Descrição de chapéu Perspectivas

Rap traduz o Brasil sem abrir mão da originalidade estética, diz autor

Nova geração se conecta com americanos e com nomes tradicionais da música negra nacional

Thiago Ney

“Não temo o novo, novo mundo, novas ordens/ E pra quem não gosta de avançar: tchau, tchau!”.
Estes são os versos iniciais de “Novo Poder”, a primeira música de “Gigantes”, disco que acaba de ser lançado pelo carioca BK’ e que mostra que o rap é a música que melhor traduz o atual Brasil urbano e contemporâneo. Tem gente boa aparecendo, as vacas sagradas que se cuidem.

Abebe Bikila Costa Santos, o BK’, tem 29 anos, já foi descrito como o “futuro do rap” por Marechal, um dos mais talentosos nomes do gênero no país, e faz parte de uma geração (Djonga, Don L, Diomedes Chinaski, Rincon Sapiência) que se conecta tanto com Jay-Z, Kendrick Lamar, OutKast e Kanye West como com Clube da Esquina, Cassiano, Tim Maia e Racionais MC’s. 

capa
Capa do álbum "Gigantes", do rapper BK', desenhada pelo artista Maxwell Alexandre - Divulgação

Ele não é exatamente novo —fez parte do coletivo Nectar Gang e, em 2016, lançou o disco de estreia, “Castelos & Ruínas”. Recentemente, participou da faixa “O Céu É o Limite”, com Mano Brown, Emicida, Djonga, Rael e Rincon Sapiência.

Em “Castelos & Ruínas”, BK’ parecia ensaiar o que apresentaria em “Gigantes”. Tem um flow (o jeito de rimar) que desliza com bom fôlego e sem solavancos mesmo nos versos mais rápidos.

A maior parte das 13 faixas de “Gigantes” tem letra em primeira pessoa. Assim como outros rappers de sua geração, BK’ aponta o dedo para o racismo, para a violência policial, para a desigualdade, mas não deixa de expressar suas conquistas, farras e voltas por cima.

“Eu de rolé na Lapa,/ policial me parou,/ pediu pra tirar uma foto/ Vê que o mundo dá voltas,/ Até quem me odiava/ Tá se abrindo mais que portas”. O trecho de “Abebe Bikila” é uma síntese de como o rap brasileiro está cada vez mais popular, não importa idade, classe social, raça, sexo. 

O rap está na periferia, no centro, nos clubes, nas playlists. É música tanto do cara que ouve pelo celular sem fone num trem da CPTM quanto de trilha de loja de roupa da Oscar Freire. Nos Estados Unidos, em 2017, o hip-hop e o R&B pela primeira vez ultrapassaram o rock como o gênero mais ouvido naquele país. A música popular brasileira hoje é o sertanejo (seguido por funk e gospel), mas é no rap que encontramos originalidade estética.

A música pode ser vista ainda como uma passagem de bastão. Tem sample de “Capítulo 4, Versículo 3”, faixa do já histórico disco “Sobrevivendo no Inferno” (1997), dos Racionais MC’s. Não é à toa: a faixa tem a participação de KL Jay, o DJ da banda paulistana. É feita em cima de uma base que exala uma espécie de free jazz, ou do trip hop do Massive Attack.

Jazz, trip hop, rap, Massive Attack, Racionais MC’s. Talvez essa seja a principal razão pela qual os novos rappers brasileiros estejam fazendo as coisas mais interessantes do pop brasileiro de hoje: não só estão conectados com o que acontece lá fora, como conhecem a música do passado. “O Menino que Queria Ser Deus”, segundo disco do mineiro Djonga, que saiu neste ano, é outro em que o rap é construído em cima de gêneros diversos como funk, MPB, pop, eletrônica.

“Gigantes” tem ainda as participações de Marcelo D2 e Sain na música “Falam”, de Baco Exu do Blues e Luccas Carlos em “Vivos”, de Luccas Carlos em “Planos” e de Drik Barbosa e Akira Presidente em “Correria”.

Em “Deus do Furdunço”, BK’ vai ao funk e à disco para sustentar rimas sobre uma noitada sem fim: “Não vai embora agora\ Fazer o que em casa?\ Ninguém te ama mais que a madrugada\ E se o cartão estourar, aproveita enquanto passa\ Juro, não vai morrer, essa é a última cerveja”.

Se nesses versos BK’ parece encarnar Bezerra da Silva, em “Correria” ele vai ao trap, subgênero do rap criado no sul dos EUA e que abusa dos sintetizadores. Lembra Migos e Travis Scott. Trecho: “Sei que sou o luxo na arte de destruir/ Molotov na garrafa de Henessy”.

O rapper abre espaço para cutucar o machismo, ainda tão presente na lírica do rap. Está em “Exóticos” (“Por que é sorte minha?/ Me compre, eu sou um objeto,/ diversão, ela sente tesão/ Me quer por inteiro/ me dá ordem e fica de joelho/ Ela diz que quer se sujar, conhecer o mundão/ Diz que eu pareço um gângster,/ me olha como um hamster”) e em “Jovens” (“Festa, bundas pro alto, dedos pro alto/ Festa, e copos pro alto, armas pro alto/ Festa, notas pro alto, sangue pro alto, festa”).

Festa, machismo, violência, desigualdade, cerveja, funk, disco, trip hop. “Gigantes” é um amontoado de referências que foram processadas com um resultado coeso e original. E novo. Porque o rap brasileiro está pedindo passagem.

Em tempo: a capa do disco, que retrata figuras negras em diversas situações, é de Maxwell Alexandre, artista da Rocinha, no Rio, que participou da exposição “Histórias Afro-Atlânticas”, no Masp e no Instituto Tomie Ohtake. 


Thiago Ney é jornalista.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.