Descrição de chapéu

'Flexing' nasceu nas ruas e canalizou demandas do movimento negro

A dança criada nas ruas do Brooklyn, em Nova York, tem muitos elementos das danças urbanas, mas cresceu como algo à parte na cultura hip-hop

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Braços ondulando como se fossem escapar da articulação do ombro, caminhadas em câmera lenta de homens andando na lua, saltos mortais. Flexing, a dança criada nas ruas do Brooklyn, em Nova York, tem muitos elementos dos estilos clássicos das danças urbanas, mas cresceu como algo à parte na cultura hip-hop.

Sua origem foi um grupo criado por Reggie Gray (nome artístico, Regg Roc), inspirado nos bailes da Jamaica, especialmente o “brukup” —de “break up”, quebra ou pausa. 

Gray acrescentou ao estilo lutas estilizadas, recriando efeitos especiais de sua outra fonte de inspiração, o filme “Matrix” e, principalmente, dramaturgia. As danças do flexing são narrativas, querem contar uma história, nem sempre com final feliz. 

Pode ser chamada de dança de protesto. Sua temática é ligada aos movimentos negros americanos, como o Black Lives Matter, e a questões políticas, sociais e culturais contemporâneas —das dificuldades para criar filhos aos perrengues para conseguir um emprego. Há muito uso de pantomimas para contar essas histórias e as mensagens explícitas são frequentes. 

Foi assim no vídeo “Dance for Justice”, resposta do grupo de dança ao caso Trayvon Martin, adolescente negro morto por um vigilante de condomínio na Flórida, em 2012. 

Naquele momento, o estilo que ganhou nome após Gray e seus dançarinos participarem do programa de televisão Flex N Brooklyn já era famoso entre o público local das danças urbanas. O reconhecimento internacional veio depois. 

Em 2015, eles foram convidados por Peter Sellars, diretor americano conhecido por suas montagens de óperas, para criar um espetáculo no Park Avenue Armory, importante centro cultural em Manhattan. 

Quando o espetáculo começou a ser preparado, Eric Garner e Michael Brown foram mortos por policiais, desencadeando uma onda de protestos nos Estados Unidos. Ambos os homens, negros, estavam desarmados quando foram abordados. O segundo tinha 18 anos. O espetáculo foi uma forma de o elenco comandado por Gray elaborar os acontecimentos, uma espécie de cura por meio da dança, usada como forma de expressão pessoal e coletiva. 

Há técnica, ritmo, energia e manobras impressionantes no flexing. Torções chamadas de “quebra ossos”, flutuações ao modo do “moonwalk” de Michael Jackson, saltos do nível do duplo twist carpado. 

Mas seu grande apelo vem dessa capacidade de contar histórias determinantes da vida dos dançarinos e das sociedades em que vivem, que reverberam com realidades vividas muito além do Brooklyn.

Sua força também é contar isso por meio do  corpo, numa linguagem entendida em qualquer lugar, e transformar os discursos verbais em puro movimento. Diz tudo o nome do coletivo criado por Gray: Dream Ring, algo como círculo do sonho, com a palavra “dream” servindo de acrônimo para Dance Rules Everything Around Me (a dança comanda tudo ao meu redor).

Outros estilos urbanos

Break
Surgiu em Nova York nos anos 1970 e usa elementos de artes marciais e ginástica olímpica nos trabalhos de solo, com o corpo apoiado na parte superior do tronco. É ligado musicalmente ao rap, hip-hop e breakbeat

Locking
Criado na Califórnia, também nos anos 1970, o estilo está associado ao funk. É caracterizado por movimentos fluidos dos membros superiores e por pausas em que a coreografia fica congelada por alguns segundos

Passinho
Com sequências muito rápidas de movimentos dos pés, o estilo que começou a tomar forma no Rio, nos anos 2000, mistura elementos de break, funk, samba, frevo e capoeira

Kuduro
Desenvolvida em Angola nos anos 1980, é uma dança com muito trabalho de quadril, que mistura ritmos africanos, caribenhos e música eletrônica a coreografias que parecem isolar as partes do corpo durante a execução dos movimentos

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