Antonio Banderas fala sobre interpretar Almodóvar, 'Dor e Glória' e deixar Hollywood

O ator se abre sobre seu relacionamento com o diretor, a nova colaboração entre eles - e como um ataque cardíaco o mudou

Raphael Abraham
Londres | Financial Times

Não é exagero dizer que Antonio Banderas passou 37 anos se preparando para seu mais recente papel.

Em "Dor e Glória", o ator espanhol interpreta Salvador Mallo, uma versão mal disfarçada de seu grande amigo e velho colaborador Pedro Almodóvar, com quem ele trabalhou pela primeira vez em "Labirinto de Paixões" (1982). É um autorretrato notavelmente honesto e ocasionalmente nada lisonjeiro por Almodóvar, e traz o que talvez seja o melhor desempenho da carreira de Banderas, que lhe valeu grandes elogios da crítica o prêmio de melhor ator no festival de Cannes, em maio.

Mas de algumas maneiras, a preparação de Banderas foi ainda mais profunda —ainda que inconsciente. O personagem saturnino de Salva é determinado em alto grau por uma litania de moléstias das quais ele sofre (muitas das quais compartilhadas pelo cineasta), e Banderas, embora esteja em forma invejável para um homem de 59 anos, também se viu sujeito a problemas de saúde, tendo sofrido um ataque cardíaco em 2017.

Antonio Banderas em cena de 'Dolor y Gloria', de Pedro Almodóvar
Antonio Banderas em cena de 'Dolor y Gloria', de Pedro Almodóvar - Divulgação

Quando nos encontramos em um hotel no centro de Londres, ele falou com franqueza sobre o impacto da doença; sua fala muitas vezes empolgada, rápida, se desacelerou e transformou em um ronronar macio. "Algo ficou depois do ataque cardíaco, algo que eu não tinha antes", ele diz. "E nós atores somos animais e usamos tudo. Parte do coração está lá naquele filme".

O "algo" pareceu imediatamente evidente para Almodóvar, que chamou Banderas para o papel ainda que a colaboração anterior entre eles, "A Pele que Habito" (2011), tenha sido acidentada. Na época, o ator estava vivendo em Hollywood e tinha alguns sucessos de bilheteria a seu crédito, como "Balada do Pistoleiro" e "A Máscara do Zorro", e estava determinado a a exibir os truques aprendidos desde o trabalho anterior que os dois fizeram juntos, "Ata-me", 22 anos antes.

"Vou te mostrar as coisas que aprendi", ele disse a Almodóvar. "Agora, modulo minha voz assim. E relaxo mais diante das câmeras, assim". Mas o diretor não se impressionou. "Ele me disse que não tinha como usar aquilo, e me perguntou onde estava eu. Eu respondi que aquele era o novo eu. E assim filmamos, mas com tensão constante".

O filme foi um sucesso, mas o convite para fazer "Dor e Glória" ainda assim apanhou o ator de surpresa.

"Jamais imaginei, especialmente depois daquilo, que ele me chamaria para o papel dele —mas aconteceu. Ele disse que havia algo de diferente em mim desde o episódio cardíaco, e que não queria que eu escondesse."

"Ele me disse que me conhecia, e que minha tendência seria mostrar às pessoas que estou bem, que sou um cara atlético e estou recuperado. E disse que eu não escondesse o acontecido". Mas Banderas sabia que, para o novo trabalho, teria de deixar o ego na porta. "Eu disse a ele que iria ao zero. Que imaginaria que nunca fiz um filme, nunca trabalhei com ele."

Interpretar o diretor do filme, especialmente imitar seus maneirismos, sem piedade, pode soar arriscado.

Mas Almodóvar foi o primeiro a elogiar Banderas por seu desempenho, definindo o trabalho como seu "renascimento como ator e o início de uma nova era... o personagem é o oposto da efusão dos personagens que ele interpretou até agora. Profundo, sutil, com uma galeria muito variada de pequenos gestos, ele conseguiu criar um personagem muito difícil".

O filme também foi difícil para Almodóvar, que, por meio de Salva, estava tentando enfrentar e resolver questões dolorosas —especialmente sobre o relacionamento com sua mãe, já morta. "Eu sabia que, para Pedro, era quase como uma terapia", diz Banderas.

