Descrição de chapéu

Moretti se mostra diretor invulgar e cão de guarda do humanismo em documentário

Filme do italiano mostra como a embaixada italiana ajudou os opositores do regime de Pinochet no Chile

SÉRGIO ALPENDRE

Santiago, Itália

  • Onde Em cartaz
  • Classificação 12 anos
  • Produção Itália/França/Chile, 2018
  • Direção Nanni Moretti

O cinema italiano sofreu com a uniformização do cinema autoral que ocorreu desde os anos 1970, e poucos diretores realmente bons se ergueram no país nas últimas décadas.
 

Nanni Moretti é um deles. O cineasta de “Caro Diário” (1993) e “O Quarto do Filho” (2001) volta agora com um documentário, registro minoritário em sua carreira.

Trata-se de um longa que olha para o Chile de 1973 para investigar como a embaixada italiana ajudou os opositores do regime autoritário e criminoso do general Pinochet.

O retorno ao documentário pode significar uma tentativa de interromper a crise criativa que se abateu contra ele após “Habemus Papam” e está evidenciada, mesmo nos momentos belos, em seu último longa, “Minha Mãe”.

Mas é certo que deve ter pesado o atual momento da Itália, país governado por uma direita rancorosa, e do mundo, assombrado pelo crescimento de uma extrema direita grosseira e ignorante.
 

Moretti, velho e bom cão de guarda dos ideais humanistas, levanta sua voz contra a intolerância, a tortura e o autoritarismo neste nosso mundo que vê anestesiado e desmemoriado algumas crueldades históricas se repetirem.

Desde a primeira imagem do filme percebemos estar diante de um cineasta invulgar: o próprio Moretti observa a capital chilena do alto com a imponente cordilheira dos Andes ao fundo, os picos cheios de neve.

É um olhar carinhoso e interessado para a cidade. Depois, vemos imagens de manifestações atuais, antes de voltar no tempo para mostrar o horror e a resistência a ele.

O filme entra então em seu registro histórico-didático: a coalizão de esquerda, a liderança de Allende, a utopia de um regime mais igualitário. E seu reverso: o golpe que instaurou uma ditadura sangrenta.

Triste, um tanto comportado nas entrevistas, mas bem concatenado (ainda que por vezes de maneira óbvia), “Santiago, Itália” é a demonstração de quanto se perde quando os interesses de poucos se sobrepõem aos de muitos.

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