Peça que marcou os anos 2000, 'Os Sete Afluentes do Rio Ota' volta ao palco

Criação torna a debater questões humanitárias, agora sob o fantasma de retrocessos em vários países, diz diretora

Marjorie Estiano em cena da peça 'Os Sete Afluentes do Rio Ota'
Marjorie Estiano em cena da peça 'Os Sete Afluentes do Rio Ota' - Michele Mifano/Divulgação
São Paulo

Fazia dois anos que a irmã da diretora de teatro e produtora Monique Gardenberg tinha morrido por causa de um câncer. Na época, ela nunca tinha dirigido nada para os palcos, apenas para o cinema.

Em uma conversa com Zé Celso, o diretor do Teatro Oficina, ouviu dele que deveria procurar uma cura por meio da atividade artística.

Esse é o prenúncio de “Os Sete Afluentes do Rio Ota”, que estreou em 2002 e permaneceu dois anos em cartaz. O roteiro do espetáculo tem a assinatura do canadense Robert Lepage, um sujeito que fez história nas artes cênicas com espetáculos de extremo cuidado visual, domínio de dramaturgia e concepções cenográficas deslumbrantes. 

Gardenberg já produzia grandes festivais de música e artes, como o extinto Free Jazz, e pretendia trazer a montagem de Lepage de 1994 para o Carlton Art naquele início de milênio. A resposta que obteve foi negativa, e então ela pediu a ele autorização para dirigir uma nova versão, com elenco totalmente brasileiro. 

“Foi no meio da temporada que entendi que aquela escolha tinha a ver com a morte da minha irmã”, diz Gardenberg, que lê nas entrelinhas deste drama com pitadas cômicas um sentido “de renascimento e morte”.

Foi assim que surgiu um dos espetáculos mais populares e mais impactantes da década passada. Com uma história toda recortada, que atravessa décadas em que aparecem dezenas de personagens em diferentes países —Japão, Estados Unidos, Holanda, entre eles— “Os Sete Afluentes do Rio Ota” tem cinco horas tão intensas que elas parecem se passar em cinco minutos. 

Após sua estreia em São Paulo, no teatro do extinto Hotel Hilton no centro da cidade, este repórter assistiu a três diferentes sessões da peça. Notou que, até o final, suas plateias permaneciam
sempre lotadas. Os aplausos eram longos e os ingressos estavam sempre esgotados.

Agora a peça retorna, no Sesc Pinheiros, para uma curta temporada, que começa nesta quinta (24) e permanece até 1º de dezembro. Gardenberg já negocia viajar para outras capitais e tem o convite de levá-la para o próximo Festival de Teatro de Curitiba. 

Com um drama de curva temporal tão longa, o espectador tem a oportunidade de compreender como fatos acontecidos na juventude podem ganhar desdobramentos na vida adulta. Gardenberg compara a estrutura da peça à das séries de televisão que se popularizaram nesta década por causa do streaming. 
“O espectador que for assistir à peça vai ter que encarar como se fosse uma maratona de série”, diz a diretora. Há um intervalo de 20 minutos no meio da sessão.

Entre as diversas histórias, haverá a de um jovem que aluga um quarto em uma pensão de Nova York, cuja dona é bem malucona, durante uma jornada em busca de seu irmão. Também haverá a de uma menina judia que se perde dos pais durante a Segunda Guerra Mundial.

Quem fazia o papel da dona do albergue —e mais outros dois personagens da peça— era Maria Luísa Mendonça, que não vai estar no elenco da nova montagem. Nem  estará Beth Goulart. São duas perdas significativas —elas faziam trabalhos que seduziram público e crítica. A ideia era retomar a peça 15 anos depois de sua última apresentação, com o mesmo elenco.

Mendonça e Goulart já tinham compromissos e não conseguiram atender à agenda da temporada, segundo Gardenberg. Mendonça será substituída por Bel Kowarick, Silvia Lourenço e Chandelly Braz, uma para cada papel que desempenhava. E, no lugar de Beth Goulart, entra Marjorie Estiano. Permanecem Caco Ciocler, Giulia Gam, Helena Ignez e outros.

A estrutura do espetáculo praticamente não tem mudanças. Sobre o palco o cenário de três cubos vazados criados por Hélio Eichbauer vai se transformando em diversos ambientes. Morto no ano passado, ele foi um dos mais importantes nomes da cenografia no país, tendo feito, por exemplo, o cenário de “O Rei da Vela”, montagem de Zé Celso de 1967 para o texto de Oswald de Andrade, até hoje uma referência cênica. 

O que mudou mesmo é o contexto político em que a peça será apresentada. “Estreamos em 2002 e, embora já tivesse acontecido o 11 de Setembro, ainda festejávamos diversos avanços e conquistas no campo da evolução civilizatória”, diz Gardenberg. 

“Agora apresentaremos a peça em um momento de retrocesso político em diversos países do mundo, e voltam a ser importantes lutas contra o preconceito, contra o totalitarismo, a luta pela democracia”, prossegue a diretora.

No momento em que Lepage criou a peça, em 1994, havia o sentimento “de que a barbaria estava cada vez mais remota e tomava distância com o passar do tempo”, diz. 

A peça crava no entrelaçamento de suas histórias os debates humanitários que haviam ganhado terreno desde as bombas de Hiroshima e Nagazaki, o Holocausto e outros horrores da Segunda Guerra, 
“E, de repente, tudo o que parecia remoto, as coisas que pareciam ter sido aprendidas pela humanidade, passam a conviver de novo com a gente como fantasmas”, continua. “Estamos à beira de reproduzir tragédias humanas daquelas proporções, se é que já não estamos reproduzindo.”

Foram esses argumentos que Gardenberg usou para convencer Lepage a conceder novamente os direitos. O diretor resistiu, porque ele mesmo queria resgatar a peça de seu repertório. A montagem tocada pelo próprio canadense reestreou em julho na Rússia, com sete horas de duração, como no texto original.
 

Os Sete Afluentes do Rio Ota

  • Quando Qui. a dom., das 18h às 23h. Qua., dia 27 de novembro, às 18h. Até 1º de dezembro.
  • Onde Sesc Pinheiros, r. Paes Leme, 195, Pinheiros
  • Preço R$ 50
  • Classificação 14 anos

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