Montagem revisita ápice da epidemia do HIV

Com encenação da Cia Armazém, peça 'Angels in America' confina personagens em drama psicológico e fantástico

Cena da peça Angels in America, da Cia Armazém
Lisa Eiras e Thiago Catarino, em cena da peça 'Angels in America', da Cia Armazém - Divulgação
Gustavo Fioratti
São Paulo

Os avanços da medicina no tratamento de portadores de HIV colocaram “Angels in America” na prateleira das peças de época: no início dos anos 1990, receber o diagnóstico de Aids era praticamente uma sentença de morte, e é essa atmosfera trágica que embrulha o texto do americano Tony Kushner.

Como revisitar —em um momento menos triste, quando o paciente com HIV já tem a seu favor medicamentos que permitem conviver com a doença sem muito risco— a abordagem sobre uma epidemia que se alastrou pelo mundo? 

A Cia Armazém, que apresenta nova versão para o texto a partir desta sexta (3), no Sesc Vila Mariana —com cinco horas, a peça tem duas partes em sessões distintas—, tem uma resposta para essa pergunta. 
O grupo escolheu encenar a peça no início do ano passado, e seu diretor, Paulo de Moraes, reconhece que a obra, “há cinco ou seis anos, poderia parecer datada”, principalmente na proposição temática.

Não é apenas por retratar um passado dramático já em vias de superação. A natureza dos conflitos psicológicos e a pauta sobre preconceitos e diálogos de alta carga emocional situam a peça como exemplar de uma identidade que chegou a ser recusada quando a dramaturgia teatral passou a experimentar o estilhaçamento disso tudo.

Seu protagonista, Prior Walter (Jopa Moraes), recebe o diagnóstico da Aids. Seu namorado, Louis (Luiz Felipe Leprevost), abandona-o. Em paralelo, corre a história de um advogado conservador (Sérgio Machado) que também está com a doença. E há na peça outros personagens que vão desdobrar essa narrativa em cenas sobre sexualidade, intolerância, medo da morte, atos de fé e de coragem.

“Sou apaixonado por esse textos desde que o conheci, na década de 1990”, diz Moraes, logo após um ensaio do segundo e último ato da peça, realizado em um galpão na Lapa, sede de seu grupo, no centro do Rio de Janeiro. 

“É difícil encontrar um texto que trabalhe a questão trágica do humano de maneira tão crua e, ao mesmo tempo, crie uma narrativa fantástica, na qual há aparição de fantasmas, menção a profecias, a imagem do paraíso, anjos”, diz, trazendo à pauta outra qualidade do texto —ele não recusa uma aproximação religiosa.

Se, por tudo isso, “Angels in América” pareceria madura há cinco ou seis anos, algo aconteceu. “A peça ganhou vigor, conforme o mundo foi entrando em um buraco”, diz Moraes, sobre as vitórias de pautas conservadoras. “Estamos em um momento em que o ódio está todo de volta, e a história busca um lugar de compartilhamento” —inclusive nos diálogos discursivos.

Também chama a atenção do diretor o fato de o protagonismo da peça se diluir conforme ela evolui. Personagens coadjuvantes vão tomando o centro do palco, chegando a deslocar a noção do que seria um personagem central.

Nos remete ainda aos anos 1980 e 1990 a presença farta de aparelhos telefônicos (com fio, obviamente). “O telefone é uma coisa muito presente na história, as peças dessa época têm muito telefone. É um jeito de resolver a ação”, diz.

No cenário, ele opta por um espaço vazio, ocupado por dois bancos compridos, com cerca de cinco metros, e papéis sempre na iminência de voar com a ventania formada quando um conjunto de ventiladores é ligado em cena. 

“Os dois bancos são usados de forma a cercar os personagens”, diz Moraes. Sobre a quadratura formada por eles, há ainda um teto branco, levemente curvo, onde haverá projeções, especialmente nas cenas de natureza onírica.

Criada em 1987, a Armazém estreia “Angels in America” em um momento de dúvidas sobre como se dará a continuidade de suas pesquisas. Desde 2001, o grupo é financiado pela Petrobras. E, embora não haja um anuncio formal ainda, vê aproximar-se a ameaça de ter o patrocínio cortado após o presidente Jair Bolsonaro criticar nas redes sociais a destinação de verbas de estatais para o financiamento cultural, especialmente aquelas que beneficiavam as artes cênicas e o audiovisual.

“A importância [do patrocínio] foi fundamental”, diz o diretor. “A gente conseguiu essa ideia de estabelecer repertório, de viajar pelo país e para fora do país a partir do patrocínio de continuidade. Ele permite planejar efetivamente como vai ser o seu ano, sua pesquisa, e ao mesmo tempo como devolver esse patrocínio em forma de arte.”

Com o repertório (“A Marca da Água”, “Hamlet”, “Alice Através do Espelho”), a Armazém representou o Brasil  em diversos festivais em países europeus latino-americanos e na China. 

O jornalista viajou a convite da companhia Armazém

Angels in America

  • Quando Sex., 21h, e sáb., 18h: Parte 1 – O Milênio se Aproxima; sáb., 21h, e dom., 18h: Parte 2 - Perestroika
  • Onde Sesc Vila Mariana, r. Pelotas, 141
  • Preço R$ 30
  • Classificação 16 anos
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