Provocador e eclético, Zizek dobra a aposta contra o capitalismo

Filósofo marxista trava embate com o psicólogo direitista Jordan Peterson

Rodnei Nascimento

Qual o melhor caminho para a felicidade: o capitalismo ou o marxismo? A dúvida que atormentou o século 20 parecia superada após a derrocada do comunismo, mas voltará ao foco no mais aguardado duelo intelectual dos últimos tempos.

No dia 19 de abril, o canadense Jordan Peterson e o esloveno Slavoj Zizek têm um encontro marcado no teatro Sony Centre, em Toronto, onde discutirão qual dos dois rumos pode garantir mais prosperidade ao mundo. Os 3.191 ingressos colocados à venda estão esgotados. O site www.jordanvsslavojdebate.com fará a transmissão online ao vivo, ao custo de US$ 14,95 (cerca de R$ 60) por usuário, a partir das 20h30 (horário de Brasília). 

Psicólogo e professor da Universidade de Toronto, Peterson se define como um liberal clássico conservador e ganhou fama com vídeos no YouTube ao se opor a um projeto de lei canadense que regulamenta o uso de pronomes neutros para transgêneros. É autor do best-seller “12 Regras para a Vida” (Alta Books). 

No oposto do espectro político, Zizek é um dos mais renomados e profícuos pensadores marxistas da atualidade. Professor da Universidade de Liubliana e diretor internacional do Instituto de Humanidades do Birkbeck College (Universidade de Londres), aponta que a esquerda erra ao privilegiar políticas identitárias em vez de concentrar esforços na luta contra o capitalismo.

[RESUMO]  Há 30 anos presença constante no debate intelectual por sua abordagem rigorosa e provocativa de assuntos variados, filósofo esloveno concilia Hegel, Marx e Lacan em intervenções que apontam o capitalismo como a batalha principal da esquerda.

Desde a publicação do seu primeiro livro em inglês, "O Sublime Objeto da Ideologia", em 1989, o filósofo esloveno Slavoj Zizek tem sido uma presença constante no debate filosófico, político e cultural mundo afora. Sua obra, volumosa 30 anos depois, versa sobre ampla gama de temas, do conceito de absoluto em Hegel à globalização econômica, da noção lacaniana de real ao cinema de Hollywood, da crítica da ideologia em Marx à teologia cristã, da ópera de Wagner ao feminismo.

O destaque conquistado como intelectual público se deve, em boa medida, a sua capacidade de oferecer sempre um ponto de vista inesperado e, sobretudo, provocativo a respeito desses assuntos, além de seu talento didático de explicar as teorias filosóficas mais abstratas a partir de exemplos da cultura popular e do mundo cotidiano.

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O filósofo esloveno Slavoj Zizek em imagem de 2012 - Ulf Andersen/Aurimages/AFP

A performance, contudo, não consiste apenas em pular de um assunto ao outro ao sabor das circunstâncias e das modas intelectuais. O filósofo pretende que suas intervenções estejam armadas rigorosamente por uma inusitada junção de matrizes teóricas aparentemente tão distantes como a psicanálise lacaniana, a filosofia hegeliana e a crítica marxista da ideologia.

Deve-se antes de tudo evitar ver nisso uma intenção eclética de combinar um pouco de cada uma dessas correntes teóricas. Por paradoxal que possa parecer, para Zizek, Lacan é essencialmente hegeliano, da mesma maneira que Marx, com a noção de ideologia, foi o verdadeiro inventor da noção psicanalítica de sintoma, como declarou certa vez o próprio Lacan. Todas essas diferentes linhagens intelectuais devem ser tomadas, na verdade, como um tríptico composto de Hegel com Lacan e Marx.

Para sustentar sua coerência, essa nova compreensão tem que afastar, evidentemente, as leituras convencionais tanto de Hegel como de Lacan. Assim, Hegel deixa de ser o filósofo do espírito absoluto, aquele que explica a constituição da história e do sujeito como um processo lógico que encontra seu acabamento na unidade da razão. Do mesmo modo, abandona-se em Lacan o processo psicanalítico entendido como resgate da verdade do sujeito pela lógica do reconhecimento intersubjetivo ou do desejo de reconhecimento.

Dessa perspectiva de leitura, o que sobressai em Hegel é o papel central da negatividade na formação da subjetividade humana, um processo ininterrupto que nunca alcança seu fim. Lacan, na fase final da sua obra, mostra-se um hegeliano ao privilegiar a lógica da incompletude radical do sujeito, da falta essencial no outro, em detrimento de uma verdade do sujeito.

O traço comum que se destaca em ambos é a ideia de uma subjetividade humana vazia, que Lacan denotou, algo ironicamente, pelo nome de real: a lacuna ou a falha constitutiva do sujeito, que jamais é preenchida ou superada, mas que, não obstante, estrutura a vida humana como uma experiência traumática.

