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Feminista negra Patricia Hill Collins lamenta problemas que inspiraram livro e ainda perduram

Autora de 'Pensamento Feminista Negro' participa do seminário Democracia em Colapso?, no Sesc Pinheiros

Lívia Martins
São Paulo

Ao organizar as vivências afro-americanas femininas, transcrevendo ideias e estudos daquelas que a antecederam, a socióloga americana Patricia Hill Collins apresentou aos que antes não viam o que era o “Pensamento Feminista Negro”, em 1990 —lançado neste ano no Brasil pela Boitempo.

A obra é considerada bibliografia básica para quem quer estudar as convergências entre raça e gênero. Ali, Collins, hoje com 71 anos, cravou o primeiro marco no que seria sua trajetória contra as opressões.

“Olho para minha trajetória e me pergunto o que quero deixar para as pessoas. Não quero ser um inverno, pois tudo fica frio e devagar. Ser outono significa que ainda sou vibrante como a primavera, mas com muito mais bagagem”, diz Collins em conversa em São Paulo, onde participa do seminário Democracia em Colapso?, no Sesc Pinheiros, nesta quarta (16).

Nas primeiras linhas do livro, ela descreve uma doce passagem de quando tinha cinco anos e foi escolhida para representar a primavera no teatro da escola. O que mais adorava, segundo ela, era o sentimento de esperança e o protagonismo efêmero que teve.

Um dos motivos que levou a socióloga a escrever o livro foi perceber que na área universitária por onde transitava não havia mulheres negras. Em suas obras, Collins descreve que, quanto mais avançava os anos e ampliava seu currículo escolar, era “cada vez mais a primeira, uma das poucas ou a única afro-americana”.

A socióloga Patricia Hill Collins
A socióloga Patricia Hill Collins - Divulgação

A escritora prega o compartilhamento de ideias de maneira fácil e acessível para todos, principalmente para os que estão à margem da educação formal. Ela foi a primeira mulher a presidir a Associação Americana de Sociologia, que foi criada há cem anos.

“Eu estava interessada em conhecer e estudar de maneira profunda as contribuições e o olhar de escritoras negras de diferentes estilos literários, de Toni Morrison a Angela Davis”, diz. 

Collins conta que foi a primeira da família a se formar na universidade e que sentia que seu conhecimento não era seu, mas algo que deveria compartilhar com toda a comunidade negra, em especial com as afro-americanas.

“Quando terminei de escrever ‘Pensamento Feminista Negro’, eu fiquei muito feliz. Foi difícil porque a abordagem havia sido feita por poucos. Mas percebi que não estava terminado, pois os tipos de problemas sociais que me levaram a escrever o livro ainda existiam. E permanecem até hoje”, diz Collins. 

Quando ela analisa o momento atual, porém, vê que não há apenas um meio de se chegar ao progresso, mas sim várias soluções possíveis. “Os grupos minoritários —mulheres, negros, LGBTs— reivindicam ainda hoje seus direitos negados há tempos, como educação, justiça social e igualdade”, diz ela.

Com ingressos esgotados, o evento do qual Collins participa em São Paulo tem ainda a participação, no sábado (19), da ativista americana Angela Davis.

Pensamento Feminista Negro

  • Preço R$ 73 (480 págs.)
  • Autor Patricia Hill Collins
  • Editora Boitempo
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