Descrição de chapéu Livros

Após censura, obras com tema LGBT puxam vendas na Bienal do Livro

Edição politizada da feira de livros carioca também foi marcada por ausência da Saraiva

Bruno Molinero
Rio de Janeiro

Se, ao tentar censurar a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB) realmente desejava jogar na sombra livros com temática LGBT, o tiro saiu pela culatra.

Primeiro por causa de uma derrota dupla no Supremo Tribunal Federal. Após conseguir uma decisão favorável ao recolhimento de livros no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o prefeito carioca viu essa mesma decisão ser derrubada duas vezes neste domingo (8) por ministros do STF.

Primeiro por Dias Toffoli, presidente da corte, após pedido da Procuradoria-Geral da República. No texto, ele diz que o "regime democrático pressupõe um ambiente de livre trânsito de ideias" e que a imagem do beijo entre dois super-heróis na ​HQ "Vingadores - A Cruzada das Crianças", vendida na Bienal, não afronta o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, e, portanto, não justifica que as obras sejam lacradas ou recolhidas.

Horas mais tarde, outro ministro do STF, Gilmar Mendes, também se manifestou no mesmo sentido, em resposta a uma reclamação da organização da feira literária. Segundo Mendes, o recolhimento configuraria "verdadeiro ato de censura prévia, com o nítido objetivo de promover a patrulha do conteúdo de publicação artística".

A tentativa de recolher obras LGBT vendidas no evento carioca, que terminou neste domingo (8), pode ter agradado parte do eleitorado conservador e evangélico que apoia Crivella, sobretudo pensando nas eleições municipais do ano que vem. Mas editoras afirmaram que as vendas na Bienal cresceram —e sentiram que a procura por livros LGBT aumentou ainda mais.

Segundo o balanço parcial divulgado pela feira, 600 mil pessoas visitaram a Bienal neste ano, de 30 de agosto a 8 de setembro —na edição passada, o número foi de 640 mil. Como em 2017 o evento teve 11 dias e, neste ano, foram apenas 10, a média diária de visitantes praticamente se manteve. A expectativa é que mais de 4 milhões de exemplares tenham sido vendidos. 

O sábado (7) registrou o recorde de visitação desta edição da Bienal —100 mil pessoas passaram pelo evento. Não apenas porque era fim de semana e feriado, mas também porque o youtuber Felipe Neto distribuiu 14 mil livros com temática LGBT como resposta à tentativa de censura de Crivella e gerou filas de visitantes para receber obras grátis.

A iniciativa gerou resposta da prefeitura, que tinha em mãos a decisão favorável do TJ, e visitou a Bienal no sábado para fazer uma segunda fiscalização em busca de livros que fossem considerados impróprios. Funcionários da Secretaria Municipal de Ordem Pública, o subscretário de operações da pasta, o procurador-geral do Município e um oficial de Justiça estiveram na feira, enquanto fiscais circulavam à paisana.

"Comprar livro se tornou um ato político nesta Bienal", disse Pedro Almeida, publisher da Faro Editorial e atual curador do Jabuti. No sábado, a editora reuniu livros com temática LGBT em uma vitrine identificada com um cartaz onde estava escrito "Livros proibidos pelo Crivella". Quatro das obras expostas ficaram esgotadas, entre elas "O Garoto Quase Atropelado" e "Rumo ao Sul".

A Intrínseca também reuniu livros sobre o tema em uma estante e viu a procura no sábado aumentar de 100% a 600%, dependendo do título.

Isso fez com que "Com Amor, Simon", sobre um garoto que não se assume gay, entrasse na lista de mais vendidos e que "Boy Erased", sobre "cura gay", ficasse esgotado. Comparando este sábado com o mesmo dia do evento de 2017, o crescimento de vendas da editora foi de 60%. 

Os números se repetem em outras casas. A Planeta viu as vendas aumentarem 73% em relação à última Bienal e disse que a maior procura foi por obras com tema LGBT. Já a Record teve crescimento de vendas de 75% neste sábado, se comparado com o mesmo dia da edição anterior da feira.

A Globo também viu a procura por livros da Globo Alt, selo jovem da editora que publica obras com temas LGBT, aumentar em 20% no evento.

A explicação para o aumento das vendas das editoras, porém, não é só a polêmica entre a prefeitura e a Bienal. Editores também creditam o crescimento à ausência da Saraiva no evento, historicamente uma das campeãs de venda.

A livraria teve seu plano de recuperação judicial aprovado em agosto e não esteve presente no evento deste ano, fazendo os visitantes procurarem os títulos diretamente nas casas que os publicam.

"Espero que a decisão do STF crie uma jurisprudência para que esse tipo de censura não volte a ocorrer. A ameaça não é à Bienal, é à Constituição", disse Mariana Zahar, vice-presidente do Snel, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, que faz parte da organização da feira.

O jornalista Bruno Molinero viajou a convite da Bienal do Livro

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