Inhotim demite 84 pessoas durante pandemia e sua reabertura ainda é mistério

Museu em Minas Gerais tem um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea no mundo

Belo Horizonte

O adiamento da inauguração do pavilhão dedicado à artista japonesa Yayoi Kusama e a suspensão de eventos como o Meca, não foram os únicos efeitos da pandemia do novo coronavírus no Instituto Inhotim, em Brumadinho, nos arredores de Belo Horizonte.

Assim como Masp e Afro Brasil, que também enxugaram seus quadros, a instituição registrou 84 demissões de maio a junho, com cortes em todos os setores, e extinguiu todas as diretorias em caráter temporário para fechar as contas.

Inhotim tem agora 351 funcionários e diz que a preocupação foi manter empregos de baixo salário e proteger vagas no município onde está localizado. Antes das demissões, houve redução de contratos fixos com fornecedores e acordo com o sindicato sobre redução temporária de salários e jornadas.

Vista de prédio do Instituto Inhotim, que é um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do Brasil - Eduardo Anizelli/Folhapress

O Senalba-MG, sindicato que representa os funcionários, afirma que não foi comunicado sobre as demissões, alegando que os trabalhadores é que deveriam contatar o sindicato. A repórter tentou contato com alguns dos funcionários demitidos, mas eles não quiseram falar.

A assessoria do Inhotim diz que os desafios enfrentados pela instituição são os mesmos que os de qualquer empresa no cenário da pandemia e que tem otimizado recursos visando a perenidade do museu nesse período sem bilheteria.

No dia 21 de julho, o diretor-presidente Antônio Grassi e o advogado Rômulo Ferraz participaram de uma reunião com a promotora Andressa Lanchotti, coordenadora do Caoma, o Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente, e da força-tarefa responsável pelo caso do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, que deixou 259 mortos e ainda tem 11 desaparecidos.

Em suas redes sociais, a promotora do Ministério Público de Minas Gerais, que não quis dar entrevista, escreveu que a reunião tratou das dificuldades financeiras da instituição e que Grassi apresentou preocupações como a possibilidade de demissões de funcionários, muitos deles moradores da região, e o possível fechamento do museu antes do final do ano.

Em nota, Grassi negou que exista a possibilidade de um fechamento definitivo do Inhotim, mesmo com a crise aberta pela pandemia —o museu nunca havia ficado fechado por tanto tempo.

“Não há possibilidade de fechamento definitivo do instituto, nosso olhar agora é para o futuro. Já estamos trabalhando nos planos de reabertura, avaliando novas possibilidades de interação com o público e comunidade”, afirmou ele.


Fechado para vistantes desde o dia 18 de março, além de bilheteria, aluguel de carrinho e eventos, que cobrem 17% das despesas, o Inhotim —uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, ou Oscip— conta com captação de recursos via leis de incentivo, patrocínio direto e aluguel de espaços para se manter.

A projeção, segundo o instituto, é que as receitas de 2020 tenham queda de 50% a 65% com relação ao ano passado, quando houve ainda o impacto dos efeitos do rompimento da barragem da Vale.

Além de um dos acervos mais relevantes de arte contemporânea do mundo, que inclui artistas como Adriana Varejão, Cildo Meireles e Claudia Andujar, Inhotim tem ainda uma coleção botânica com espécies raras e de todos os continentes.

Atualmente, os 139 funcionários que fazem a manutenção diária do parque e das galerias trabalham com escala reduzida e em esquema de rodízio, usando equipamento de proteção individual, máscaras e com distância mínima de dois metros. Outros 212 estão em trabalho remoto.

O instituto diz que aguarda orientações das autoridades de saúde, mas que espera que a reabertura possa ocorrer ainda antes do final do ano. Entre os projetos planejados para a retomada está a construção do pavilhão dedicado à japonesa Yayoi Kusama, que tem três obras no acervo.

Pela atualização no plano de ondas para orientar a reabertura, divulgada pelo governo Romeu Zema, do Novo, em julho, museus estão entre as atividades que podem ser retomadas na última das três fases de flexibilização, a da onda verde.

Brumadinho, que tem 569 casos confirmados e três mortes pelo novo coronavírus, de acordo com o boletim epidemiológico municipal desta segunda-feira, não aderiu ao plano Minas Consciente. A reunião do comitê para definir as ondas de cada região do estado, nas novas regras, acontece nesta quarta.

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