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Livro de poesia ri da desgraça atual enquanto aguarda o fim do mundo

Mineiro Bruno Brum usa humor ácido para observar o dia a dia em tempos de redes sociais

Michaela von Schmaedel

Não é por acaso que a capa do livro do poeta e designer gráfico Bruno Brum, "Tudo Pronto para o Fim do Mundo" (editora 34), estampa uma imagem de Martin Parr. O fotógrafo britânico é famoso por mostrar cenas reais, sem qualquer glamour, que desconstroem a noção de vida perfeita e feliz das fotos publicitárias.

É isso também que faz a poesia de Brum. Em seu quarto livro, o autor de 38 anos, nascido em Belo Horizonte, usa as situações banais para mostrar o absurdo dos nossos dias e o humor ácido para lidar com a descrença generalizada.

Um exemplo está no poema "O Porcossauro": “O Porcossauro não está contente./ Precisa de novos amigos/ e um novo lar./ Precisa se esforçar mais/ e entender que nada na vida vem fácil./ O Porcossauro caminha pela cidade observando os outros porcossauros/ aparentemente mais felizes do que ele”.

Um poeta que ri de si mesmo poderia ser, de partida, uma boa descrição para Bruno Brum. Isso porque ele está inserido em seus poemas-crônicas não num tom confessional, mas junto de seus personagens, como parte do problema, sem saber como lidar com a burocracia, a busca pelo sucesso, a noção superfaturada da felicidade

O poeta mineiro Bruno Brum, autor de 'Tudo Pronto para o Fim do Mundo'
O poeta mineiro Bruno Brum, autor de 'Tudo Pronto para o Fim do Mundo' - Tatiana Perdigão/Reprodução/Facebook

“A felicidade alheia me fere./ A felicidade alheia me oprime./ A felicidade alheia me faz pensar em desistir./ Passo horas na internet, investigando até onde vai a brincadeira./ Passo horas sofrendo, lendo posts e mais posts./ Um sofrimento gostoso./ Um sofrimento justo./ Um sofrimento necessário.”

Na forma, Brum também surpreende. Não usa metáforas, e seus poemas costumam ser curtos, narrativos (em prosa e verso), numa linguagem informal —muitas vezes de anúncio ou de manchete de jornal.

Dá para dizer que Brum tem algo da poesia objetiva de Oswald de Andrade, do construtivismo de João Cabral de Melo Neto, do humor de Paulo Leminski e Francisco Alvim e da ironia de Carlos Drummond de Andrade.

 

Indo mais longe, também é possível ver traços do coloquialismo de Frank O’Hara e da acidez de Nicanor Parra. Mas as comparações são um tanto forçadas, porque a composição poética de Brum —o tripé crítica social, pessimismo e humor— é bastante original, como no pequeno poema chamado "Marmitex": “A alegria tem um sabor/ que não sei explicar./ Lembra frango”. Ou no que ele diz: “O café vai esfriar./ Vamos todos morrer./ O ovo e a galinha vieram antes da morte./ A morte veio antes da penicilina./ Ainda bem que tudo deu certo./ Ainda bem que chegamos até aqui”. 

Ao mesmo tempo em que Brum fala da sensação de um fim iminente, não há qualquer vestígio saudosista e muito menos a expectativa de um futuro promissor. Ele é um poeta do agora, alguém que observa aquilo que acontece nas redes socias, nas agências de publicidade, nos bares, nas filas de banco.

E se Bruno Brum não vê saída, como muitos de nós, pelo menos nos dá uma poesia de alta tensão, que retrata a nossa época com exatidão e humor. Um livro tragicômico, que conta, como escreve Brum no poema "Diablo Wings 2.0", “com o requinte e o bom gosto que caracterizam o estilo do autor,/ foi feito para quem não se contenta com o básico./ Recomendo”.

Tudo Pronto para o Fim do Mundo

  • Preço R$ 36,00 (80 págs.)
  • Autor Bruno Brum
  • Editora Editora 34
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