Meticuloso e divertido, Hitchcock era dois em um por trás das câmeras

Quem acompanhava seu trabalho nos sets era capaz de distingui-los claramente

Thales de Menezes
São Paulo

Dois indivíduos habitavam o corpo rotundo do cineasta britânico Alfred Hitchcock (1899-1980), e quem acompanhava seu trabalho nos sets era capaz de distinguir claramente os dois.

Um Hitchcock era meticuloso, acordava obcecado com o planejamento de todas as tomadas que pretendia rodar no dia. Chegava ao estúdio ou à locação muito cedo, com os detalhes na cabeça, cobrando da equipe a assimilação das instruções dadas previamente. Debaixo do braço, os storyboards que já antecipavam plano a plano as tomadas que queria.

O outro Hitchcock era bem mais divertido. Um bonachão sedutor que sabia conduzir atores de forma descontraída. Uma falsa descontração, é verdade. Seus assistentes mais próximos diziam que antes de entrar no set ele já sabia exatamente o que queria de cada ator. Mas não impunha sua vontade de forma autoritária.

Hitchcock criava joguinhos para fazer com que os atores pensassem que estavam contribuindo para a construção dos personagens. Discutia com eles como se estivesse interessado no que pensavam. Aos poucos, ia convencendo cada um a entrar no molde que ele já tinha imaginado.

O diretor adorava sentar no cenário com o elenco, pedir cafés e bater papo como se não tivesse pressa alguma. E conversar não era suficiente. Ele se levantava e demonstrava, fisicamente, como enxergava as melhores reações do personagem na cena que era rodada.

Atitudes como essa fizeram Bruce Dern, que trabalhou em “Trama Macabra” (1976), considerar Hitchcock o melhor ator com quem tinha contracenado.

Nas sequências protagonizadas por casais, era comum Hitchcock se postar diante do ator e passar o texto da atriz, que acompanhava o exercício ao lado dele. Depois, tomava o personagem do homem e fazia a mesma coisa.

A preocupação com a atuação física era evidente. Insistia muito no modo como os atores deveriam correr, subir escadas ou simular uma queda no chão.

Também buscava uma naturalidade dos atores em situações mais íntimas, principalmente em cenas de casais na cama. Um hábito dele, que hoje alguns poderiam classificar como assédio, era conversar com atrizes demoradamente quando elas estavam seminuas para alguma cena.

Mas esse tratamento simpático que cativava os atores não diminuía em nada a obsessão do outro Hitchcock, aquele meticuloso em busca da cena perfeita. A ponto de ter rodado quase 80 vezes a famosa cena do chuveiro de Janet Leigh em “Psicose” (1960), reduzida a uma duração de poucos segundos na edição final.

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