Descrição de chapéu The New York Times

David Lee Roth faz desenhos sobre a Covid-19 como uma 'terapia performática'

Desde que a pandemia do coronavírus o forçou a suspender os shows, cantor vem descobrindo novos talentos

Richard Bienstock
The New York Times

David Lee Roth costuma passar seus dias, ou pelo menos suas noites, usando “spandex camuflado" e se movimentando a 134 batidas por minuto, diz ele. Mas agora, o cantor do grupo Van Halen se tornou uma pessoa como todos nós: está preso em casa e a pandemia o obceca.

No entanto, os últimos meses de quarentena levaram Roth a retomar uma atividade do passado com energia renovada. Desde abril, ele ocupa seus dias fazendo desenhos que tem a Covid-19 como tema —ele os chama de "quadrinhos"—, e em seguida mostra seus trabalhos, um por semana, nas redes socias.

A arte de Roth, assim como sua música e disposição, é vibrante, fantasiosa e com algo de excêntrico. Há momentos em que chega a ser combativa. Diversos dos desenhos são do rosto dele. Muitos têm imagens de rãs.

O que despertou esse pico de expressão artística? “Bom, perdi o emprego!”, brincou Roth pelo telefone, falando de sua casa em Los Angeles, em uma tarde no final de junho. Até março, ele estava em turnê, abrindo shows para o grupo Kiss em arenas espalhadas pelos Estados Unidos. Antes, durante essa turnê, Roth, que também trabalhou como paramédico em Nova York, passou por uma doença não especificada.

“Não estou convencido de que aquilo não era coronavírus”, ele disse. “Cara, me trataram com Prednisona suficiente para me disparar à Lua. Deixamos uma trilha de ‘groupies’, destroços e críticas incandescentes. Mas não quero passar de novo por aquilo.”

David Lee Roth em sua casa, na Califórnia, em 6 de julho de 2020
David Lee Roth em sua casa, na Califórnia, em 6 de julho de 2020 - Jessica Lehrman/The New York Times

Mesmo pelos padrões dos vocalistas de rock, a capacidade de Roth de reter a atenção integral de uma plateia é renomada, quer ele esteja saltando da plataforma da bateria para acrobacias sobre o palco ou explicando aos fãs que o Van Halen foi “a banda de rock que vendeu a rumba de Ricky Ricardo para a nação de heavy metal”.

Mas agora ele deixa que sua arte fale por ele. “O que eu faço é comentário social”, ele disse. “Foi o que sempre fiz.”

Em suas obras recentes, os comentários atraíram respostas fortes. Em um dos desenhos, ele declara uma mudança de nome. “Diamond Dave, seguindo o exemplo do Lady Antebellum [agora Lady A], vai abandonar o ‘Lee’”, escreveu sob um desenho que mostrava, naturalmente, um sapo. “Daqui por diante, ele deseja que todo mundo o chame de David L. Roth, ou simplesmente de ‘El Roth’.”

Para muitos observadores, ele estava menosprezando os passos dados por artistas brancos para corrigir o racismo.

“Humor —não estou falando de piadas, mas humor—, o melhor do humor, não é engraçadinho”, disse Roth. “Minha versão é a verdade embebida em açúcar. Talvez açúcar e alguma pimenta. Mas as boas peças causam discussão.”

Ele prosseguiu dizendo que a arte “foi uma constante" na sua vida. "Sempre me envolvi na criação dos figurinos, dos cenários, das capas de discos, direção de vídeos. O que estou fazendo agora é parte disso. E há técnica envolvida, o que dá mais peso a algumas das declarações.”

Roth ri. “Estou sentado na mesa dos adultos, e sei que você, porque também é artista, me entende.” Mais uma risada. "Próxima pergunta!”

David Lee Roth em sua casa, na Califórnia, em 6 de julho de 2020
David Lee Roth em sua casa, na Califórnia, em 6 de julho de 2020 - Jessica Lehrman/The New York Times

Abaixo, trechos editados da entrevista.