A busca quase sempre frustrada pelo real é a grande paixão que move a todos, tanto no plano individual quanto no político. A releitura dessa noção e a centralidade conferida a ela permitirão a Zizek interpretar os grandes acontecimentos históricos das últimas décadas e se posicionar criticamente diante dos movimentos sociais de contestação do capitalismo.

Não se trata de aplicar os conceitos psicanalíticos a um domínio que lhes é exterior, mas de reconhecer-lhes uma dignidade filosófica muito além dos processos psicológicos. Ou seja, lidos filosoficamente, esses conceitos são capazes de expressar a estrutura íntima da nossa realidade ou pelo menos ajudar a compreender como é possível a esta se organizar em torno de uma fissura elementar.

peterson e zizek
Ilustração de capa da Ilustríssima - Carcarah

No plano social, as tentativas fantasiosas de preenchimento do real ou de torná-lo possível resultarão nas diversas formas de ideologia. O mecanismo da ideologia consiste em criar a ilusão de possibilidade de superar a cisão que atravessa a realidade social, transferindo para um objeto externo os obstáculos à realização dos seus objetivos.

Um exemplo claro do funcionamento desse mecanismo ideológico foi, sem dúvida, o nazismo. Na Alemanha nazista, a fantasia ariana imputava aos judeus a responsabilidade pelo bloqueio à criação de uma raça pura e de uma sociedade homogênea.

Vejam que o truque não consiste apenas em criar uma fantasia verossímil, mas em adiar indefinidamente a realização dos seus anseios, visto que o encontro com o seu real significaria o reconhecimento de sua própria impossibilidade de existência. Nesse sentido, o "judeu" não é apenas um obstáculo, mas um obstáculo funcional, na medida em que, sem ele, o nazismo perde todo o seu sentido.

O caráter renitente da ideologia remete a um outro elemento, ainda mais surpreendente, de sua natureza —sua dimensão objetiva. Para lembrarmos os termos de Marx na crítica da economia política, a ideologia não é uma simples aparência que oculta uma verdade mais essencial, uma "falsa consciência", mas sim uma "ilusão necessária" ao funcionamento da engrenagem social.

No capitalismo, a ilusão consiste na crença de uma troca de equivalentes no momento de compra e venda da força de trabalho, isto é, na igualdade entre trabalhadores e capitalistas. No âmbito da circulação das mercadorias, há certa verdade nisso, visto que a força de trabalho é remunerada pelo seu valor, como qualquer mercadoria, e os agentes contratam livremente entre si.

Essa igualdade e liberdade se vão mostrar fictícias somente no instante da produção das mercadorias, quando a força de trabalho produz mais valor do aquele pelo qual foi paga e quando, sobretudo, o trabalhador se reproduz separado dos meios de produção, na medida em que não se apropria dos resultados de sua atividade.

Desprovido de toda propriedade, a não ser a da sua força de trabalho, o trabalhador se vê obrigado a vendê-la novamente no mercado, onde se depara mais uma vez com a "ilusão" da igualdade e da liberdade, prosseguindo assim a acumulação infinita do capital.

Estaria, então, todo enfrentamento com o real —ou, na afirmação de Zizek, com seu homólogo estrutural, o capital— destinado a cair nas artimanhas da ideologia? A história recente parece confirmar essa conclusão.

Recordemos o 11 de Setembro de 2001, analisado pelo filósofo esloveno em "Bem-Vindo ao Deserto Real!" (2002). Uma verdadeira "paixão pelo real" animou o ataque suicida que lançou os aviões contra os edifícios simbólicos do capitalismo mundial. Um ato de violência deveria ser capaz de denunciar ao mundo a verdadeira natureza opressora do imperialismo americano.

No entanto, o que se viu é que mesmo um ato de radicalidade política se transformou num mero espetáculo de destruição, revelando a fragilidade do seu poder de negação. O desejo de ruptura se deparou com o vazio de sua própria ação.

Nada mais distante de Zizek do que endossar o discurso pós-moderno segundo o qual tudo é imagem ou simulacro. Um ataque terrorista não é, por certo, mera virtualidade. Ele põe abaixo, de fato, edifícios inteiros, causa mortes e destruição. No entanto, sua intenção transformadora torna-se inócua quando guiada pelo desejo de atingir o real. O que parecia ser a transgressão máxima se viu assimilado sob a forma de imagens televisivas.

Mas, se é assim, se mesmo os projetos políticos mais radicais parecem condenados ao fracasso, como enfrentar esse poder fetichista do real que inverte no seu contrário o sentido da ação humana? Para Zizek, certamente não se trata de propor uma aliança cínica e resignada com a realidade existente, mas tampouco de repetir as estratégias da "paixão pelo real".

O equívoco não estaria no desejo de quebrar as falsas significações, as formas de vida artificiais, alienadas ou repressoras, mas na ilusão de que sua ação possa se completar numa ordem de realidade em que os indivíduos se realizem plenamente.

