Descrição de chapéu The New York Times

Imigrantes mortos na fronteira dos EUA têm rostos reconstruídos por artistas

Alunos da Academia de Arte de Nova York estão trabalhando com réplicas impressas em 3D dos crânios das vítimas

Patricia Leigh Brown
The New York Times

Os momentos finais das vidas de oito pessoas que atravessaram a fronteira entre México e Estados Unidos e cujos restos foram encontrados no deserto do Arizona, nos dois últimos anos, serão sempre um mistério. O que fica claro é a causa de suas mortes, a mesma que afeta muitos imigrantes.

De acordo com o legista do condado de Pima, “insolação, exposição a um ambiente quente”; “hipertermia causada por exposição aos elementos”; “desidratação, hipotensão e hipotermia devido a exposição ambiental ao calor do deserto”. E a lista prossegue.

A desolação de suas mortes no perigoso corredor ao longo da fronteira é agravada por ainda outra indignidade: as identidades desses oito homens continuam desconhecidas. As técnicas tradicionalmente usadas pelos legistas para identificar restos humanos, entre as quais exames de DNA e comparações dentárias, ainda não providenciaram quaisquer pistas.

Agora, um último esforço para identificar os mortos e ajudar a oferecer certezas às suas famílias foi transferido da polícia de Tucson para um ambiente mais rarefeito: uma oficina de reconstrução facial na Academia de Arte de Nova York.

O professor responsável pela oficina é Joe Mullins, artista forense do  Centro Nacional para Crianças Exploradas e Desaparecidas, e seu foco é a reconstrução dos rostos de imigrantes que perderam a vida no deserto.

A oficina reflete a crescente sofisticação das técnicas de reconstrução facial forense —uma fusão de ciência, arte e antropologia, na qual o crânio é usado para construir um rosto e ajudar os investigadores a identificar os mortos. A técnica se prova especialmente útil em caso de crimes ou desastres com grande número de vítimas.

Jovens alunos de pós-graduação, cujo rigoroso treinamento em arte clássica inclui anatomia, estão trabalhando com réplicas impressas em 3D dos crânios das vítimas, baseadas em tomografias dos originais, que são considerados como provas forenses. 

Reproduzidas cuidadosamente em argila aplicada sobre os crânios copiados, com bolinhas de gude no lugar dos olhos e pupilas desenhadas com canetas hidrográficas, as reconstruções produzidas pelos alunos estiveram em exposição na vitrine da academia.

“Somos criaturas visuais”, disse Bruce Anderson, antropólogo forense do departamento de medicina forense do condado de Pima. “Quando não temos um rosto visível”, por causa da decomposição, disse Anderson, “pedimos a artistas que nos ofereçam uma impressão sobre que aparência a pessoa tinha, a fim de gerar atenção quanto a um determinado caso”. As reconstruções da academia foram postadas no NamUs, o Sistema de Pessoas Desaparecidas e Não Identificadas do Instituto Nacional de Justiça. 

As mortes de migrantes em tentativas de cruzar a fronteira dos Estados Unidos com o México sofreram queda considerável no ano passado, de acordo com a Organização Internacional para Migrações das Nações Unidas. De 2001 para cá, os restos de cerca de 2,8 mil migrantes foram localizados apenas no condado de Pima.

Desse total, cerca de mil pessoas continuam não identificadas. A fiscalização mais rigorosa da fronteira e políticas de deportação mais severas vêm levando os migrantes a procurarem travessias em áreas mais remotas e brutais.

“Quem quer que visite essas regiões regularmente o faz com conhecimento sobre a escala das mortes e do número de mortos”, disse Robin Reineke, cofundadora e diretora executiva do Centro Colibri de Direitos Humanos, em Tucson, uma organização de defesa dos direitos humanos que publica informações sobre os migrantes desaparecidos e conduz buscas de DNA. “É chocante, dado o silêncio que nosso país mantém sobre esse assunto.”

Os restos muitas vezes são dispersados por abutres e outros animais de rapina, que consomem toda a carne de um corpo em questão de dias. “Se há uma coisa mais perigosa do que atravessar o deserto de Sonora com um contrabandista de pessoas, é atravessá-lo sozinho”, disse Anderson.

Para um observador treinado, a complexa estrutura de um crânio humano oferece um plano básico dos traços faciais da vítima. “O crânio é a fundação sobre a qual o rosto de um indivíduo é construído”, disse Mullins, 47. “É como uma casa para seu rosto.”

O grupo de trabalho começou analisando pistas: a espessura dos lábios, forma e posicionamento dos olhos, nariz e queixo, e até mesmo a curvatura das sobrancelhas são revelados pelo crânio.

