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Coletânea de sete livros de Jorge Salomão torna obra poderosa acessível

Poeta morreu neste sábado (7), aos 73 anos, após uma infecção

Conversar com Jorge Salomão era como estar sob bombardeio. As ideias e as frases eram disparadas com vigor e entusiasmo. No entanto, sua poesia chega a ser contida, enxuta, distante da exuberância do performer, do agitador cultural.

Morto no sábado (7), depois de ter passado nas últimas semanas por um infarto e uma úlcera perfurada no duodeno, Salomão deixa em seus 73 anos uma obra poderosa. E, melhor, hoje totalmente acessível.

Muitos dos poetas que desenvolveram seu trabalho a partir dos anos 1970 são mais comentados do que lidos, porque é difícil encontrar seus livros. Em ondas de produção que receberam nomes diversos, como "poesia marginal", "poetas de praia" ou "geração mimeógrafo", publicaram edições pequenas em selos independentes ou até em impressão caseira.

Poucos chegam a ter seu trabalho reunido em publicações de selos editorais mais parrudos, garantindo mais sobrevivência para sua poesia. Nomes como Paulo Leminski e Ana Cristina César tiverem sua obra completa editada apenas após suas mortes.

Salomão conseguiu isso no ano passado, e falava com empolgação de "7 em 1", lançamento da Gryphus. Lidos em sequência, seus sete livros originalmente publicados entre 1994 e 2016 parecem ser uma produção recente, de um poeta conectado com as agruras dos dias atuais.

Salomão demorou a publicar. Antes, participou como homem de teatro e performer da chamada geração do desbunde, uma resposta alegre e criativa à ditadura militar protagonizada por artistas radicados no Rio de Janeiro. Depois de tempos agitados nos Estados Unidos, ganhou popularidade no Brasil como letrista de sucessos nacionais em vozes como Marina Lima, Adriana Calcanhotto e Cássia Eller.

Agora, "7 em 1" fica como o registro total de um artista de livros pertinentes. Cada volume que publicou tem uma luz própria.

"Mosaical", o primeiro, já entrega no título sua condição de obra de transição. Muitos dos poemas reunidos foram transformados em canções pop alguns anos antes por seus parceiros mais constantes, Roberto Frejat e Nico Rezende.

Em tom confessional, os textos servem para enterrar de vez a insistente discussão sobre supostas diferenças entre poesia e letra de música. Salomão unificou essas expressões quase de forma orgânica.

O escritor e poeta Jorge Salomão em sua casa no bairro de Santa Treza no Rio de Janeiro
O escritor e poeta Jorge Salomão em sua casa no bairro de Santa Treza no Rio de Janeiro - Raquel Cunha/Folhapress

"O Olho do Tempo", segunda obra, é sua primeira incursão completa na prosa poética. Com referências a seus anos em Nova York e ecos da infância na Bahia, é como um diário nervoso, frenético. De certa forma, é uma preparação para o livro seguinte, este uma peça genial de prosa poética.

"Campo da Amérika" não trilha o caminho que o título sugere. Não é recheado de referências explícitas de sua vivência nos Estados Unidos. É uma envolvente e acalorada discussão sobre o homem e o mundo. A pessoa contestando o lugar e o tempo que deram para ela viver.

Talvez o melhor livro de Salomão, em que a leitura se alterna entre a velocidade de jorro de ideias e passagens tranquilizantes.

"Sonoro", seu retorno à poesia "tradicional", exibe uma nova fase, de versos curtíssimos. Muitas vezes, apenas uma palavra em cada linha. Essa escrita contida, telegráfica, é um exercício de síntese e beleza. Para fechar o livro, o poema "Manifesto" tem longos versos destinados a definir a missão dos poetas. Antológico, brilhante.

"A Estrada do Pensamento" é um livro curto, aquele em que a prosa poética retorna numa forma de flerte com a narrativa convencional. Quase conta uma trama, esbarra no romance. "Conversa de Mosquito" vem em seguida, um volume em duas partes: um longo poema (ou seriam vários curtos numa sequência?) e um texto de prosa que conversa com os versos lidos antes.

"Alguns Poemas e + Alguns", sua última publicação de inéditos, é poesia exuberante, livre, escrita para ser falada em voz alta. É um encontro no papel do Jorge poeta e do Salomão performer, circense, "malabarista", como ele se definia. Um artista cheio de gás, para usar outra expressão típica dele, que deixa esse legado acessível nas livrarias.

7 em 1

  • Preço R$ 59,90, 252 págs.
  • Autor Jorge Salomão
  • Editora Gryphus Editora
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