Descrição de chapéu
Cinema Coronavírus

Coronavírus só agrava uma crise que já afetava os cinemas há tempos

Salas fechadas se aliaram à concorrência do streaming para mergulhar o setor ainda mais em incertezas

As salas de cinema sobreviveram à quebra da Bolsa de Nova York e mais tarde receberam filmes sobre o período de bonança que a antecedeu. Elas também superaram duas guerras mundiais que hoje inspiram longas superpopulares. Mas, quando a crise da Covid-19 passar, os cinemas ainda estarão lá para tramas que queiram abordar a pandemia?

Esse é o tipo de pergunta que muita gente tem feito diante do novo coronavírus, e em vários setores da cultura. Mas a equação é especialmente complicada para o cinema, porque este enfrenta uma crise existencial já há alguns anos. Mas, fãs de “Vingadores”, não se preocupem. Mesmo tendo pedido empréstimos de bilhões de dólares nos últimos dias, a Disney, assim como outros grandes estúdios de Hollywood, não evoluirão para o óbito. A ameaça aqui é ao parque exibidor.

Cinemas de boa parte do mundo estão fechados e os exibidores não fazem ideia de quando voltarão a ligar os projetores. Nem mesmo gigantes, como a americana AMC, que viu o preço de suas ações cair à metade, sabem se sobreviverão à pandemia, ainda mais com dívidas pré-existentes.

Sala de cinema na região central de São Paulo às vésperas do fechamento por causa da Covid-19
Sala de cinema na região central de São Paulo às vésperas do fechamento por causa da Covid-19 - Zanone Fraissat/Folhapress

Mas a Covid-19 não representa a doença em si, só uma complicação dela. Com a popularização desenfreada do streaming, muita gente tem preferido assistir a filmes no conforto do sofá de casa. Afinal, não é preciso pegar trânsito para chegar ao cinema, a pipoca é muito mais barata e não há ingresso para comprar.

É claro que, para ter acesso ao catálogo da Netflix, é necessário ter uma assinatura. Mas seu valor é baixo e pago uma vez ao mês. O espectador não tem a real percepção de estar gastando “X” para ver um filme “Y”.

Também não ajuda o fato de muitas salas estarem sucateadas. Todos os anos, o Guia Folha, publicado por este jornal, avalia os cinemas de São Paulo. Riscos na tela, caixas de som estouradas e poltronas rangendo são uma constante, apesar do crescente preço dos ingressos. Quem vai querer pagar para ter uma experência permeada por irritações?

É bem verdade que no Brasil a quantidade de salas continua aumentando —de acordo com relatório da Ancine, o parque exibidor atingiu seu pico no ano passado, com 3.356 salas. Muitas das novidades, no entanto, tentam oferecer uma experiência para além da sessão de cinema em si, com poltronas reclináveis, bonbonnières gourmet e sessões em 4D.

Mas, nos Estados Unidos, os números são um forte indicativo de crise. Enquanto a quantidade de ingressos vendidos no país tem caído desde os anos 1990, a arrecadação, ao contrário, tem escalado. Ou seja, os ingressos estão mais caros e há menos gente nas salas.

Também nunca se produziu tanto filme como atualmente. Com a possibilidade de trilhar carreiras mais bem-sucedidas no streaming, alguns longas vão direto para a sala de estar. E os estúdios tanto já perceberam isso que investem agressivamente em suas próprias plataformas sob demanda, que tendem a se estabelecer como alternativas de distribuição para filmes pequenos e médios.

Com essas novas subdivisões, essas empresas agora tentam negociar e encurtar as janelas de exibição —o período entre a estreia de um filme no cinema e sua transmissão na TV e em outras plataformas. Isso pode complicar ainda mais a vida de quem atua no parque exibidor, minando boa parte do período de exclusividade que este tem em relação aos lançamentos.

Ainda é cedo para falar em falência da experiência cinematográfica como a conhecemos, mas o comportamento do público após a reabertura das salas será um indicativo do que aguarda o setor nos próximos anos.

O público estará com saudade dos cinemas ou terá se acostumado às telas do computador e das televisões, cada vez maiores e mais tecnológicas? As prioridades terão mudado e os gastos destinados ao lazer encontrarão um novo caminho?

Ainda é cedo para dizer, mas o fato é que as salas, se quiserem sobreviver aos montes, terão de reencontrar a magia do cinema e mostrar às pessoas o porquê de ele merecer um lugar especial em suas rotinas.​

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.