Por que sapos? Vi uma história sobre Mark Twain. Não era uma biografia, e sim uma história de ficção, com atores. E no final, o velho Sam morre, mas não vai para o céu. Ele está no quintal na casa em que cresceu em Hannibal, em Missouri. E uma menininha chega e ele pergunta quem é ela. Ela responde que é Becky Thatcher e que queria lhe apresentar alguns amigos. E aí surgem todos os personagens que o escritor criou para conversar com ele.

Foi assim que comecei a montar minha lista de convidados. E provavelmente o único integrante daquele séquito cujo nome eu conseguia soletrar, quanto mais desenhar, era a rã saltadora do condado de Calaveras [do conto “A Célebre Rã Saltadora do Condado de Calaveras”].

Muitos dos seus desenhos fazem referência a 'Soggy Bottom' [fundilhos encharcados]. Entendi a coisa, ao menos no contexto, como uma brincadeira com o lema “drenar o pântano”. Se eu explicar, vira frase de para-choque. Se eu deixar que você explique, é arte. Mas você está bem perto de completamente certo.

Você consegue descrever seu processo artístico? Minha abordagem é o melhor de dois mundos: vintage e digital hiperatômico. Mais ou menos como assistir a “Dragnet” no iPad. Eu passei dois anos no Japão para aprender Sumi-e e caligrafia, estudava quatro noites por semana e fazia a lição de casa. Jesus, passei milhares de hora aprendendo a usar um pincel de pelo de cavalo com um bloco de tinta que eu mesmo ralava. Eles não mudam a receita há 700 anos.

Assim, tudo que existe nos meus quadrinhos é desenhado à mão —todas as letras, todas as cores, as linhas, a iluminação. E, quando termino, trabalho com Colin Smith, o Led Zeppelin do Adobe Photoshop. Juntos digitalizamos tudo, e aí posso me mover para áreas que de outra forma não estariam graficamente disponíveis sem décadas de esforço.

Como o uso de manipulação digital transforma a peça original? Muitas dessas cores não podem ser encontradas fora desse universo. É um mundo autônomo. Serve a um bom propósito, porque quase todo o nosso consumo de belas artes e artes gráficas hoje é interativo com uma tela, seja no computador ou no relógio de pulso. Estamos de volta a Maxwell Smart e o sapatofone. “Alguém está ligando para o meu Nike!”

O que o atrai em usar um pincel e tinta como meios de expressão artística? Calma lá. Não estou tentando me expressar. É só uma terapia performática. Estou dando vazão à minha irritação. Estou zangado. E não estou pedindo desculpas. É assim que eu faço.

As pessoas não costumam pensar em David Lee Roth como um sujeito zangado. É porque eu transcendi isso. É aquela magia secreta que surge quando você toma algo essencialmente triste e encontra humor, eloquência e às vezes esclarecimento nisso.

Qual é sua opinião sobre a resposta do país à pandemia da Covid-19? Eu com certeza preferiria que nosso país tivesse dado uma resposta no estilo dos fuzileiros navais à Covid-19. Em vez de [criar] divisões, bom ou ruim, correto ou razoável, errado ou não.

Uma de suas peças contém a frase 'nada de política durante o happy hour', o que me parece encapsular perfeitamente o espírito do Van Halen. Bem, visual e graficamente, as rãs embaixo dessa legenda estão brigando —mais ou menos como acontecia durante minha breve e colorida passagem pelo Van Halen.

Mas, quando você vê rãs em technicolor brigando, a coisa é um pouco mais digerível. Mas minha reflexão aqui é que o cômico é o não declarado. Aquilo sobre o que não se fala. O que acontece quando bebemos e discutimos política em um happy hour? O que significa quando alguém diz que “as vendas de álcool voltaram a disparar”? É tudo uma maneira de desviar as atenções.

