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Artes Cênicas

Musical anuncia Vera Holtz nos cartazes, mas a atriz não pisa no palco

Em 'Merlin e Arthur', ela faz intervenções 'em audiovisual' sem elo direto com os diálogos ao vivo e sequer com a trama

Nelson de Sá

MERLIN E ARTHUR - UM SONHO DE LIBERDADE

  • Quando Sexta, às 20h; sábado, às 16h e 20h; domingo, às 19h. Até 18/8
  • Onde Teatro Shopping Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569, Consolação, tel. (11) 3472-2230
  • Preço R$ 50 a R$ 150

Antes de mais nada, Vera Holtz não está no palco. Ela é Merlin em “Merlin e Arthur”. É anunciada nos cartazes, está em três fotos grandes no programa da peça, inclusive aquela que abre a publicação, mas não aparece em cena.

Faz intervenções “em audiovisual”, independentes, sem elo direto com os diálogos ao vivo e sequer com a trama. Esforça-se bastante nos vídeos, certamente ajuda a lotar até as matinês no Shopping Frei Caneca, mas não é teatro.

O musical, na verdade, é sobre Arthur, Lancelot e Guinevere, interpretados por seis atores, nas versões adolescentes e adultas dos personagens. São eles o espetáculo, suando o figurino por duas horas e meia, quatro vezes por semana. 

No que é propriamente teatro, outro problema. É preciso boa vontade para ver alguma relação entre as canções de Raul Seixas e Paulo Coelho —e outros— e os cavaleiros da Távola Redonda.

Os dois lados não se encontram sequer no tom, que é irônico nas músicas originais, do roqueiro baiano que ria dos outros e de si mesmo, mas tenta se levar a sério na adaptação produzida pela carioca Aventura, de Aniela Jordan, e dirigida por Guilherme Leme Garcia.

A mesa redonda se torna metáfora da diversidade e da igualdade contemporâneas. O Arthur do músico Paulinho Moska espalha lições de moral anacrônicas e constrangedoras. O protagonista se sai bem ao cantar, como esperado, mas não ao discursar.

Os melhores quadros, reconhecidos como tal pelo público, são aqueles abertamente paródicos, protagonizados por Patrick Amstalden como um Dreadmor comicamente malvado, insinuante e covarde.

Na apresentação vista, fez dupla de efeito com Fernanda Gabriela, cover da personagem Anamorg. (No teatro musical, muito exigente de seus intérpretes, emocional e fisicamente, a troca de elenco é comum e aceitável.)

As canções e os próprios diálogos então funcionam, como teatro e não comunicação de mensagem edulcorada. São aqueles momentos em que Raul Seixas se integra ao espetáculo, de fato, para alegria da plateia.

Garcia e a Aventura haviam conseguido reunir elementos díspares com resultado bem melhor em “Romeu + Julieta”, usando canções interpretadas originalmente por Marisa Monte. Mas desta vez, é claro, não se trata de Shakespeare.

Na atuação, além de Moska, que confirma ter lugar no teatro musical, também o Arthur jovem de Rodrigo Salvadoretti se firma. Já um intérprete estabelecido como Gustavo Machado está longe de seu melhor momento, nos quadros musicais como Lancelot.

O cenário com piso em prismas, integrado às projeções, seria de impressionar, não fossem os figurinos e o visagismo avançando pelo kitsch.

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