Governo de João Goulart foi marcado do início ao fim por tensão extrema

O advogado nascido em São Borja chegou ao Palácio do Planalto em setembro de 1961 sob a ameaça de um ruptura militar

São Paulo

Em meio à instabilidade que marca a história da República no Brasil ao longo dos seus 130 anos, é improvável que se encontre nesse percurso uma situação tão singular como a do gaúcho João Belchior Marques Goulart

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O ex-presidente João Goulart em seu asilo político no balneário Solymar, em Ciudad de la Costa no Uruguai, após o Golpe Militar - Alberto Ferreira/CPDoc JB/Folhapress

O advogado nascido em São Borja, a mesma cidade de Getúlio Vargas, chegou ao Palácio do Planalto em setembro de 1961 num momento bastante tumultuado, sob a ameaça de um ruptura militar.

E ele deixou o governo federal num período ainda mais atribulado, vítima de um golpe comandado pelos generais do Exército. 

Jango, como era conhecido, é tema do 16º volume da Coleção Folha - A República Brasileira. Escrito pela jornalista Eliane Lobato, o livro sobre o presidente do PTB chega às bancas neste domingo, dia 29. 

Quando Jânio Quadros renunciou, em agosto de 1961, Jango estava em viagem diplomática à China. Como vice eleito, bastava que ele voltasse ao Brasil para assumir a Presidência, conforme previa a Constituição. Certo?

Não. As inquietações políticas do país escapavam dos desígnios da Carta. Grupos mais conservadores, como a cúpula militar, o empresariado e as lideranças da Igreja Católica, temiam a ascensão de Jango, uma liderança trabalhista. Diziam que o político representava uma ameaça às instituições.

Os ministros militares emitiram, então, uma ordem para que Jango fosse preso assim que voltasse ao Brasil.

Por outro lado, formou-se uma resistência, mobilizada em torno de João Goulart. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Jango, passou a liderar a chamada campanha da legalidade. Saíram em apoio a ele alguns governadores, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)
e até o 3º Exército, responsável pela região sul do país.

A decisão final coube ao Congresso Nacional, que promoveu uma espécie de “golpe branco”, aprovando a mudança de sistema de governo para o parlamentarismo.

Como escreveu o jornalista Elio Gaspari, colunista da Folha, citado neste livro da coleção, era um jeito de “permitir que ele ocupasse a Presidência desde que não lhe fosse entregue o poder”. 

Jango aceitou a decisão dos parlamentares, mas esse ainda não era o desfecho da novela sobre sua chegada ao poder. Ele precisava ainda desembarcar em Brasília, o que quase lhe custou a vida —escapou de uma tentativa de atentado na viagem de Montevidéu a Porto Alegre e de outra no voo da capital gaúcha a Brasília. 

O sistema parlamentarista ruiu depois de 14 meses, o que levou Jango a se tornar um presidente com poderes efetivos em janeiro de 1963. 

Por uma série de falhas do governo janguista e também devido a ações raivosas da oposição, que tinha o udenista Carlos Lacerda  como um dos líderes, o mandato correu sob tensão.

Na madrugada de 31 de março de 1964, tropas lideradas pelo general Olímpio Mourão Filho deixaram Minas Gerais rumo ao Rio de Janeiro. Eram os primeiros passos do golpe militar, diante do qual Jango praticamente não ofereceu resistência. 

Era também o início da ditadura, que vigorou no país por mais de duas décadas. 

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