Cultura foi reduzida a lugar secundário na estrutura do governo, diz Gilberto Gil

Ex-ministros da Cultura, de Collor a Temer, criticaram escolha de Roberto Alvim, que xingou Fernanda Montenegro, para a pasta

Michel Alecrim
Rio de Janeiro

O tratamento dado às artes pelo governo Bolsonaro e a nomeação do dramaturgo Roberto Alvim para comandar a Secretaria Especial de Cultura foram pivôs do evento que reuniu sete ex-ministros da pasta, de gestões de Fernando Collor a Michel Temer, na noite desta segunda-feira (11) no Rio de Janeiro. 

No ato organizado pela Associação dos Produtores de Teatro (APTR) também estavam artistas, que se disseram indignados com a recente promoção do autor que insultou a atriz Fernanda Montenegro numa rede social. "Uma senhora atriz ser atacada por um pivete. Ela é um tesouro que nós temos. Não dá para entender", disse o ator Marco Nanini, que compareceu ao evento no Galpão das Artes, na zona portuária da cidade.

O ex-ministro Gilberto Gil - Raul Spinassé/28.fev.2019/Folhapress
 

O evento "Cultura, Liberdade de Expressão e Democracia" foi uma reação dos produtores culturais contra atos considerados de censura por estatais e órgãos públicos, mas acabou virando um desagravo à "dama do teatro" e à escolha do secretário. 

Nomes indicados no período de Fernando Collor a Michel Temer se uniram contra a nomeação e o que consideram desmonte do setor. O deputado Marcelo Calero (PPS-RJ), que fez parte da gestão Temer, ganhou apoio dos demais ex-ministros para a apresentação de um projeto de decreto legislativo para tentar revogar a medida do presidente Jair Bolsonaro. 

Também através do seu gabinete será feita moção de repúdio à vinculação da cultura ao Ministério do Turismo. "Existe uma intenção deliberada de destruição do setor cultural", disse Calero.

A nomeação de Alvim foi criticada por Ana de Hollanda, ex-ministra de Dilma. "A cultura incomoda a todos os governos autoritários e não é à toa que em todos eles houve censura. Atualmente no Brasil o governo tem uma postura moralista, fascista, homofóbica e misógina. Criou uma cartilha que também está sendo seguida por estados e municípios."

Gilberto Gil, que comandou a Cultura no governo Lula, afirmou que grande parte da estrutura administrativa montada até pouco tempo atrás exigiu trabalho árduo e está sendo desmantelada. 

"Recusada à instituição governamental da Cultura o status de ministério, estatura e prestígio, reduzida a um lugar secundário na estrutura do governo, que ela possa estar à altura de suas responsabilidades para o país no seu sentido mais amplo e mais profundo. Queremos a consideração e o respeito às conquistas do nosso passado e uma visão mais generosa do nosso futuro", disse Gil, sob aplausos. 

Marta Suplicy afirmou que o viés autoritário do governo federal vem se manifestando aos poucos, mas a escalada é constante e, segundo ela, preocupante. "A ditadura caiu quando nos unimos. Quando passou a imperar a defesa fundamental da democracia. E é isso que precisamos ter agora. União de todos, formando uma frente de centro-esquerda", disse a ex-ministra, que também criticou a exclusão das assinaturas da Folha por órgãos da administração federal. 

O diplomata Sérgio Paulo Rouanet, mesmo aos 85 anos e enfrentando problemas de saúde, esteve presente. Seu nome batizou a Lei de Incentivo à Cultura instituída no governo Collor. Ele fez uma defesa da política cultural criada na época e terminou citando o princípio filosófico da democracia como um sistema em que se defende o direito do outro se manifestar, mesmo não se concordando com sua ideias.

Procurado, o secretário especial de Cultura nomeado por Bolsonaro não foi encontrado para comentar as falas dos ex-ministros,

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