Criador de Jerry Gogosian, que parodia povo artsy no Instagram, vem ao Brasil

'Galerias de arte são hospícios onde os ricos compram a aura de um artista', diz dono do perfil

Silas Martí
São Paulo

Um post com 43 curtidas e dois comentários revelou o máximo de sua identidade. Na imagem publicada no Instagram, um homem, a cabeça e as pernas fora do quadro, aparece vestindo uma camiseta que diz sem rodeios “eu sou Jerry Gogosian”.

O modelo, tão anônimo quanto o dono da conta, parece saído de um banco de imagens genéricas, dessas usadas pela publicidade ou para povoar maquetes de arquiteto.

Na vida real, a aparência em carne e osso do criador de memes que vem abalando o mundo da arte surpreende —tanto pela delicadeza quanto por seu tom sereno ao dizer que sabe de segredos capazes de jogar na lama a reputação dos artistas, galeristas e colecionadores mais poderosos do planeta.

Isso é tudo que se pode dizer sobre o visual de Jerry Gogosian, agora em São Paulo para fechar o contrato que vai transformar seus posts numa série de televisão, uma espécie de “Sex and the City” das artes. “Se sua missão com esta entrevista é revelar minha identidade, vamos parar por aqui”, ameaça, logo de cara. Mas não, essa não é a missão.

O objetivo do encontro de uma hora num apartamento na avenida Paulista era entender o que move o perfil do Instagram que faz a cabeça do povo artsy no mundo todo, parodiando suas bizarrices com humor ácido.

Nos memes de Jerry, celebridades embriagadas ou em poses menos lisonjeiras, da princesa Diana a Rihanna e Julia Roberts, encarnam o papel de artistas e galeristas descontrolados, trançando as pernas em vernissages, ou surgem como vilões de desenho animado arquitetando golpes contra clientes desavisados.

“Só alguns amigos bem próximos sabem que eu sou o Jerry, mas não interessa quem eu sou”, diz. “O anonimato dá uma liberdade incrível para falar de um universo que chega a ser vitoriano nos costumes. Eu amo o desfile de vaidades que é o mundo da arte. É interessante ver como essas pessoas tecem suas alianças, como se preocupam com a forma de dizer as coisas.”

Jerry Gogosian, que se vê no papel de bobo da corte das artes, calculou bem o alcance de sua performance virtual ao criar um alter ego fundindo as figuras de Jerry Saltz, o mordaz crítico da revista New York, e Larry Gagosian, o marchand mais rico do mundo com um império de galerias espalhadas por uma dúzia de cidades em três continentes.

Também deu verniz de veracidade aos posts mapeando muito bem as pegadas do jet-set da arte pelo mundo —como todo bom colecionador, Jerry se hospeda no Les Trois Rois ao fazer compras na feira suíça Art Basel e, como toda boa galerista, sabe a diferença na mensagem que passa ao usar um tênis Balenciaga ou o último look desfilado pela Comme des Garçons.

Não há dúvida que o lugar de fala de Jerry, para usar uma expressão da moda, é o de um agente do mercado da arte. Fora do Instagram, ele (ou ela) tem, de fato, uma galeria de arte nos Estados Unidos e já trabalhou para uma das maiores casas do mundo.

No passado, chegou a tentar a vida de artista fazendo performances e manteve um centro cultural independente em seu apartamento no Harlem nova-iorquino —o lugar só fechou as portas depois que o dono do imóvel reclamou das montanhas de areia empilhadas na cozinha e de uma cova aberta no chão da sala.

Jerry sepultou ali o lado mais mão na massa de sua criação e desde o ano passado se tornou uma celebridade virtual ao desenhar para leigos como funcionam as transações secretas —muitas vezes desvantajosas para os artistas— no universo das galerias e leilões de arte.

Uma metáfora visual recorrente em sua conta envolve tubarões —as grandes galerias— caçando peixinhos —os artistas estreantes. O ecossistema da arte, na visão de Jerry, segue os mesmos princípios da cadeia alimentar estudada nas aulas de biologia, só que com champanhe e carreiras de cocaína no lugar da carne fresca na boca do leão.

O enorme volume de dinheiro que circula nesse mercado, trocando de mãos a bordo de jatinhos e iates, é um dos pontos que mais parecem seduzir os 33 mil seguidores de Jerry Gogosian.

Lembrando que uma blogueira de moda hiperfamosa como a italiana Chiara Ferragni tem um séquito de 17 milhões na rede social, o alcance de Jerry parece pequeno, mas sua conta é privada e nela se concentra o PIB da arte —ou seja, sua performance é coisa de insider para insider.  

“Sei de todos os segredos, quem está se divorciando de quem, quem vai ficar com qual obra da coleção, o que vai parar nos leilões. E tenho espiões no mundo todo”, afirma. “Sem contar as histórias de assédio sexual que me contam por mensagens privadas, documentos internos das galerias, listas de preços e valores.”

No seu feed, no entanto, surgem só alusões vagas às intrigas e tramoias do mundinho. “Sei que poderia incendiar tudo se eu quisesse, mas qual seria a graça disso? Não sou nenhum justiceiro. Fofoca é fofoca e não quero me envolver.”

Jerry, de fato, prefere o território seguro do humor à militância aguerrida. Enquanto o mundo da arte ferve com questões da era MeToo, com denúncias de assédio destronando diretores de feiras, e protestos cada vez maiores contra patrocinadores de museus ligados à indústria dos opioides ou das armas, suas piadas no Instagram roçam só a superfície dessas polêmicas.

“Há um enorme cansaço em relação ao MeToo, então penso que se você é uma mulher trabalhando com homens, você deve estar preparada para quando eles se comportarem mal. Gostamos de treinar os meninos para não agarrarem as meninas, mas também devemos treinar as meninas a chutar os meninos no saco quando não quiserem ser agarradas. A questão é que homens poderosos têm dinheiro de sobra para fazer qualquer acusação desaparecer.”

Este último ponto, aliás, está no centro de tudo. “A arte precisa de dinheiro para se movimentar e as galerias são hospícios onde ricos tentam se curar comprando um pedaço da aura de um artista, mas não tenho alergia a dinheiro”, diz. “Estão fazendo esse escândalo em torno dos patrocinadores, mas de onde as pessoas acham que vem o dinheiro da arte? Não há um fundo de investimentos da Madre Teresa. Sei que todo esse dinheiro não vem dos lugares mais bonitos.”

Nesse sentido, sua futura série deve se ancorar na plasticidade desse universo calcado em luxo, glamour e riqueza. Jerry conta que vai pedir emprestadas obras de verdade para os cenários, pensando que “ninguém está falando com a classe média e a arte não pode circular só entre a elite”. “Quero fazer um ‘Sex and the City’ da arte, só que menos homofóbico e menos racista. Vamos transformar a arte numa coisa sexy.”

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