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Cinema

'Varda por Agnès' é autorretrato da artista que se interessava pelo banal

Diretora unia cinema, fotografia e artes plásticas, transfigurando o corriqueiro em algo único

A diretora Agnès Varda em cena do documentário que produziu sobre si mesma e sua obra
A diretora em cena do documentário que produziu sobre si mesma e sua obra, ‘Varda por Agnès’ - Divulgação
Inácio Araujo

Varda por Agnès (Varda par Agnès)

  • Quando Em cartaz
  • Classificação 12 anos
  • Produção França, 2019
  • Direção Agnès Varda

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Sobre "Varda por Agnès" não há como não ser muito pessoal —desde o título, pois, quando o filme termina deu uma vontade imensa de entrar na tela e abraçar aquela senhora artista que se expõe ao mesmo tempo em que fala de sua arte.

Difícil saber se esse sentimento é partilhado por outras pessoas na plateia. Mas não é impossível, pois os afetos são a base de tudo que fez a cineasta e artista plástica (ela prefere "artista visual").

É, portanto, um verdadeiro filme-testamento.

Ao mesmo tempo em que passa sua obra em revista (sem ordem cronológica precisa), é a si mesma que está mostrando. E ao mostrar a si mesma é que mostra as coisas e pessoas do mundo que habitam sua obra, seja a ficcional, seja a documental.

As duas, aliás, quase sempre se confundem. Como bem lembra Sandrine Bonnaire, durante a filmagem de "Os Renegados" (Sans Toit ni Loi, 1985), a diretora a fez viver como mochileira radical em diversas ocasiões, armando barraca, cavando terra e tudo mais. O documentário recobria a ficção, no caso.

Varda estava próxima da personagem de Bonnaire, como estava próxima dos sem-teto expulsos de um imóvel invadido, ou dessas pessoas que vivem de catar restos para comer ("Os Catadores e Eu", de 2000). Ela se vê também como uma catadora: aquela que sai à rua da própria casa para olhar as pessoas, cada uma delas, seu agir, seu estar. Se abrisse as pessoas, acharia paisagens, ela mesma diz.

Ela é também a mulher que vai a Los Angeles para acompanhar o marido, Jacques Demy, e topa com o movimento dos Panteras Negras, com a vanguarda artística, com o movimento das mulheres.

Deste, aliás, tomará parte com entusiasmo, ao reforçar o movimento pela percepção a um tempo da diferença feminina ("nosso corpo nos pertence") e da necessidade de igualdade de direitos.

"Varda por Agnès" é, afinal, o retrato da mulher, tanto quanto o da artista. Da curiosa observadora do mundo e da experimentalista discreta, que começa como fotógrafa (ótima, por sinal), se lança como cineasta com "La Pointe Courte" (1954), esse belíssimo precursor da nouvelle vague, consagra-se prematuramente com "Cléo das 5 às 7" (1962) e depois acaba quase esquecida por anos.

Por que esse esquecimento? Talvez porque quase todo o tempo Varda se interesse pelo que alguém definiu como "banal". No entanto, contesta ela, "nada é banal". A arte de descobrir a riqueza invisível das pessoas e das coisas com que cruzamos todos os dias sem olhar, esta é a arte nada banal de Varda: a do olhar.

É verdade que o século 21 e o restauro de seus filmes começaram a lhe fazer, enfim, justiça. Uma justiça que talvez tenha chegado, primeiro, pelas belas instalações que mostra no filme, onde cinema (o digital torna-se decisivo neste século, aliás), fotografia e artes plásticas se encontram em experiências onde o banal se transfigura e se revela único. "Varda por Agnès" é o autorretrato desta cineasta feliz e radical que morreu no fim de março, aos 90 anos.

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