Você tem algo mais a dizer sobre a peça que parece ser uma resposta à mudança de nome do Lady Antebellum? Tinha conotações políticas pessoais. Tentei me divertir um pouco à custa dos outros, cuja visão respeitarei. E em vez de ser um daqueles caras que copiam sem avisar, eu fingi copiar. Mas a suposta mudança de nome causou ira, e pessoas que postaram mensagens com uma postura muito direitista. “Outro esquerdista se enquadra.” Ei, sou um hippie de combate —paz, amor, e pessoal e armas suficientes para defender a coisa toda. Uma coisa é necessária para sustentar a outra.

Seria correto identificar David Lee Roth como um cara de inclinações esquerdistas? Amo os direitos civis. Os direitos da mulher. Os direitos da criança. Os direitos dos direitos. Certo? A lista inteira. Mas, por outro lado, estou preparado para raspar a cabeça e me alistar nos fuzileiros navais e lutar em defesa desses direitos. E essa não é uma declaração de esquerda. Ou não costumava ser, quando eu era moço.

Mas cresci em uma época muito ótima e em um espaço muito positivo, com a integração do transporte escolar na década de 1970. Estudei em escolas 90% negras e espanholas, e eu fazia parte dos porta-bandeiras, com o cabelo cortado à escovinha. A cada manhã marchávamos e hasteávamos a bandeira. E de noite eu ia à casa do irmão de Kenny Brower, fumava maconha e ouvia o disco novo do The Doors. Hippie de combate!

Você estava em turnê quando o lockdown começou. Como artista veterano, foi difícil ser forçado a cancelar a turnê tão rapidamente? Toda revista de jiu-jítsu tem alguém de 28 anos falando que seu cotovelo envelheceu dois anos. Toda revista de kickbox tem um instrutor de 32 anos dizendo que seu joelho esquerdo perdeu três anos. E por isso tenho mantido o isolamento. Porque eu mesmo sou do grupo de risco.

Por que você se vê como parte do grupo de risco? A estrada nos deteriora desde o começo, ou nos mantém vivos para sempre. Quando saímos em turnê, nos desgastamos demais. Eu tinha passado por uma cirurgia nas costas. Foi uma fusão espinhal, na qual eles implantam um enxerto extraído de outra pessoa. Fiquei mais alto. Pareço mais alto? Quero dizer, no telefone?

Sua última turnê com o Van Halen foi em 2015. Você acha que haverá outra? Não acho que Eddie [Van Halen] vá se recuperar o suficiente para suportar os rigores da estrada de novo. [O guitarrista anunciou que estava com câncer em 2001 e sofreu uma recorrência da doença mais tarde.]

Não quero dizer que fiquei esperando. Mas suportei por cinco anos. Porque o que faço é físico, além de musical e espiritual —não dá para passar cinco anos fora do ringue. Mas passei. Não me arrependo. Ele é meu companheiro de banda. Um colega estava fora. E agora ele já está parado há tanto tempo que não sei se um dia voltará à estrada. Se você quer ouvir os clássicos, está falando com o cara certo.

Por quanto tempo continuaremos a ver obras de arte novas de David Lee Roth? Como disse o tatuador, até que não me reste amigo algum. Até meu Instagram esvaziar. Posso fazer isso pelo resto da vida. Para mim era só um passatempo. Mas as pessoas ficaram fascinadas.

Levando em conta esse fascínio, os desenhos serão postos à venda algum dia? Em termos de como ganho a vida, enquanto a lista B — estou falando de Beyoncé, Bono e Bruce [Springsteen]— disser que tudo bem, vou estar lá cantando, dançando e vendendo camisetas. Mas enquanto isso, desenho e pinto toda noite.

E o fato de que isso tenha audiência é bem divertido. Por isso, é claro que vou pôr os desenhos à venda. Pode apostar. Eu nunca teria imaginado. Mas, como diz minha irmã, eu sempre pareço deixar passar as grandes coisas sem prestar atenção.

Tradução de Paulo Migliacci

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