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Em nova série, Globo assume risco com retrato mais cru do vício em drogas

Dos roteiristas de 'Amores Roubados', 'Onde Está Meu Coração' mostra uso escancarado de álcool, crack e cocaína

Leticia Colin em cena da série "Onde Está Meu Coração"
Leticia Colin em cena da série 'Onde Está Meu Coração' - Divulgação
Gustavo Fioratti
São Paulo

Personagens que usam drogas na TV brasileira têm sido quase tão frequentes quanto a passagem do cometa Halley pelos céus. O último papel memorável dessa natureza foi feito por Grazi Massafera há quatro anos, na supersérie “Verdades Secretas”, com fortes tintas de tragédia.

Até o fim deste ano, “Onde Está Meu Coração”, que ainda tem gravações em andamento em São Paulo e Santos, no litoral paulista, retornará ao assunto e suas cores fortes.

Se considerarmos que nem os fumantes têm tido um lugar nas novelas —OK, no horário das 23h eles conquistaram algum espaço— podemos apostar que a emissora está assumindo um risco, e o streaming, com a concorrência dos americanos, exigiu esse passo adiante em busca de uma audiência singular.

“Onde Está Meu Coração” terá Letícia Colin vivendo uma dependente química e sua estreia está programada primeiro para o serviço de vídeo sob demanda Globoplay, ainda sem data de lançamento, e depois para o último horário da grade diária da TV aberta.

Sintomático que, na versão para a plataforma online, pode haver cenas explícitas que a TV aberta não deve mostrar —de uso de cocaína e de crack inclusive—, como contam os roteiristas George Moura e Sergio Goldenberg.

Colin é Amanda, médica-residente que, já no início da trama, passa pelo momento mais agudo causado pelo vício.

Logo de cara, a personagem de Letícia Colin arrasta para o drama o seu marido, a mãe e o pai —vividos por Daniel de Oliveira, Mariana Lima e Fábio Assunção. Nas pesquisas que realizaram, junto a psiquiatras, os roteiristas se impressionaram com as histórias de “pessoas que não adoecem sozinhas”, diz Moura. “A família adoece junto”, completa.

Haveria risco de algum moralismo na repetição de uma abordagem específica sobre o uso de drogas? Via de regra, o protagonista que usa cocaína ou crack na TV cai na dependência —e o consumo recreativo seria um passo largo demais para uma obra televisiva.

Diante dessa questão, porém, Moura diz que a trama terá ao menos um personagem que se dopa e depois segue a vida. É o caso do marido, que usa cocaína com a mulher.

O que deu o estalo para que a dupla de roteiristas —a mesma de “O Rebu”, “Amores Roubados” e “Onde Nascem os Fortes”— iniciasse a escrita sobre a trajetória de Amanda foi um testemunho ocular.

Numa manhã do ano passado, Goldenberg passava de carro por uma rua de Botafogo, no Rio de Janeiro, e lá viu um rapaz bem vestido e que estava “completamente transtornado”. De novo, o que se traz à tela é o uso de drogas dissociado da miséria.

Responsável por uma dramaturgia que tem sido considerada de ponta na emissora —com diálogos e interpretações que também contrastam em qualidade com o que a TV exibe hoje—, a dupla não recusa uma associação entre sua escrita e o melodrama, gênero que para eles ainda é o eixo central de uma identidade na dramaturgia brasileira.

À parte os significados mais antigos do termo —e sua origem em óperas e peças populares do século 17— hoje o melodrama é um termo usado para definir conflitos com personagens polarizados, dramas familiares, amores que precisam superar obstáculos. A droga, neste caso específico, é quem faz o papel de vilã.

O gatilho para a trajetória de queda e ascensão da protagonista terá origem em um contexto específico —como jovem médica que trabalha em um hospital, ela se depara com responsabilidades imensas. “Médicos constantemente precisam lidar com a morte de um paciente, e Amanda começa a fazer uso das drogas porque não está suportando essa realidade imposta pela profissão. Ela não consegue dar conta”, diz Moura.

Cenas do hospital em que ela trabalha foram gravadas no Centro Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, em rampas que dão acesso ao topo de um edifício. A personagem de Colin acompanhava um homem ferido, transportado pelas rampas, e logo um outro personagem passava por ela tentando encontrar a filha.

Era meio de junho, e os janelões deixavam passar a luz peculiar do outono paulista, de fato bonita. A série está sendo rodada totalmente em externas, longe dos estúdios. O apuro estético tem sido uma marca dos trabalhos de Moura e Goldenberg na Globo, séries que até agora tiveram a direção de José Luiz Villamarim, outra estrela do momento.

A direção de é “Onde Está Meu Coração” é de Luisa Lima, ex-assistente de Villamarim —ele agora está na supervisão do novo seriado. 

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