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'Amor de Mãe' estreia na Globo querendo ser tudo menos novela

Trama repete diretor e roteirista de 'Justiça' e tenta levar clima tenso e estética de cinema ao folhetim

Rio de Janeiro

No mormaço metálico do trânsito da Linha Vermelha, o diretor José Luiz Villamarim nunca desviava o olhar de um sobrado azul, com grades nas janelas viradas para a via expressa que corta o Rio de Janeiro e o brilho tímido da TV num canto escuro da sala.

“Era uma cena que podia ser o início de um filme”, ele conta, diante de uma réplica exata do lugar que ele mandou construir à sombra do maior e mais novo estúdio da Globo. “Tem essa confusão bem brasileira. São Cristóvão é meio que uma Babel carioca, um bairro antigo, tradicional, mas com uma arquitetura meio invadida.”

O caos fuliginoso do elevado que ele cruzava a caminho de sua casa na serra agora deixa de ser lateral, ou periférico. Está no centro da nova novela das nove que estreia nesta semana. Num passeio pela cidade cenográfica e pelos cenários hiper-realistas de “Amor de Mãe”, Villamarim diz o que já parece óbvio —a trama é menos Leblon e Ipanema e mais subúrbio e baía de Guanabara.

Num certo sentido, também é menos novela. O enredo pensado por Manuela Dias sobre a vida de três mulheres que vão aos extremos —da ética e às vezes da violência— para criar e defender seus filhos no fogo cruzado do Brasil atual parece surgir na tela sem o verniz de belos cenários e rostos maquiados que povoam as telenovelas desde os primórdios.

Longe da zona sul endinheirada lambida por ondas azuis e sol faiscante, o centro do Rio filmado por Villamarim parece desbotado e cinzento, asfixiado por uma espécie de ferrugem que adensa o ar.
Esses tons esmaecidos, às vezes soturnos, em nada lembram o lixão ultracolorido de “Avenida Brasil”, última novela que Villamarim ajudou a dirigir na Globo, há sete anos. 

O diretor é uma figura calejada por décadas nos bastidores de folhetins do maior canal do país, mas só chegou ao comando de sua primeira trama no horário nobre depois de arrebatar público e crítica com séries mais experimentais, construídas como cinema, entre elas “Amores Roubados” e “Justiça”, que levaram à TV aberta a brisa que soprava na recente era de ouro dos canais pagos e agora alvoroça todo o mercado audiovisual.

Villamarim, aliás, espera que a brisa logo se torne vendaval. No rastro do investimento bilionário que a Globo vem fazendo em novos estúdios e no Globoplay, sua plataforma sob demanda, a escalação do diretor para dar forma à novela mais vista do país parece estar em sintonia com a vontade de reinventar o gênero, atualizar o velho folhetim para fazer frente à era vertiginosa da guerra do streaming.

“É mais buscar um frescor do que inventar alguma coisa”, diz Villamarim. “Existe uma gramática de filmar, e a gente tenta mexer um pouquinho nessa gramática.”

Ou não tão pouco, como diz o diretor. No caso das novelas, isso envolve dar cabo da boca de cena, o cenário sem teto ou quarta parede como o dos teatros, e descartar o uso de três ou quatro câmeras, que gravam a mesma ação de ângulos diferentes para que a sequência seja editada depois num jogo de plano e contraplano.

“Não usamos três ou quatro câmeras, às vezes só uma ou duas para fazer uma mise-en-scène mais a favor do ator. Quero ser um diretor dentro do set”, diz Villamarim. “É o jeito de dar um ar autoral para a novela, que é uma coisa gigante. E, como bom formalista, estou em busca de uma forma.”
Isso fica claro no set. Villamarim criou espaços cheios de janelas, corredores e escadarias que emolduram a ação muitas vezes claustrofóbica, as tais “amarras do quadro” que Walter Carvalho, seu diretor de fotografia, gosta de usar.

Ele também exigiu que tudo nos cenários, de casas humildes a apartamentos de luxo, fosse de verdade —torneiras têm água corrente, azulejos e pisos de cerâmica e madeira são reais e todos os ambientes seguem a escala doméstica, o que exige uma marcação de cena ultraprecisa e ensaiada.

“Tenho a impressão que tudo que ele descobriu fazendo séries ele está aplicando aqui”, conta a atriz Adriana Esteves, que vive Thelma, a mãe superprotetora da trama, num intervalo de gravação. “Ele busca o que acha mais bonito, o enquadramento mais elegante para contar essa história.”

Bonito e elegante, no caso, é só o jeito de filmar, não o que está em cena, que muitas vezes pende mais para o brutal. Num dos momentos mais fortes dos primeiros episódios, uma longa sequência sem cortes mostra Magno, personagem de Juliano Cazarré, atravessando a pé o trânsito por baixo do viaduto até ouvir gritos e entrar num beco escuro para socorrer uma mulher que estava sendo estuprada.

Não faltam, aliás, rompantes de fúria que acabam em tragédia, pelo menos no deslanchar da trama. O clima tenso, uma marca da roteirista Manuela Dias, que volta a trabalhar com Villamarim depois de “Justiça”, parece ainda mais aflorado na nova novela. 

“Estou indo com tudo, querendo pegar o público pelo coração”, diz Dias, lembrando que seus enredos de alta voltagem às vezes fazem duvidar que seja uma mulher escrevendo. “Busco deixar de ser eu, que é o máximo que consigo fazer como escritora. É deixar de ser mulher, deixar de ser de classe média, antropofagizar tudo.”

Mas as três heroínas de sua história —vividas por Regina Casé, Adriana Esteves e Taís Araújo— não deixam dúvida que há um olhar feminino no centro da trama. Na contramão do folhetim clássico, aliás, nenhuma delas é mocinha e não há vilões muito óbvios.

“Os personagens femininos têm esse fascínio. Às vezes, um herói masculino tem que ser bom ou ruim, mas uma heroína é muito mais complexa”, diz a roteirista. “Mas todo mundo é muito complexo. A gente é bom, mau, generoso, egoísta, tudo ao mesmo tempo.”

O excesso de realidade que Dias e Villamarim gostam de despejar na tela contrasta com o enredo mais linear de “A Dona do Pedaço”, que acaba de chegar ao fim com sucesso estrondoso. O diretor entende que o público pode estranhar à primeira vista, mas lembra que “Amor de Mãe” não foge tanto do que já se viu por aí.

“Ela tem essa coisa humana, hiper-realista”, diz Villamarim, sobre a roteirista. “Mas a gente também faz melodrama, tem personagens que tendem mais para o bem e mais para o mal, mas não são maniqueístas. A ação dramática só não passa pelo vilão. O vilão é a vida.”  

O jornalista viajou a convite da TV Globo.

Amor de Mãe

  • Quando De seg. a sáb., às 21h. Estreia nesta seg. (25)
  • Onde TV Globo

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