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Carta pede saída do curador do Jabuti após ele minimizar mortes por Covid-19

Após repercussão negativa nas redes sociais, Pedro Almeida afirmou que não é contra o distanciamento social

São Paulo

Mais de 5.000 pessoas assinaram uma carta pedindo o afastamento do curador do prêmio Jabuti, o editor Pedro Almeida, neste domingo (24).

O abaixo-assinado declara que Almeida, que é sócio da Faro Editorial e está à frente do principal prêmio literário brasileiro, está “moralmente desautorizado para o cargo” depois que ele publicou em seu perfil nas redes sociais um texto em que minimiza as mortes causadas pela Covid-19 e defende o fim das medidas de distanciamento social.

Iniciando o texto com a frase “alguém está mentindo para você”, Almeida argumenta que o número de mortes por doenças no país registrados em cartório nos meses de março e abril do ano passado foram muito superiores aos deste ano, já com a pandemia.

“Estou negando a importância de cuidados com a saúde? Não! Estou falando que não há um dado claro que indique a necessidade de parar com o país e ferrar a economia por uma mortandade de pessoas, porque não há aumento desses óbitos”, escreveu ele. Almeida apagou a publicação, mas prints do texto circulam pelas redes sociais e entre escritores e editores.

Uma reportagem publicada pela Folha há cerca de dez dias mostrou, no entanto, que as bases de dados dos cartórios não são confiáveis. Isso porque as informações das últimas semanas são defasadas. Além disso, os dados de anos anteriores tampouco são confiáveis, prejudicando uma comparação com 2020.

Vale lembrar ainda que especialistas de saúde do mundo todo concordam que a manutenção da quarentena é a forma mais eficaz de conter a disseminação do novo coronavírus e, assim, evitar uma sobrecarga no sistema de saúde. O Brasil se tornou nesta sexta-feira (22) o segundo país com mais casos da Covid-19 do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos.

Um dos primeiros a se manifestar sobre o caso foi o escritor Ricardo Lísias. "É um vexame", ele afirma. "Perdemos o Sérgio Sant’Anna [para a doença], por exemplo, que ganhou o Jabuti três vezes."

Lísias afirma que a permanência de Almeida no cargo reduziria a importância da premiação. "Você tem por exemplo uma categoria de ciências da saúde [na premiação]", exemplifica.

Além de Lísias, outros que assinaram a carta de repúdio foram ganhadores do próprio prêmio, como a escritora Nélida Piñon, o escritor Marcelino Freire, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, além de nomes importantes no circuito, como a editora e escritora Simone Paulino e o curador do festival de Araxá, Afonso Borges, segunda listou revista literária Quatro Cinco Um.

Em suas redes sociais, Pedro Almeida publicou uma retratação nesta segunda-feira (25). "Fiz um post com dados incorretos", escreveu. "Foi criado um manifesto afirmando que sou contra o isolamento. Está equivocado. Não sou contra o isolamento, não nego o vírus nem seu potencial. Ao contrário, me preocupo com ele e recomendo a todos que mantenham o distanciamento social o máximo que puderem."

Segundo Almeida, suas opiniões não são estão relacionadas ao Jabuti. "Sou livre para pensar e me expressar. Não aceito censura", afirmou. "O prêmio não tem nada a ver com o meu post."

No mesmo dia, a Câmara Brasileira do Livro, que organiza o prêmio Jabuti, qualificou em nota a publicação de Almeida como "um erro grave" e lamentou o ocorrido.

Afirmou, porém, que opiniões manifestadas por colaboradores e parceiros em seus perfis pessoais nas redes sociais são de responsabilidade exclusiva de seus autores, e que nenhum colaborador está autorizado a falar em nome da Câmara.

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