme 'Filho Nativo', de Rashid Johnson - Divulgação

Pela mansão, o diretor acrescentou trabalhos de arte de colegas e até uma pintura sua. É possível ver obras de Kara Walker, Sam Gilliam e Henry Taylor, todos artistas afro-americanos. “É uma família bem-intencionada e atenciosa. O fato de terem uma coleção de arte com tantas histórias complicadas… bem, é algo sobre sua psicologia que queria explorar”.

A história de Wright já foi transformada em filme outras duas vezes, a primeira estrelada pelo próprio autor, em 1951, e depois em 1986, com Matt Dillon e Oprah Winfrey. Agora, no papel principal de Bigger Thomas está Ashton Sanders, ator da produção ganhadora do Oscar “Moonlight” (2016), numa performance elogiada em sua pré-estreia no festival Sundance, em janeiro.

Na tentativa de fugir de clichês e trazer tipos diferentes de vidas negras às telas, Bigger Thomas virou um jovem que curte punk rock e música clássica, e não os típicos hip-hop e rap, além de pintar as unhas de preto e o cabelo de verde. Ele tenta andar na linha e não aceita emprego de traficante, mas fuma maconha e arranja drogas para a filha de seu novo patrão.

“Depois desse projeto, percebi como os EUA podem fazer com que um homem negro perca o controle. Mesmo quando você acha que está tudo bem, algo pode acontecer do nada e arruinar tudo”, disse Sanders, vestindo um gorrinho preto parecido com o de seu personagem, enrolado na testa até bem perto dos olhos.

“O filme é sobre a experiência negra. Sobre os medos e as ansiedades que sentimos em meio à sociedade branca. E também sobre a esperança que existe. E o sentimento de isolamento. Tudo isso junto pode te deixar maluco”.

Ainda assim, Sanders está otimista com o “renascimento artístico” da comunidade afro-americana em Hollywood, embora com um certo pé atrás. “Com frequência, negros viram fetiche na indústria do entretenimento. Mas temos muitos trabalhos bons sendo lançados nos próximos anos”, disse.

Entre os privilegiados brancos da família Dalton, está a estudante e ativista Mary, interpretada por Margaret Qualley (da série “The Leftovers”). Ela concorda que sua personagem “cheia de boas intenções” é desagradável e frustrante.

“Mary acha que Bigger é um cara bacana e quer se aproximar dele o quanto pode e, você sabe, capitalizar essa amizade”, diz Qualley, que faz par no filme com Nick Robinson (“Com Amor, Simon”). “Mary comete erros não porque é racista e sim por causa de sua perspectiva limitada”.


Para Robinson, o livro de 1939 segue bastante relevante e é muito mais brutal e perturbador que o filme. “Racismo sistemático ainda existe, mas de forma muito sutil. E o filme ilumina justamente onde está o racismo, como existe e quais as consequências para os envolvidos”, acredita.

Filho Nativo (Native Son)

  • Quando Estreia em 8/4 na HBO
  • Preço 108 min
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Ashton Sanders, Margaret Qualley e Nick Robinson
  • Produção EUA, 2019 (108 min)
  • Direção Rashid Jones
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