'Achava que não ia mais conseguir cantar', diz Milton Nascimento

Estrela de série sobre o Clube da Esquina, Bituca também contou sobre combinado para ter filho com Gal Costa

Rio de Janeiro

Mesmo 40 anos depois, não é tão simples entender o Clube da Esquina. O grupo, que não era exatamente um clube e nem uma banda, deu nome a dois discos nos anos 1970.

Para Márcio Borges, um dos meninos que se encontravam nos anos 1960 —entre as ruas Divinópolis com Paraisópolis, no bairro de Santa Teresa, em Belo Horizonte—, era tudo consequência da amizade.

“Era primeiro a amizade, depois a música”, diz. “E o destino reuniu, em um só lugar, o Bituca, Wagner Tiso, a família Borges, o Beto Guedes. Era tudo no mesmo quarteirão.”

Márcio, letrista do “clube”, é um dos participantes da série “Milton e o Clube da Esquina”,  que estreia esta sexta (31), no Canal Brasil. Depois de passar na TV, os episódios ficam disponíveis inclusive para não assinantes, no Canal Brasil Play.

Durante seis episódios, Milton Nascimento recebe os amigos antigos —Lô Borges e Ronaldo Bastos entre eles— e convidados —Samuel Rosa, Seu Jorge, Criolo, Iza, Gal Costa e Ney Matogrosso, entre outros— para celebrar o legado daqueles álbuns, “Clube da Esquina”, de 1972, e “Clube da Esquina 2”, de 1978. A principal ausência é Fernando Brant, letrista e colaborador de Milton que morreu em 2015.

Eles se reuniram por uma semana em um estúdio isolado e bucólico em Minas Gerais, a fim de reinterpretar as músicas do Clube da Esquina e relembrar histórias da amizade. Os arranjos foram refeitos idênticos aos originais.

​Lô Borges lembra que, quando conheceu Milton Nascimento, era uma criança. “Ele gostava de uma bandinha que eu tinha com o Beto Guedes”, diz. “A gente fazia cover de Beatles, nos chamávamos 'The Beavers'. Milton era entusiasta, mas queria que a gente tocasse umas músicas do Dorival Caymmi.”

Bituca já passava dos 30, tinha três álbuns lançados e era um cantor reconhecido quando chamou Lô, então chegando aos 20 anos de idade, para gravar com ele no Rio de Janeiro. Milton já havia gravado “Para Lennon e McCartney”, composição de Fernando Brant, Lô e Márcio Borges, em seu disco “Milton”, de 1970.

“Ele me convidou para gravar um disco e eu respondi que tinha que pedir para minha mãe”, ri. “Aí fomos morar com ele no Rio de Janeiro. O Bituca ia fazer show, para botar grana na casa. Eu e Beto éramos totalmente dependentes dele, a gente só ficava em casa compondo.”

Mas o esqueleto do primeiro e mais clássico álbum “Clube da Esquina” foi ser formado um pouco mais tarde, inspirado nos encontros na famosa esquina de Santa Tereza, embrião da mistura de bossa nova e jazz com Beatles, psicodelia e música mineira que marcou aqueles trabalhos.

Milton ficou um período com Lô e Guedes em uma casa em Mar Azul, enseada situada na praia de Piratininga, em Niterói. Lá, recebiam as visitas de letristas, como Márcio Borges e Fernando Brant, e tocavam o tempo inteiro. É onde o disco de 1972 foi forjado.

Milton e companhia ainda lembram de outras histórias, como a briga com a gravadora para lançar um disco duplo. Em um dos episódios, Bituca destaca a amizade com Gal Costa, com quem havia combinado de ter um filho. “No fim, não tivemos”, diz, aos risos. “Ela sempre reclama disso, mas não pode reclamar não.”

A série chega após Milton resgatar o período do Clube em turnê que passou por Europa e rodou o Brasil até o começo deste ano. Foi o estabelecimento do retorno dele aos palcos, depois dos shows “Semente da Terra”, de 2017.

Antes disso, Bituca passou por um período difícil. “Naquela época, achava que não ia conseguir cantar mais. Não foi por causa de doenças, mas por coisas nas quais eu não acreditava mais.", diz ele.

Hoje, o Clube da Esquina tem reconhecimento internacional e é um exemplo raro de longevidade de uma obra musical.

“Eu era pouco mais que um adolescente”, afirma Lô Borges. “Não fazia ideia de que seria tão propagado ao longo das gerações. Percebo, hoje, que a música do Clube me dá a oportunidade de ter 20 anos de idade para o resto da vida.”

 

O jornalista viajou a convite do Canal Brasil

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.