Após queda nos casos de coronavírus, mercado de arte volta na Coreia do Sul

Galerias e museus começam a reabrir no país e atraem vendedores e colecionadores

Brett Sokol Su Hyun Lee
Seul | The New York Times

“Eu não diria que as coisas voltaram completamente ao normal”, explicou Passion Lim, contemplando o panorama de 23 de abril durante a abertura da exposição de Billy Childish na galeria Lehmann Maupin. “Mas é um começo”, ele acrescentou.

De fato, se você ignorasse as máscaras que cobriam os rostos de metade dos participantes, estaria diante de uma noite normal de abertura em uma grande galeria de arte de qualquer lugar do planeta –antes do novo coronavírus, claro. Em um momento como o atual, a chegada de passageiros vestidos no rigor da moda, desembarcando de uma fila de sedans Mercedes, fazia com que o retorno do mundo da arte da Coreia do Sul aos negócios parecesse quase surreal.

Em outras partes do planeta, as galerias de arte e museus continuam de portas fechadas, sofrendo ondas de demissões e indagando queixosamente o que teria de acontecer antes que pudessem reabrir. Há também uma segunda pergunta ainda mais crucial: que cara terá a nova arte?

Seul, uma densa metrópole com população de quase 10 milhões de habitantes mas que registrou até o momento apenas duas mortes causadas pelo novo coronavírus, está oferecendo uma possível resposta.

Vistante da galeria Lehmann Maupin, em Seul, na Coreia do Sul, anota dados pessoais para contato, em 23 de abril de 2020
Vistante da galeria Lehmann Maupin, em Seul, na Coreia do Sul, anota dados pessoais para contato, em 23 de abril de 2020 - Woohae Cho/The New York Times

Lim já tinha ido a três outras aberturas de exposições em galerias, na noite anterior, no bairro de Samcheong-dong, o polo do mercado de arte sul-coreano. Tendo trabalhado em casa desde fevereiro, ele agora está se adaptando alegremente à flexibilização das regras de proteção.

Os regulamentos de isolamento social continuarão em vigor na cidade até o dia 5 de maio, e os grandes museus continuarão fechados até o dia 7. A retomada das aulas nas escolas ainda não foi decidida. Mas as pessoas estão começando a reocupar as ruas de Seul –algumas parecem hesitantes, e outras quase saltitam pelas calçadas.

“Não me sinto desconfortável por estar em companhia de outras pessoas, porque confio na resposta do governo à crise”, disse Lim enquanto abria caminho por entre os cerca de 50 convidados que ocupavam o espaço de dois andares e 300 metros quadrados da galeria.

Ele mencionou regras sul-coreanas que passaram a ser consideradas como exemplo internacionalmente: máscaras padrão N95 fornecidas pelo governo a todos os cidadãos, exames abrangentes para identificar a Covid-19, registro minucioso dos contatos dos infectados e isolamento imediato de qualquer pessoa exposta a alguém infectado.

Na Lehmann Maupin, um funcionário da galeria anotava cuidadosamente os nomes, endereços e telefones de todas as pessoas que passavam pela porta –para o caso de alguém que foi à abertura da exposição mais tarde ser identificado como portador do vírus. Mas, com a queda do número diário de contágios no país para uma dezena, Lim parecia completamente blasé sobre quaisquer riscos remanescentes. A máscara dele estava abaixada sob o queixo, e outros dos presentes explicavam, distraidamente, que tinham deixado suas máscaras no carro.

Lim parecia mais preocupado com a possibilidade de seu nome completo aparecer em um artigo de jornal sobre colecionadores ricos de arte. Sua empresa de tecnologia tem os negócios concentrados na China e, portanto, ele estava preocupado com a possibilidade de atrair a atenção de Pequim.

Passion é o nome que Lim usa online ao conversar sobre cultura.

Visitantes chegam à galeria Lehmann Maupin, em Suel, na Coreia do Sul em 23 de abril de 2020
Visitantes chegam à galeria Lehmann Maupin, em Suel, na Coreia do Sul em 23 de abril de 2020 - Woohae Cho/The New York Times

“Agora é um bom momento, na verdade, para ver se você pode comprar arte”, disse ele. “Porque colecionadores do mundo todo que estão passando por dificuldades puseram boas peças de arte no mercado por preços baratos."

Em Nova York, Rachel Lehmann, uma das donas da Lehmann Maupin, afirmou estar dolorosamente ciente dessa dinâmica de mercado. A unidade da galeria em Hong Kong reabriu, mas suas unidades centrais, em Manhattan, estão fechadas desde o dia 13 de março.

Com as vendas muito reduzidas, Lehmann disse que tinha sido forçada a cortar salários e a licenciar sem remuneração alguns de seus 36 empregados. Mas, depois de décadas trabalhando como negociante de arte e tendo sobrevivido a diversas recessões, ela está pensando a longo prazo –o que está acontecendo vai passar.

“É a mesma coisa que vi acontecendo em 2008 e depois do 11 de Setembro e mesmo antes, no final da década de 1970 na Europa”, completou.

Na verdade, a Ásia já está se recuperando. A filial de Seul, aberta em 2017, já respondia por entre 20% e 25% do faturamento da Lehmann Maupin antes da pandemia. Agora, depois de uma pausa inicial, muitos dos colecionadores endinheirados de Seul reingressaram no mercado.

