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Cineasta chinês Lou Ye consegue driblar censura e estreia filme em Veneza

Depois de ser proibido de fazer filmes, artista lança seu mais novo trabalho, 'Ficção de Sábado'

Nicolas Rapold
The New York Times

O cineasta chinês Lou Ye teve seus desentendimentos com os censores cinematográficos de seu país, ao longo de sua carreira bem-sucedida e respeitada.

Ele ficou dois anos proibido de fazer filmes depois de exibir "Rio Suzhou" no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, passou por cinco anos de censura depois de "Palácio de Verão" e, mais recentemente, enfrentou um processo demorado de aprovação para "Teatro de Sombras", exibido em fevereiro no Festival de Cinema de Berlim. Que Lou não receba atenção oficial é praticamente uma novidade.

Uma exceção em seu histórico é "Ficção de Sábado", o novo filme do cineasta, que se passa em dezembro de 1941, em Xangai, em meio à guerra, e gira em torno de uma atriz da cidade envolvida em intrigas. Na semana que vem, o filme terá sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Veneza.

"Passei pelo processo de censura muitas vezes e, como cineasta, jamais ficou inteiramente claro para mim por que os censores reagem como fazem. Não sei bem", disse Lou em entrevista por telefone, da China.

"Ficção de Sábado" é um dos 66 longas novos que fazem parte da seleção oficial da 76ª edição do Festival de Veneza, que se encerra em 7 de setembro. O filme de Lou será exibido em companhia de trabalhos de Hirokazu Kore-Eda ("The Truth", o filme de abertura do festival), Olivier Assayas ("Wasp Network"), James Gray ("Ad Astra"), Noah Baumbach ("Marriage Story"), Roman Polanski ("J'Accuse"), Roy Andersson ("About Endlessness"), Pablo Larrain ("Ema"), e Steven Soderbergh ("The Laundromat").

O festival é amplamente encarado como uma ocasião prestigiosa, que abre a temporada de outono e a disputa por estatuetas douradas e por críticas favoráveis. Os concorrentes do ano incluem o muito aguardado "Coringa", de Todd Phillips, o drama eleitoral "The Perfect Candidate", da cineasta saudita Haifaa al-Mansour, e o documentário "The Kingmaker", de Lauren Greenfield, sobre Imelda Marcos.

"Ficção de Sábado" não será lançado na temporada de outono [do hemisfério norte], mas traz Gong Li como uma atriz famosa envolvida em espionagem e em uma produção teatral. Lou já foi definido como "o maior diretor de atores do cinema chinês contemporâneo", pelo crítico Shelley Kraicer, e o novo trabalho, passado às vésperas do ataque japonês a Pearl Harbor, promete oferecer o mesmo nível de dramaticidade que os filmes históricos anteriores de Lou.

"Palácio de Verão" se passava na praça da Paz Celestial em 1989, e "Borboleta Púrpura" na Manchúria e Xangai durante a ocupação japonesa.

Desconsiderados os acontecimentos mundiais, Lou encontrou algo de especialmente atraente no ambiente teatral de seu novo filme, que lhe é bem conhecido. Os pais dele trabalhavam nos bastidores do teatro, e ele recorda com carinho o Liceu Teatral de Xangai, que aparece no filme.

"Sou produto do mundo teatral", ele disse. "Por isso foi uma experiência muito especial poder voltar a Xangai" —de Pequim, onde ele vive—, "depois de muito tempo, e filmar o novo trabalho naquela região" (O título do filme em chinês é "Liceu Teatral" ).

A complexa trama transcorre durante seis dias intensos e mistura drama de época, melodrama romântico e história de espionagem. Como outras obras de Lou, o filme segue as paixões de seus personagens. A história foi adaptada do romance "Morte em Xangai", de Hong Ying, pela roteirista Ma Yingli, colaboradora frequente de Lou e também produtora e diretora de documentários, entre os quais um retrato de bastidores da produção de "Teatro de Sombras".

Ma, que estudou cinema em Berlim antes da queda do Muro, viu a Xangai da época da guerra como um espaço rico para exploração narrativa e para estruturação da trama. Ela disse acreditar que o retrato de vidas duplas como as da personagem principal poderia ecoar junto a muitos espectadores.

"Eu queria contar como coisas pequenas podem realmente afetar a história em geral e como todos temos um papel a desempenhar com relação às coisas que nos cercam", disse Ma, em entrevista por telefone. "É uma boa analogia para as pessoas que têm uma vida no palco e outra fora dele, com diferentes identidades e escolhas."

Em uma trama de traições, o personagem de Gong Li tenta encontrar um ponto de equilíbrio entre um ex-marido, o pai adotivo e a tentação de fugir da guerra com seu amante. (O elenco internacional inclui Pascal Greggory, Joe Odagiri e Mark Chao.) Para Ma, aquele momento histórico complicado trouxe lembranças inesperadas de seu período como estudante na Alemanha, ainda que a conexão não lhe tenha ocorrido quando estava escrevendo.

"Quando vivi em Berlim Oriental na década de 1980, o Muro ainda estava lá", ela disse. "Eu estava cercada. Não havia liberdade em torno de mim."

A despeito do cenário da história, o processo de aprovação pelos censores chineses foi tranquilo. Lou e Ma atribuem o fato à natureza histórica do filme, rodado em preto e branco.

"Em termos de assunto, os temas e as ideias com os quais estou tentando lidar no filme novo são semelhantes aos de 'Teatro de Sombras', em minha opinião", disse Lou. "Os dois são filmes que lidam com realidade versus ilusão, o que é real versus o que é falso. Talvez a distância em termos de tempo e espaço torne esse filme mais palatável."

O processo de aprovação para um filme na China pode ser imprevisível. O cronograma pode variar, disse Ma. Tudo começa com uma revisão de roteiro, que em geral demora 20 dias ou menos. Mas assim que o filme for rodado e a edição final estiver pronta, a demora pode ser significativamente mais longa. Para "Ficção de Sábado", a aprovação não demorou muito, para agradável surpresa de Lou.

Mas a possibilidade de atrasos imprevistos ou cancelamento pode gerar nervosismo em um programador de festival. Essa é uma preocupação compreensível depois da retirada de "Um Segundo", o mais recente filme de Zhang Yimou, do mesmo festival de Berlim em que "Teatro de Sombras", de Lou, foi exibido.

"Sabendo que a situação na China é tão complicada, nós ficamos um pouco preocupados", disse Alberto Barbera, diretor do Festival de Veneza, por telefone. Barbera viu uma edição prévia do filme em abril, e em junho recebeu a garantia de que ele poderia ser exibido no exterior.

A aprovação significa que o drama de "Ficção de Sábado" deve se limitar ao que acontece na tela. Mas se as experiências anteriores de Lou com o processo de aprovação afetaram seu cinema, ele não demonstra.

"Quando estou em meio ao processo criativo, quando meu foco é criar o filme, o foco é só esse, não penso de jeito algum nos censores", ele disse.

Com dois filmes em destaque em um ano, Lou e Ma parecem ter encontrado uma maneira de continuar trabalhando em alto nível. A prova está na estreia de "Ficção de Sábado", dentro de uma semana no Lido.
 


Tradução de Paulo Migliacci

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