Descrição de chapéu Livros Flip

Fake news sobre Guerra de Canudos são tema de análise de estudiosa que abre Flip

Para Walnice Nogueira Galvão, Euclides da Cunha desmonta a ideia de insurreição com propósitos políticos

Naief Haddad
São Paulo

​Depois de escrever 12 livros sobre Euclides da Cunha e a Guerra de Canudos, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão revela tamanha familiaridade com o autor que parece, às vezes, pensar nele como um amigo.

No ensaio “Polifonia e Paixão”, de 1994, a professora da Universidade de São Paulo analisou “Os Sertões”, uma das obras máximas da literatura do país. Escreveu que “a síntese é impossível: a verdade do livro está nas contradições”.

J. Borges Canudos
J. Borges/Reprodução

A pedido do repórter, ela comentou esse trecho, combinando informalidade e endosso acadêmico. 

“Coitado do Euclides! Eu tenho pena quando o leio porque ele não consegue sintetizar. Fala da teoria de um certo autor e depois da teoria de outro autor que contradiz aquela. Não chega a uma síntese. Vai armando contradições, oximoros, mas é nisso que o livro é forte. Existe uma consciência dilacerada.”

Oximoro, ensina o dicionário Houaiss, é a figura em que se combinam palavras de sentido oposto.

É desse Euclides “aflito, sobre as brasas”, nas palavras dela, que a professora vai falar na abertura da 17ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, na semana que vem, no auditório da Matriz. 

O escritor, jornalista e engenheiro fluminense Euclides da Cunha é o homenageado desta edição do evento, que tem organização de Fernanda Diamant.

Na sua conferência, Nogueira Galvão pretende percorrer uma linha histórica dos estudos que ela tem realizado sobre o autor. O ano de 2019, aliás, une os pontos de partida e chegada dessa fio evolutivo por meio de relançamentos editoriais.

A editora Cepe, de Pernambuco, acaba de reeditar “No Calor da Hora”. Escrito como tese de livre docência entre o final dos anos 1960 e o início dos 1970, foi lançado pela primeira vez como livro em 1974. 

No texto preparado especialmente para essa reedição, a autora escreve que “quando, há meio século, comecei a estudar as fontes de ‘Os Sertões’, não imaginei, nem percebi, que se tratava da primeira tese universitária focalizando Euclides da Cunha e a Guerra de Canudos”.

Ao longo de mais de 500 páginas, ela mostra como os principais jornais de Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia cobriram as batalhas no arraial de Canudos entre os anos de 1896 e 1897. 

O saldo para a imprensa da época é claramente negativo. Por meio de reportagens, editoriais e até poesias, quase todos os principais jornais do período aderiram à tese do governo federal e dos militares de que o grupo comandado por Antônio Conselheiro integrava uma conspiração monarquista internacional. 

Em “Os Sertões”, escrito ao longo de cinco anos, Euclides desmonta a ideia de insurreição com propósitos políticos. “Ele chega a Salvador submetido à lavagem cerebral, como todos os jornalistas. Mas ainda na capital baiana, antes de ir a Canudos, Euclides passa a desconfiar [de teses oficiais]”, diz Nogueira Galvão.

Como se lê em “No Calor da Hora”, os textos dos repórteres enviados à região de Canudos, na Bahia, mal falam da prática dos soldados de degolar os prisioneiros, tratados como “jagunços”. “Não foi o Donald Trump quem inventou as fake news. Tinha à beça naquela época [final do século 19 no Brasil]”, afirma.

Também chega às livrarias uma reimpressão de “Euclidiana - Ensaios sobre Euclides da Cunha”, livro lançado por Nogueira Galvão há uma década. A obra rendeu a ela um prêmio da Academia Brasileira de Letras.

Ganha ainda uma nova fornada “Os Sertões” editado pela Ubu em parceria com o Sesc. Além de ter 
organizado a fortuna crítica do livro, lançado em 2016, Nogueira Galvão assina dois textos, “Polifonia e Paixão” e “Sebastianismo, Milenarismo e Messianismo”.

Do pioneiro “No Calor da Hora” à edição especial de “Os Sertões”, mais de quatro décadas se passaram, e o fascínio da professora pelo clássico de Euclides não arrefeceu. 

Em boa parte, o entusiasmo pelo livro se deve, ela avalia, pelo diálogo constante com a realidade brasileira. “Me interessou analisar esse conluio entre a mídia, os poderosos e o Exército em Canudos. E esse é um retrato do Brasil de hoje”, afirma.

“Até o lançamento de ‘Os Sertões’ [em 1902], ninguém no país havia escrito um livro que denunciasse um genocídio. Até então, o que se lia sobre o Brasil era para glorificar. Foi uma proeza.”

Nogueira Galvão, porém, não é só a grande estudiosa de Euclides. Acaba de organizar “A Águia e o Leão”, que reúne textos políticos do francês Victor Hugo, e começa a preparar um novo livro sobre Guimarães Rosa —será sua sétima obra sobre o autor de “Grande Sertão: Veredas”.

Embora eles tenham estilos diferentes, Nogueira Galvão aproxima os sertões dos autores. “Enquanto estudava o Guimarães Rosa, achava o Euclides por trás dele o tempo todo”, afirma. “Rosa tem um pé no muito culto e um pé no inculto. No fundo, é a mesma matriz.”

novas edições de euclides da cunha

‘Os Sertões’
Autor: Euclides da Cunha. Ateliê Editorial e Sesi-SP, R$ 120
Lançada em 2001, a obra chega à quinta edição revista e ampliada, com mais de 3.000 notas

Box ‘Os Sertões - Edição Crítica Completa’
Autor: Euclides da Cunha. Org.: Walnice Nogueira Galvão. Ubu e Ed. Sesc, R$ 149
A editora publica juntos ‘Os Sertões’ e um volume que compara as diferentes edições do clássico

‘Os Sertões’
Autor: Euclides da Cunha. Penguin Companhia, R$ 54,90
O livro traz textos de apoio de nomes como Lilia Moritz Schwarcz

‘Os Sertões - A Luta’
Autor: Euclides da Cunha. HQ: Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa. Quadrinhos na Companhia, R$ 49,90
Ilustrado, o título trans-forma em HQ a batalha de Canudos

‘A Terra, o Homem, a Luta’
Autor: Roberto Ventura. Três Estrelas, R$ 37,90
Com prefácio de Milton Hatoum, serve de introdução a ‘Os Sertões’

‘Euclides da Cunha: Esboço Biográfico’
Autor: Roberto Ventura. Org.: Mario Cesar Carvalho e José Carlos Barreto de Santana. Companhia das Letras, R$ 84,90
Antes de morrer, em 2002, Ventura deixou um esboço de biografia de Euclides da Cunha, que ganha vida nas mãos dos organizadores 

‘À Margem da História’
Autor: Euclides da Cunha. Ed. Unesp, R$ 89
Publicado postumamente, traz relatos de sua viagem pela Amazônia e artigos na imprensa

‘Ensaios e Inéditos’
Autor: Euclides da Cunha. Ed. Unesp, R$ 60
O volume compila 31 textos que mostram a carreira ensaística do autor

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