"Eu podia vê-lo se sentindo cada vez mais aliviado, com o progresso do filme, por estar dizendo coisas que por muitos anos não disse. Conheço-o há quase 40 anos, mas nosso relacionamento sempre foi limitado porque Pedro é uma pessoa muito resguardada. Assim, quando recebi o roteiro, foi uma surpresa. Havia coisas lá que eu não sabia sobre o meu amigo."

"Dor e Glória" é acima de tudo um filme sobre retomar o contato com o passado, e, nas palavras de Banderas, "reconciliação, pedir perdão, segundas chances". Há também um elemento de nostalgia quando Salva (com a ajuda de heroína) conjura memórias vívidas de sua infância, repletas de anseios ainda que também sejam marcadas pela pobreza e pela presença poderosa da Igreja durante os opressivos anos Franco.

Em uma época em que os populistas de direita na Espanha (e outros países) estão invocando a ideia de um retorno ao passado glorioso, Banderas vê a nostalgia como uma coisa boa ou, a exemplo da heroína, como um hábito perigoso?

"As duas coisas", ele diz. "Existe uma certa xenofobia que é o medo natural do desconhecido. O que nos acontecerá? Há um pouco de medo da perda de identidade. Você se sente seguro em sua tribo, mas se você acredita que sua tribo já não existe, as coisas começam a ficar confusas. Quem somos nós? Somos quem um dia fomos? Assim, todas essas questões ocorrem a uma nação como ocorrem às pessoas".

Banderas mesmo vem passando por um período de reflexão e de largar o passado. A "nova era" a que Almodóvar se refere não nasceu instantaneamente; é a culminação de diversos anos de mudanças em sua vida.

Em 2014, ele se separou da mulher, Melanie Griffith, com quem tem uma filha, depois de 18 anos de casamento, e em 2015 deixou Hollywood. Nascido em Málaga, e tendo feito carreira em Madri e Los Angeles, o superastro espanhol optou por um lar implausível, a aldeia de Cobham, no condado do Surrey, nas cercanias de Londres, onde mora com sua namorada holandesa.

Ele diz que Hollywood o deixou "cansado"e "zangado", frustrado pela falta de opções em um negócio que muitas vezes o escalava para papéis estereotipados de amante latino de fala mansa.

"Eu sofri perturbações profissionais, talvez por estar trabalhando em um lugar no qual eu não tinha acesso a todos os personagens por causa do meu sotaque, de minha condição de latino... Minha vingança foi dizer que aceitaria todos os convites e ganharia muito dinheiro. E quando [o ataque cardíaco] aconteceu, perguntei a mim mesmo o que estava fazendo. Pensei que tinha de fazer as coisas que amo, as coisas que significam algo para mim como ator. Picasso veio assim".

Banderas está falando de "Genius", uma série da National Geographic que ele estrelou no ano passado interpretando o artista (como o ator, nascido em Málaga). Digo que se há algo que conecta os personagens de Salva e Picasso, é a teimosia e a visão artística imperturbável.

Banderas concorda. "Ele tem muito de Picasso, Pedro. Mas não creio que Pedro tenha causado tantos danos colaterais. Picasso causou muitos, e provavelmente nem estava consciente disso, mas era inacreditavelmente sincero. Não somos sinceros. Todos tentamos parecer o que não somos, e às vezes por bons motivos. Você não quer machucar os outros, e com isso engole coisas. Picasso não era assim... Ele dizia que amava alguém, amava muito, e aí já não amava, e colocava a pessoa para fora de sua vida, como um trator".

Se existe uma decepção em "Dor e Glória" é que, embora seja o primeiro filme de Banderas com Penélope Cruz, os dois não contracenam.

Em lugar disso, ela interpreta a mãe dele em flashbacks. Será que os veremos juntos nas telas? "Nós dois pedimos a Pedro que escrevesse algo para nós. E ele sempre diz que sim, está bem, OK. Mas precisa ter o impulso. Pedro não é o tipo de pessoa que você possa empurrar a uma ideia. As ideias dele surgem livremente e ele faz o que lhe ocorre".

O que Banderas tem recebido são ofertas de papéis mais substanciais e variados, e reconhecimento em premiações. Tendo sido indicado para um Emmy e um Globo de Ouro por "Genius", no ano passado, e conquistado o prêmio de Cannes por "Dor e Glória", será que este será o ano em que terá uma chance real de Oscar?

"Não sei. Não quero nem pensar a respeito", ele disse, "porque a expectativa é mãe de todas as frustrações. Melhor curtir o que temos".

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