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Cinema

Filme de drama lésbico não sensibiliza a maior parte do público masculino

'Retrato de uma Jovem em Chama' mostra que os homens têm uma perspectiva diferente sobre a voz feminina no cinema

Marina Person

Quando fiz faculdade, no fim dos anos 1980, estudei os grandes cineastas de ontem, hoje e sempre na história do cinema mundial e, mesmo já querendo ser diretora, não me questionava sobre a quase total ausência de mulheres citadas nas salas de aula.

Foi só depois de dirigir o meu primeiro longa-metragem de ficção e de estar cercada de mulheres nas cabeças de equipe (fotografia, arte, roteiro, figurino, produção executiva) que comecei a pensar sobre esse desequilíbrio.

Ao mesmo tempo, a onda feminista que varreu o mundo chegou ao cinema e foi parar no tapete vermelho de Cannes alguns anos depois, chamando atenção para o fato de que em 72 edições do festival, só um filme dirigido por mulher tinha recebido a Palma de Ouro —dividida com um filme dirigido por um homem, devo acrescentar: “O Piano” e “Adeus Minha Concubina”, em 1993. 

Ao me deparar com a crítica de Inácio Araújo de “Retrato de uma Jovem em Chamas”, publicada na Folha em 8 de janeiro, ficou evidente que esse não é um filme que fala à maior parte do público masculino.

Penso nisso quando vejo que eu e minhas amigas adoramos o filme, e meus amigos homens não acharam tanta graça. Para além das discussões de existir um cinema masculino ou feminino, não podemos negar que há grande variação no que sensibiliza mais ou menos um grupo.

Mais uma prova de que é um típico filme que fala mais às mulheres do que aos homens é a reportagem de Helen Beltrame-Linné, publicada na Folha em 27 de maio de 2019, em que ela cita uma declaração da diretora Céline Sciamma.

“O cinema foi construído pelo olhar masculino, isso forjou meu imaginário cinematográfico.” Sim, forjou também o meu e de todos os leitores desta Folha, provavelmente. 

Daí o meu desejo de se debater a dominância da voz masculina em todas as etapas da existência de um filme, desde o roteiro até a sua entrega. 

Sabemos o valor da formação de opinião, todos somos moldados pelas nossas referências, e as minhas sempre foram os caras que escreviam e escrevem na Folha, no Estado, no Globo, na New Yorker, na Cahiers du Cinéma.

E assim como nunca questionei o fato de não ter ouvido falar das diretoras pioneiras Alice Guy-Blaché, Cléo de Verberena, Lois Weber, tampouco questionei o fato de termos tão poucas mulheres na crítica cinematográfica. Pauline Kael, vocês vão dizer. Lotte Eisner. Sim, elas existem, mas são tão poucas que só deixam o desequilíbrio ainda mais evidente. 

Uma vez, Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, me contou que ela e mais dois curadores haviam assistido a um filme que retratava uma mulher no puerpério. 

A personagem tinha acabado de dar à luz e se deparava com as dores e delícias da sua recém-adquirida condição de mãe. Ao terminar a sessão, ela estava emocionadíssima, mas os dois homens ao lado dela não tinham achado nada demais. O filme quase ficou de fora da seleção daquele ano. Não fosse a presença de Renata, o público da Mostra não teria tido acesso a essa obra.

Isso fala muito sobre a voz feminina na formação do público cinematográfico. Portanto, minha crítica não é em relação às duas estrelas que Inácio Araújo deu ao filme, porque ainda que discorde dessa avaliação, sei que uma relação saudável se constrói quando podemos discordar e conseguimos acolher vozes dissonantes às nossas.

A unanimidade não é somente burra, mas sobretudo muito chata. Não é isso que queremos. Queremos essas cores diferentes nessa paleta tão linda que é o nosso gosto pelo cinema.

Retrato de uma Jovem em Chamas

  • Quando Em cartaz
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Noémie Merlant, Adèle Haenel e Luàna Bajrami
  • Produção França, 2019
  • Direção Céline Sciamma

Marina Person é cineasta, atriz e apresentadora.

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