Com curiosos e peladões, festas virtuais têm sequestro falso e xixi em taça de cristal

Pistas de dança improvisadas por videoconferências encorajam festeiros a redescobrir o corpo no isolamento

Ilustração feita para a capa do livro 'Homo Sapiens Erectus', de Ulisses Belleigoli

Ilustração feita para a capa do livro 'Homo Sapiens Erectus', de Ulisses Belleigoli Lambuja

São Paulo

Nos quadradinhos de uma sala virtual, tudo acontece ao som de sucessos do pop. Enquanto os dois DJs da festa Kevin dão play em faixas do disco “Chromatica”, de Lady Gaga, pessoas dançam, bebem e comemoram, em suas casas, o close num homem pelado –“já temos a primeira rola!”, alguém manda no chat.

Muitas músicas depois, o clima esquenta. As batidas de “Vogue”, de Madonna, são acompanhadas por uma bunda nua dançante. “Ostentação na pandemia é ter um boy em casa”, comenta alguém enquanto um casal faz sexo acompanhado da trilha sonora do meme do caixão, “Astronomia”, de Tony Igy.

Se durante o dia os aplicativos de videoconferência servem como alternativa às reuniões de trabalho, que deixaram de ser presenciais com o distanciamento social imposto pela Covid-19, na madrugada as plataformas substituem as pistas de dança. Assim, as molduras são preenchidas com pessoas se divertindo, fetiches, cuecas que deixam as nádegas de fora, arreios de couro, voyeurs e curiosos.

Ainda sem previsão para a reabertura das casas noturnas, baladas online se tornaram frequentes —inclusive aquelas nas quais o contato humano é quase tão importante quanto a música. Nesses casos, o chat privado faz as vezes de dark room, salinha escura para quem quer se conhecer melhor.

Em uma noite de maio, acompanhamos por sete horas as festas Kevin, que existe desde 2015 em São Paulo, e Senta, criada durante a quarentena. A primeira ofereceu cerca de 300 ingressos —alguns gratuitos e outros vendidos por até R$ 20— e a segunda distribuiu 600.

“A gente estava em dúvida porque não sabia como transportar esse universo para um lugar que não é físico, mas fomos com a cabeça aberta e saímos felizes”, diz Rafa Maia, que produz a Kevin ao lado do namorado, Werick de Andrade. “Muitas pessoas frequentam a festa, foi bom ver a interação online. No computador a gente não consegue reproduzir tudo, mas muita gente brincou com isso.”

Ao contrário da Kevin, na sala da Senta a música vira pano de fundo para outras centenas de pessoas que ficam à espera do destaque de alguns segundos para terem seu momento de glória.

Uma discreta batida eletrônica —o equivalente da música de elevador para a suruba— dá o tom para um homem que urina numa taça e bebe o xixi em seguida, outro que se masturba com a ajuda de uma réplica da Manopla do Infinito do Thanos, personagem da Marvel, e uma mulher que passa álcool em gel nos seios.

“Procurei uma playlist para deixar algo sexy no fundo quando o pessoal fosse transar”, conta o idealizador e designer, Uno Vulpo. Ele diz que pensou em tocar ritmos dançantes, mas ficou com medo de inibir ou brochar os presentes.

Mesmo que o sexo seja o protagonista desses eventos, a ideia por trás extrapola sua energia erótica. A Kevin nasceu da vontade de criar um ambiente em que as pessoas se sentissem livres para explorar seus corpos.

“Aos olhos de muita gente é uma 'sex party', mas almejamos mais do que isso”, afirma Maia. “Falamos sobre Prep e Pep [medidas de prevenção contra o HIV], distribuímos camisinhas, panfletos. A sexualidade faz parte da expressão das pessoas e tratamos isso de forma positiva.”

Segundo Flávio, que não quis divulgar o sobrenome e também frequentava a festa presencial, esse tipo de evento torna mais confortável a relação com o corpo. “Tira o peso do sexo, um assunto que tratamos com muito pudor. A gente percebe que todos os corpos são bonitos e o sexo combinado também”, diz.

A psicanalista e especialista em sexualidade Regina Navarro Lins afirma que esse tabu parte de uma herança que, agora, tem sido questionada. “Muitas crenças nos foram ensinadas. Quando chegamos à idade adulta, o condicionamento é tão forte que não sabemos o que desejamos e o que aprendemos a desejar.”

A criação da Senta segue a mesma linha e partiu da vontade de Vulpo, que também é estudante de medicina, de criar uma plataforma para educar jovens sobre temas tabus. “Vi gente de 20 anos no hospital tendo overdose e menino de 14 com sífilis. Se alguém tivesse explicado para eles sobre drogas e sexo seguro, talvez não estivessem nessa.”

A festa surgiu meio de repente, mas funcionou. Ele lembra a participação de um casal na casa dos 50 que pôs em prática o velho fetiche de brincar de sequestro e, depois, mandou uma mensagem para Vulpo dizendo que gostou da experiência.

Entre os quadradinhos, também se destacou o de um homem de máscara numa cama de hospital. No chat, pipocaram perguntas sobre um possível baladeiro com Covid-19, mas o rapaz em questão está internado há quase um ano por causa de uma doença autoimune.

Ele, que entrou por curiosidade, enxerga festas do tipo como terras sem lei. “Não tem controle de quem entra, não tem regra de como agir e ninguém sabe muito bem o que fazer. Isso dá espaço para a experimentação, o teste de limites”, diz ele, que não quis ser identificado.

Navarro Lins afirma que esse tipo de experiência é compatível com o momento e pode servir como descompressão. O preconceito com o sexo está diminuindo e as pessoas estão trancadas com medo do desemprego, de ficar sem dinheiro, de morrer. Isso tudo faz você repensar os valores.”

A psicanalista diz que a suruba não é inédita —e nem tão ortodoxa. “É mais comum do que a gente pensa, o problema é que ninguém conta. Então essa coisa do sexo na web é interessante porque as pessoas não se tocam, mas assistir a alguém fazendo excita.”

Embora as manifestações sexuais aconteçam livremente, muitos ainda não se sentem confortáveis e deixam as câmeras desligadas ou escondem os rostos com máscaras como as da série "A Casa de Papel" e do vilão Jason, de “Sexta-Feira 13”.

“O medo passa pela cabeça, mas a gente entende que se alguém fizer isso [expuser os participantes] estraga a brincadeira. Ninguém quer destruir o pouco de diversão que temos no momento”, ressalta Flávio.

Não é preciso um olho clínico para notar que a maioria é masculina, mesmo com esforços dos organizadores para tentar incluir mulheres. "A festa acaba refletindo a coisa social de que o corpo do homem se sente melhor e mais seguro para se mostrar do que o feminino", opina o criador da Kevin.

​Navarro Lins acrescenta que a falta de equilíbrio é compreensível, uma vez que, ao longo da história, os homens foram incentivados a ter várias relações ao mesmo tempo, enquanto as mulheres tiveram sua sexualidade reprimida por anos.
Mas toda essa engrenagem conservadora parece dar pequenos sinais de desmoronamento, ela avalia. "Os modelos tradicionais não estão dando respostas e está se abrindo um espaço que nunca houve para cada um escolher sua forma de viver.”

Enquanto a pandemia se prolonga e o retorno triunfal das pistas é um sonho distante, o jeito é continuar usando a criatividade —festas que seguem linha parecida, como a Dando, também fizeram edições virtuais. Não satisfeitos, os baladeiros organizam até grupos de WhatsApp que simulam o “after”. Lá, em vez de memes, trocam nudes.

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