Para retomar nos termos iniciais, o encontro com o real não é impossível no sentido de algo que nunca acontece, mas no sentido de que é um encontro traumático que nem sempre somos capazes de enfrentar. E uma das estratégias usadas para evitar enfrentá-lo é situá-lo como um ideal indefinido, eternamente adiado.

Em "O Sujeito Incômodo" (1999), Zizek designa o capital como o real da era moderna, um real simbólico que molda toda a nossa vida a partir da dimensão econômica. E, tal como o real lacaniano, permanece como uma estrutura neutra e sem sentido, que subjaz como um resto a todas as formas de simbolização possíveis. Nesse sentido, a esfera econômica não é uma esfera social entre outras, mas sim aquilo que o filósofo marxista György Lukács chamava de protoforma de todas as relações sociais.

Ora, considerando ainda que é através do simbólico que podemos intervir no real e transformar a maneira como ele condiciona as diversas camadas de realidade, a primeira providência de toda política de esquerda seria reconhecer a prioridade da luta anticapitalista diante das demandas de gênero, raça e das minorias. Sem negar a importância dessas últimas, o combate fundamental de uma política de esquerda deve ser contra o capitalismo.

Não é essa disposição, no entanto, que Zizek percebe nos movimentos de esquerda atuais. O que há de comum em todos eles, a seu ver, é o esquecimento da economia como ponto primordial da batalha. 

Desde as lutas identitárias do multiculturalismo pós-moderno —como ele denomina os movimentos por direitos dos gays, as demandas das minorias étnicas e as políticas de tolerância— até a versão atual e diluída da social-democracia europeia conhecida como terceira via, passando ainda pela aspiração a uma política emancipatória pura —tal como formulada, entre outros, por Alain Badiou, Jacques Rancière e mesmo Ernesto Laclau e Chantal Mouffe— o que se nota é a mesma ausência de reconhecimento do capitalismo como problema central da vida social moderna.

Nesse diagnóstico, diga-se de passagem, Zizek não deixa de se vincular à tradição clássica e um tanto convencional do marxismo, como ele mesmo admite.

O que lhe parece problemático nas demandas incondicionais de uma política pura, como a de um Badiou e sua exigência por mais igualdade e liberdade, ou por uma democracia radical e uma hegemonia antineoliberal, como a de Laclau e Mouffe, é o seu caráter abstrato e, portanto, pouco efetivo do ponto de vista da luta prática.

Zizek não duvida do caráter anticapitalista desses autores, todavia lamenta neles a ausência de uma crítica da economia política.

O mesmo não se pode dizer a respeito dos ideólogos da terceira via, que simplesmente assumem o capitalismo globalizado como horizonte último da nossa sociedade e querem saber apenas como se inserir de maneira vantajosa nesse sistema —se possível, preservando um nível mínimo de igualdade e bem-estar. Essa perspectiva parece, no entanto, ter se inviabilizado praticamente desde a ascensão da extrema direita nacionalista com uma pauta antiglobalização.

Com relação aos identitários, o que Zizek lhes reprova é o fato de se limitarem a reivindicar o direito a uma narrativa sobre si mesmos e ao reconhecimento de suas identidades particulares no interior do capitalismo, sem questionar a relação da sua condição de marginalização com a dinâmica mais ampla da sociedade. Com isso, abrem mão não só do conhecimento do todo no qual estão inseridos mas também da própria verdade sobre si mesmos.

Contra os particularismos de gênero, raça e nacionalidade, Zizek defende um universalismo situado socialmente, um pouco à maneira como o Marx da juventude concebia o papel revolucionário do proletariado. Por ser uma classe cujos "sofrimentos são universais", sua reparação não pode ser particular, mas o resgate da humanidade como tal.

Nesse sentido, o proletariado é uma classe universal que não pode emancipar a si mesma se não emancipar a humanidade inteira.

Zizek reconhece que nos dias atuais a classe operária perdeu a centralidade que possuía no passado, por conta das reconfigurações técnicas do processo de trabalho, porém não deixa de afirmar a persistência no capitalismo contemporâneo de uma posição abjeta representada pelos desempregados, pelas populações periféricas e pelos imigrantes, cuja simples existência desnuda a verdade do sistema, seu caráter excludente e o segredo da sua própria condição social.

Por sua posição extrema, somente as demandas políticas desses grupos —e não um limite ético, normativo ou ecológico— colocam em xeque o funcionamento de uma falsa totalidade e oferecem hoje a única perspectiva de uma transformação efetiva do capitalismo.

Pode ser que estejamos diante de apenas mais uma armadilha do real, mas todo ato transformador comporta um risco, sem garantias quanto ao resultado final.

Aceitar esse risco torna-se incontornável quando os referenciais disponíveis para a ação não são mais capazes de ensejar uma mudança verdadeira. Nesse momento, é preciso apostar que o ato cria as condições do seu próprio êxito. 


Rodnei Nascimento é professor de filosofia política do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo.

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