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Cinema

Filme israelense fala de assédio melhor do que a Hollywood do MeToo

Diretora de 'Não Mexa com Ela' não se preocupa com clímax, despreza pontuação; com isso, faz cinema muito bom

Thales de Menezes

Não Mexa com Ela

  • Quando Estreia na quinta (8)
  • Elenco Liron Ben Shulsh, Menashe Noy, Oshri Cohen
  • Produção Israel, 2018
  • Direção Michal Aviad

Depois de inúmeras manifestações de atrizes e outras profissionais do cinema americano em apoio aos movimentos de reação das mulheres contra assédio sexual, o filme mais contundente e quase didático sobre o tema acaba sendo produzido bem longe de Hollywood.

"Não Mexa com Ela" é um longa israelense, que ganhou no Brasil esse título um tanto panfletário. O título no mercado americano foi melhor: "Working Girl". Retrata realmente os apuros de uma mulher trabalhadora diante do comportamento de seu chefe.

A atriz Liron Ben-Shulsh, 34, que agora deve começar carreira na Europa, interpreta Orna, mulher casada, com dois filhos, que tenta voltar ao mercado de trabalho quando o recém-aberto restaurante da família não dá o resultado esperado.

Ela é contratada como assistente de um empreendedor imobiliário, Benny, às voltas com a construção de prédios de extremo luxo no litoral israelense. Bonita, com inglês fluente e algum domínio do francês, Orna começa a se destacar nas negociações com potenciais compradores.

Empolgada com o trabalho, é surpreendida com um beijo à força. Benny pede desculpas, ela ameaça deixar o emprego, mas é convencida a ficar. Como seu chefe diz, formam uma ótima dupla de negociadores. Mas, em uma viagem dos dois a Paris para a apresentação de um projeto, novamente Orna sofre assédio.

Enquanto sua relação no escritório fica cada vez mais opressiva, o marido quer que ela peça um empréstimo a Benny, para salvar o restaurante. Orna não revela a ninguém o que está acontecendo, e a pressão aumenta.

Com esse roteiro simples, direto ao ponto, "Não Mexa com Ela" tem dois trunfos importantes: Liron Ben-Shulsh e a diretora e roteirista Michal Aviad.

A atriz é ótima. Tem uma presença encantadora na tela e dá credibilidade a uma personagem angustiada. Suas reações às investidas são críveis, ela transmite no olhar e no gestual a impotência de Orna. Está presente em todas as cenas do filme e conduz a tensão crescente na relação com Benny.

Talvez esse personagem ganhasse mais com outro ator, porque Menashe Noy fica um pouco perdido como o empresário. Vai do blasé ao cafajeste, sem convencer em nenhum dos registros.

A diretora vem de uma carreira consolidada em documentários e carrega essa experiência na ficção. A narrativa insiste em exibir de modo repetitivo as tarefas caseiras de Orna, cuidando de refeições e dando atenção às crianças. A princípio, parece um equívoco, mas depois fica clara a intenção de fazer o espectador mergulhar no cotidiano personagem, numa aproximação fundamental para a revolta que sua situação deve inspirar.

Michal Aviad não teve intenção de construir uma estrutura dramática. Despreza a pontuação da história por cenas mais fortes e não se preocupa com a inserção de um clímax na narrativa. Ela exibe um corte temporal na vida de uma personagem comum, numa situação realista. E com isso faz um cinema muito bom.
 

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