Nego Gallo canta uma Fortaleza de guerra e paz no show de estreia em SP

Ex-integrante do Costa a Costa, o MC cearense lançou este ano o disco 'Veterano'

Lucas Brêda
São Paulo

Nego Gallo está definitivamente de volta. “Foi um exercício de paciência”, diz o MC de Fortaleza sobre o tempo afastado do rap, desde pouco depois de 2007, quando gravou a histórica mixtape “Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência” com seu antigo grupo, o Costa a Costa. A partir de 2016, ele voltou a fazer participações em canções de outros artistas, soltou alguns singles e, em janeiro deste ano, lançou a mixtape “Veterano”.

Um dos trabalhos mais originais do rap nacional em 2019, “Veterano” chega ao Sesc Pompeia neste sábado (11). Trata-se da primeira apresentação solo de Gallo em São Paulo. Antes, ele cantou na cidade com o Costa a Costa e também participou de shows de Don L, rapper conterrâneo e seu ex-companheiro de banda.

O rapper de Fortaleza Nego Gallo
O rapper de Fortaleza Nego Gallo - Antonello Veneri/Divulgação

No período em que ficou afastado da música, Gallo trabalhou para as secretarias de Fortaleza e do Ceará, lidando com usuários de drogas e pessoas em situação de vulnerabilidade social. “Estabeleci essa conexão durante anos com eles, compreendendo essa lógica Foram anos de aprendizado, crescimento”, conta.

“Veterano” representa esse hiato já a partir do título. Apesar de ser o primeiro grande projeto solo de Gallo, não se trata do trabalho de um iniciante – tanto na música quanto na vida.

Além da emblemática trajetória no Costa a Costa, ele assinou versos inspirados em músicas recentes de Don L. A mais importante delas foi “Aquela Fé”, uma das faixas mais celebradas do disco “Roteiro pra Aïnouz, Vol. 3” (2017).

Mas “Veterano” chega com uma cara própria. Gallo faz uma aproximação orgânica do rap com o reggae e suas dissidências mais eletrônicas (dub, ragga, dancehall). A mixtape traz ainda batidas de funk e de trap, também presente no uso pesado do Auto-Tune. A produção foi assinada pelo conterrâneo de Gallo, Coro MC, com coprodução de Léo Grijó.

“Escuto o que está na rua, passando nos carros, que as pessoas estão ouvindo em casa”, explica o MC. “Não tenho pretensão de ser um artista de reggae. Escuto reggae em Fortaleza, e isso acaba se abrasileirando. [Sou influenciado por] como isso toca dentro da favela, nas festas, nas praças.”

Nos versos, Gallo apresenta uma Fortaleza dúbia, em paz na trança nagô de uma garota da comunidade, mas em guerra nos confrontos entre tráfico e polícia. “É atípico viver aqui”, analisa. “Você tem coisas lindas, que dinheiro nenhum paga, como poder dar um mergulho no mar depois do trabalho. Ao mesmo tempo, as pessoas têm de tocar suas vidas no meio de uma guerra.”

Ele recorda de quando se reuniu com Don L, Junior D, Flip-Jay e Berg Mendes para montar o Costa o Costa, em 2005. “Aquela Fortaleza era quando o crack estava chegando”, diz. “A droga é o dinheiro, e isso muda a cara da cidade. A economia se move a partir disso. Naquela época, isso estava começando.”

Gallo, da Costa Oeste, foi um dos cabeças do grupo ao lado de Don L, da Costa Leste de Fortaleza. O diálogo entrosado dos dois, que marcou os melhores do Costa a Costa, ressurge novamente em “No Meu Nome”, faixa de “Veterano”.

Segundo Gallo, a música narra “uma história comum a quem vem da favela”. “Você tem 15 ou 16 anos e precisa se virar, comprar as coisas para viver”, diz. “Muito jovem na rua, querendo viver a cidade, que é uma cidade turística e te oferece diversão a todo momento. É a história de muita gente daqui, achando que no crime pode conquistar [o que precisa].”

Com uma mixtape seminal, o Costa a Costa foi revolucionário em muitos sentidos. Além de virar a principal referência de rap no Nordeste, eles trouxeram novidades no som – conversando com ritmos latinos – e nas letras – autobiográficas, com espaço para ostentação, histórias de tráfico e gangues.

O rapper cearense Nego Gallo
O rapper cearense Nego Gallo - Antonello Veneri/Divulgação

Até no jeito de se portar e se vestir, com óculos escuros, camisas floridas e bandanas, o grupo foi influente. Eles chegaram a dar entrevista para Regina Casé na TV Globo e também receberam de Caetano Veloso um Prêmio Hutúz, especializado em hip-hop.

A nova abordagem trazida pelo grupo representou uma quebra no jeito de se fazer rap no Brasil, até então ainda bastante restrito às influências americanas e ao eixo Rio-São Paulo.

“O Costa a Costa construiu um legado, mas, hoje, a possibilidade é de conversar com uma nova geração, um novo país”, analisa Gallo, refletindo sobre sua influência no sucesso recente de rappers nordestinos, entre eles Baco Exu do Blues, Diomedes Chinaski, Vandal e até o trapper Matuê.

Toda a história do Veterano deve estar reunida no palco do Sesc Pompeia. “Estou levando uma ‘radiola reggae clube’, que é quente, úmida, com cores fortes e histórias que movem as pessoas”, promete o MC.

Gallo retoma a carreira em um momento de grande visibilidade do rap nacional, mas ele encara o próprio sucesso com responsabilidade – justamente porque não começou ontem. “Tudo que fizemos é com gente que acredita no meu som”, confessa. “Não é hype, aqui é vida.

Nego Gallo em São Paulo

  • Quando sábado, 11 de maio, às 21h30
  • Onde Sesc Pompeia -- Rua Clélia, 93 -- Pompeia
  • Preço entre R$ 6 (comerciário) e R$ 20 (inteira)
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