Iphan barra festa de Luan Santana em museu tombado em Salvador

Desde 2019, festas de grande porte têm sido feitas no Solar do Unhão, conjunto arquitetônico do século 17

Salvador

Na semana em que completou 60 anos de sua fundação, o Museu de Arte Moderna da Bahia teve a sua área externa tomada por equipamentos e estruturas em metal.

Ali, seria erguido um palco para receber o cantor sertanejo Luan Santana e a banda de axé Duas Medidas, principais atrações da festa Luan Sunset, com ingressos a até R$ 300 e estimativa de público de 2.050 pessoas.

Não é um caso único. Desde o ano passado, festas e ensaios de maior porte têm sido realizados no Solar do Unhão, conjunto arquitetônico do século 17 em Salvador tombado em 1943.

O espaço já foi fábrica de rapé, armazém de derivados de cacau, trapiche e até quartel. Passou a abrigar o MAM em 1963, seguindo projeto da arquiteta Lina Bo Bardi. Antes, o museu funcionava no teatro Castro Alves.

Os eventos têm sido alvo de críticas pela incompatibilidade com o espaço, poluição sonora, poluição da praia que fica junto ao complexo e, sobretudo, possíveis danos ao patrimônio histórico.

Em 2019, foram realizados 22 shows no espaço. Destes, 13 foram sessões da Jam no MAM, evento de pequeno porte que é realizado no local há mais de 20 anos com apresentações de jazz.

Mas também houve shows de maior porte como uma festa com os cantores de axé Saulo Fernandes e Jau e também a gravação de um DVD da banda Forró do Tico, com participação de artistas como o cantor Léo Santana.

No final do ano passado, foram anunciados ensaios da banda Psirico no local.  A banda, contudo, acabou mudando de planos após ser alvo de críticas. 

O espaço é procurado por ser um dos melhores pontos da cidade para assistir ao pôr do sol, que cruza a linha do horizonte por trás da ilha de Itaparica, do outro lado da baía de Todos-os-Santos.

A gestão do espaço do MAM é feita pelo Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia), autarquia ligada à Secretaria de Cultura da Bahia, responsável pelos museus .

O órgão alega que os shows foram realizados de forma regular, mediante pagamento de cessão onerosa de R$ 8.000. E destacou que os recursos captados com os eventos são revertidos para a manutenção e conservação do MAM.

Ainda segundo o Ipac, o número máximo de público para o espaço é fixado evento a evento mediante laudo assinado por engenheiro e atestado de segurança emitido pelo Corpo de Bombeiros.

A Folha apurou que o último estudo mais aprofundado sobre a capacidade de público do local foi feito em 1988 e apontou para um limite máximo entre 1.500 e 1.800 pessoas, a depender do perfil do evento.

Além da polêmica em relação ao público máximo, a realização dos 22 shows em 2019 foi feita sem consulta ao Iphan, órgão federal de proteção ao patrimônio histórico.

Em nota, o Iphan informou que, por se tratar de um bem tombado, shows só podem ser realizados após autorização prévia. O Ipac, por sua vez, alega que “nunca houve a necessidade de autorização” do órgão federal.

Nesta quinta-feira (9), após ser consultado pela Prefeitura de Salvador para liberação do alvará, o Iphan vetou a realização da festa com o cantor Luan Santana no espaço alegando incompatibilidade com o bem tombado.

 A análise técnica da autarquia constatou que a realização do evento, com um público estimado em 2.050 pessoas em uma área de 1.000 metros quadrados configuraria dano ao patrimônio cultural.

 “O terreno não comportaria o impacto de 2.000 pessoas pulando ao mesmo tempo, ou ainda o efeito sonoro de altos decibéis”, informou o Iphan, destacando potenciais danos a estruturas históricas como alvenarias, assoalhos, bens móveis e obras do acervo do conjunto arquitetônico. 

Para o ex-diretor da MAM, Zivé Giudice, os possíveis danos estruturais são apenas uma ponta do problema. Ele defende que os eventos realizados no MAM precisam ter uma relação conceitual com o espaço.

“É importante que outras manifestações artísticas aconteçam naquele espaço. Mas não dá para colocar qualquer coisa, é preciso que os eventos dialoguem com o museu, que é um espaço comprometido com a arte contemporânea. O MAM não pode ser tratado como uma reles casa de espetáculos”, afirma. 

O acervo do MAM possui obras de artistas como Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Cândido Portinari e Pierre Verger e também abriga exposições temporárias. O espaço ambém abriga um parque de esculturas com obras de artistas como Carybé e Mestre Didi.

 
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