Lehmann disse que artistas radicados na Coreia do Sul como Lee Bul e Su Se-ok eram representados há muito tempo por sua galeria em Nova York. Mas o estabelecimento de uma presença mais formal foi reflexo do número crescente de colecionados de arte contemporânea na Coreia do Sul.

Galerias igualmente poderosas, como a Pace e a Perrotin, sediadas em Nova York e Paris, também abriram recentemente filiais em Seul –e o mesmo se aplica à Various Small Fires, uma galeria menor e mais combativa, de Los Angeles. Todas elas agora competem com as galerias locais pelos dólares que os sul-coreanos reservam para a arte.

Por isso, disse Lehmann, ela selecionou Billy Childish, que considera perfeitamente adequado para um momento tenso como o atual. “As pessoas com quem tenho conversado estão procurando por alguma coisa real de verdade, autêntica, sem nada fabricado”, disse ela, descrevendo o apetite recém-descoberto por trabalhos emocionalmente significativos que possam servir como “kit de sobrevivência”.

Os quadros de Childish, com pinceladas vigorosas que evocam as paisagens emocionalmente carregadas de Vincent van Gogh, e retratos não menos expressivos que evocam Edvard Munch certamente atendem a essa descrição.

Pela tarde do dia 24 de abril, de acordo com a galeria, quatro dos sete quadros de Childish expostos em Seul já tinham sido vendidos, por preços de entre US$ 24 mil e US$ 33 mil, ou de R$ 132,2 mil a R$ 179,1 mil, todos arrematados por três compradores sul-coreanos e um colecionador que vive nos Estados Unidos.

O preço recorde de um trabalho de Childish em leilão é de US$ 56,25 mil, ou R$ 283,6 mil. Era uma pintura leiloada pela Christie’s em 2018, de acordo com o site Artnet.

Ninguém se surpreende mais do que Childish quando o assunto é sua própria trajeória no mundo da arte. “Sou uma dessas pessoas que se tornam sucesso do dia para a noite depois de trabalhar 40 anos”, disse o pintor, em tom brincalhão.

Childish, 60, falou por telefone de sua casa em Rochester, na Inglaterra, e relembrou ter sido expulso da prestigiosa escola de arte Saint Martins, de Londres, em 1980 (quando ainda usava seu nome de batismo, Steve Hamper).

Na época, ele insistia na necessidade de figuração clássica, de preferência ao abstracionismo, detestava arte conceitual e argumentava por um radicalismo de classe operária de preferência à política de identidade que começava a ingressar na teoria da arte. Por isso, se envolveu em brigas amargas com seus colegas e professores.

“Disseram que minha atitude, a maneira pela qual eu falava com os outros artistas e a minha opinião sobre arte significavam que eu jamais chegaria a algum lugar no mundo artístico”, ele recorda com prazer perceptível.

Visitantes chegam à galeria Lehmann Maupin, em Seul, na Coreia do Sul em 23 de abril de 2020
Visitantes chegam à galeria Lehmann Maupin, em Suel, na Coreia do Sul em 23 de abril de 2020 - Woohae Cho/The New York Times

Embora jamais tenha deixado de pintar, Childish se tornou mais conhecido como cantor e guitarrista de bandas como o Thee Headcoats, o que levou o jornal The New York Times a coroá-lo como o campeão mundial do rock de garagem, em 1998.

Childish também jamais deixou de resmungar em público sobre os guardiões do acesso ao mundo da arte contemporânea, seja liderando protestos em estilo guerrilha diante da Tate Modern, ou entrando como penetra na (e sendo expulso da) cerimônia de entrega do prêmio Turner. Mas nos dez últimos anos, ele se viu estranhamente celebrado por algumas dessas mesmas figuras.

“Eu só tive sorte porque há 30 anos conheci pessoas que chegaram a posições de algum poder”, disse Childish, em referência a simpatizantes de seu trabalho como o curador Matthew Higgs e o marchand berlinense Tim Neuger.

Mesmo assim, ele duvida que seu sucesso pressagie um retorno do mundo da arte à simplicidade. Segundo Childish, a única mudança que deve surgir depois do coronavírus pode ser um intenso desejo de olhar para obras de arte sem precisar de um aparelho eletrônico como intermediário.

Era esse certamente o espírito, no vernissage da Lehmann Maupin. “Você precisa ver quadros com seus próprios olhos, especialmente se for um colecionador como eu”, insistiu Soh Ji-hye, 31, que trabalha com marketing.

A opinião dela foi ecoada por outra jovem visitante, Park Jung-mi, 29, que trabalha como vendedora e disse ter ficado presa em casa desde janeiro. “Mas esta noite fiz um esforço para enfim sair de casa”, disse ela. “Ver quadros ao vivo é muito diferente de ver online."

“Vendas online não são tão efetivas”, afirmou Son Emma, diretora sênior da galeria, para quem o vírus é algo que cada vez mais será visto pelo retrovisor. Emma já estava pensando no futuro e em como administrar novas crises. Ela olhou seu telefone. “A taxa de câmbio não está tão ruim”, disse, com uma expressão animada.

Tradução de Paulo Migliacci

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