Descrição de chapéu

Livro 'A Casa no Brasil' opõe com destreza a senzala ao condomínio

O objetivo é demonstrar as razões de características e anomalias atuais por meio de raízes históricas

Francesco Perrotta-Bosch

A Casa no Brasil

  • Preço R$ 56,18 (427 págs.)
  • Autor Antonio Risério
  • Editora Topbooks

Não dá para passar incólume pela leitura do livro de Antonio Risério. “A Casa no Brasil” força o leitor a tomar uma posição com relação a questões urbanas. O autor não teme em apresentar a sua com veemência, o que instiga o leitor a também se questionar.

Essa “aquarela crono-socioantropológica”, nas palavras de Risério, da moradia brasileira tem capítulos organizados de modo diacrônico. Isso não impede que referências recentes sejam enxertadas no texto, produzindo um efeito de permanente vaivém entre passado e presente. O objetivo é, sobretudo, demonstrar as razões de características e anomalias atuais da sociedade por meio de raízes históricas.

Desse modo, casa-grande e senzala são dialeticamente analisadas. Referências lusitanas, africanas, indígenas são evocadas e relativizadas para compreender a natureza construtiva das casas no Brasil.

O autor nos faz transitar das descrições de ausência de mobiliário nos primeiros séculos coloniais (até mesmo nas salas dos senhores de engenho) para a profusão de coisas dos interiores da casa burguesa no século 19.

Dos solares passamos às casas ecléticas, neocoloniais, mission style (interessante Risério ter dedicado um capítulo a um estilo negligenciado pela historiografia), modernistas até os condomínios fechados, verticais, com grandes garagens e apartamentos com quarto de empregada. Estes últimos são vestígios das senzalas, tal como cortiços e favelas.

Nesse caldeirão, não faltam análises das relações sexuais e da posição das mulheres dentro de casa. Sem levantar bandeiras, o autor exemplifica o machismo predominante em vários momentos históricos.

De modo geral, a evolução das moradias parece, nas palavras de Risério, equivaler ao desenvolvimento da ideia de privacidade —que, no Brasil, desemboca cruelmente numa cisão social cada vez mais ampla.

Da casa-grande e senzala nasce uma cidade bipartida —uma “legal” para as classes altas e outra “extralegal” dos mais pobres. Condição que baliza outro eixo estruturante do livro —a relação entre casa e cidade. Desafiando o senso comum, o antropólogo baiano enfatiza que “o Brasil nasceu urbano”.

Em meio à fartura de exemplos citadinos, o caso da cidade do Rio de Janeiro na virada do século 19 para o 20 é dos mais esclarecedores da posição do autor. Diferencia um Machado de Assis, a seu ver, interessado em minucias dos interiores residenciais dos antigos subúrbios ricos, de um Lima Barreto atento aos duros ambientes urbanos dos mais humildes e denunciante do racismo dominante. 

Também não há um traço de condescendência com os ex-prefeitos cariocas Pereira Passos (responsável  pela abertura da avenida Central, atual Rio Branco) e Carlos Sampaio (executor da demolição do morro do Castelo), caracterizados sem meias palavras como discriminatórios e higienistas.

Tais casos introduzem a régua que Risério usa na segunda metade do livro. Por um lado, valoriza a qualidade dos conjuntos habitacionais modernistas da época de Vargas, como o Pedregulho, de Affonso Eduardo Reidy, no Rio. Por outro, é impiedoso com os programas habitacionais BNH, do governo militar, e o Minha Casa Minha Vida, que considera “voltado para construir as favelas do amanhã”. 

Como solução para isso, cabe destacar sua defesa do controle estatal do chão da cidade. Isto é, a recomendação de mecanismos de controle da propriedade privada nas cidades e, por consequência, da especulação imobiliária.

Risério tem uma grande vantagem em relação a considerável número de especialistas em urbanismo e arquitetura no Brasil que, recorrentemente, chafurdam num vocabulário tecnicista, tornando temas tão universais quanto casa e cidade em assuntos cifrados.

A abundância de questões, o assoberbante número de autores citados e o abrangente arcabouço temporal poderiam cair na prolixidade. Entretanto, a oralidade presente no texto, por meio de um constante ritmo de conversa e o uso da primeira pessoa, torna a leitura palatável e didática. Entre introduções e provocações, os ensaios de Risério servem para perturbar o leitor. Isto é, para que este veja a cidade ao seu redor sem complacência.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.