Especialistas em reconstrução forense como Mullins, cuja área de pesquisa é a progressão de idade —por exemplo, que aparência uma criança desaparecida teria anos mais tarde—, buscam traços distintivos, como cicatrizes, um nariz quebrado ou, em um dos casos, um aparelho ortodôntico.

Reconstruir um rosto de maneira científica envolve reproduzir os músculos e tecidos faciais camada por camada, usando faixas de argila. Depois, os estudantes usam canudos plásticos inseridos na argila para marcar a profundidade dos tecidos, o que toma por base a média de idades, sexos e antecedentes culturais calculada pelos pesquisadores. Antonia Barolini, 23, cuja especialidade é a pintura, disse que escolheu a academia por causa do curso de Mullins; no passado ela sonhava ser agente do Serviço Federal de Investigações (FBI) americano.

O crânio no qual ela estava trabalhando tinha malares pronunciados, uma linha irregular na mandíbula e dentes superiores desalinhados aos inferiores. O homem tinha entre 18 e 22 anos ao morrer, de acordo com os legistas do condado de Pima. “Ele era mais jovem que eu”, observou Barolini. “Essa parte foi realmente difícil.”

O curso já está em seu quarto ano, e surgiu devido ao relacionamento de trabalho entre Mullins e Bradley Adams, diretor de antropologia forense do departamento de medicina forense da cidade de Nova York, que recentemente recebeu verbas do Instituto Nacional da Justiça para comprar uma impressora 3D.

“Reconstruções faciais têm por objetivo gerar pistas para investigações estagnadas”, disse Adams. “A esperança é que alguém que conheceu a pessoa veja a reconstrução, reconheça algumas semelhanças e notifique as autoridades sobre a possível identificação.”

Nem todos os crânios podem ser associados a uma passagem pelo deserto, mas muitos têm histórias apavorantes a contar. Madison Haws, 25, que estuda pintura na academia, recebeu um crânio não identificado vindo de Nova York, encontrado na tubulação de ar de uma casa de repouso em Queens, que veio a fechar. A mulher tinha perdido os dentes, dando ao crânio um afundamento que a reconstrução de Haws captura. “Parte de mim teme que ela tenha sido abandonada”, disse Haws. “Espero que alguém esteja procurando por ela, para que seus ossos possam repousar em paz.”

Ela e seus colegas se tornaram parte de longa linhagem de artistas praticantes da reconstrução facial, por exemplo para produzir as máscaras funerárias usadas a fim cobrir os rostos das múmias do antigo Egito; o italiano Gaetano Giulio Zumbo (1656-1701) recriava músculos faciais sobre crânios reais, usando cera. O currículo da academia inclui a arte do "écorché", a produção de figuras esculturais “esfoladas”, com músculos expostos (essas figuras, em argila, ficam espalhadas, de um jeito um pouquinho grotesco, pelos espaços encardidos de tinta dos estúdios dos estudantes).

Karen Taylor, vista como a decana da profissão, é consultora da série de TV “CSI” e diz que a complexidade de sua excêntrica ocupação costuma ser subestimada. As reconstruções às vezes são realizadas por técnicos da polícia, e não por artistas treinados que contem com o apoio de odontologistas e antropólogos. Entre os profissionais, o equilíbrio entre talento artístico e precisão científica continua a ser debatido.

“Praticantes sem talento artístico produzem faces menos críveis e realistas, e praticantes sem rigor científico produzem faces imprecisas e não confiáveis”, afirmou Caroline Wilkinson, diretora da escola de arte da Liverpool John Moores University, na Inglaterra. Ela comanda o “Face Lab”, uma organização de pesquisa cujas imagens de celebridades incluem o rei inglês Ricardo 3º, Johann Sebastian Bach, o faraó Ramsés 2º e a rainha Mary da Escócia.

Na academia, os rostos recriados pelos estudantes foram ganhando forma, e a sala começou a adquirir ares de um espaço sacro. “É meio assustador”, disse Michael Fusco, 30, aluno cuja especialidade é a pintura. “Eles se tornam pessoas.”

Dois dos oito migrantes terminaram identificados sem ajuda do projeto. Mas o deserto ainda abriga inumeráveis vítimas. Para Mullins, o trabalho dos alunos de seu curso representa o potencial de dar paz às famílias dos desaparecidos, que talvez tenham morrido quando estavam em busca de uma vida melhor.

“Foi  uma aposta que lhes custou a vida”, disse Mullins. Mas que não deveria ter lhes custado sua identidade.” 
 
Tradução de Paulo Migliacci
 

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