Descrição de chapéu Obituário Marcelo Denny (1969 - 2020)

Morre diretor teatral Marcelo Denny, que levou 'executivos de pedra' à avenida Paulista

Professor da USP por quase 20 anos, ficou conhecido por explorar limites entre teatro, performance e artes visuais

São Paulo

Morreu na manhã desta segunda (31), na capital paulista, o diretor teatral, cenógrafo, performer e professor universitário Marcelo Denny, vítima de um infarto. Ele tinha 51 anos.

A informação foi confirmada pelo pesquisador Ferdinando Martins, amigo próximo e seu colega na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a ECA-USP —Denny lecionava lá havia 18 anos.

homem de óculos e barba
O diretor teatral, performer, cenógrafo e pesquisador paulista Marcelo Denny - Reprodução

Denny atuou em mais de 20 espetáculos como diretor e cenógrafo, tendo fundado as companhias Cadê Otelo?, Desvio Coletivo, Sylvia Que Te Ama Tanto e Teatro da Pomba Gira - Coletivo de Criadores.

Na última, dirigiu sua derradeira performance, ao lado de Marcelo D’Avilla. Chamada de “Sombra” e encenada há dois anos, ela se inspirava num capítulo do livro “A Biblioteca à Noite”, de Alberto Manguel, para explorar trechos de obras literárias censuradas em algum momento da história.

Ainda assinou a cenografia dos últimos dois espetáculos da Companhia de Teatro Heliópolis, “Sutil Violento” e “(In)justiça”, de 2017 e 2019, nesta ordem.

Entre as criações mais marcantes de Denny está uma performance concebida junto de Marcos Bulhões, também professor da USP, e apresentada pela primeira vez há oito anos. Nela, o que pareciam ser 25 executivos feitos de pedra caminhavam pela avenida Paulista, do parque Trianon até a rua da Consolação.

De olhos vendados e metidos em roupas sociais —homens de paletó e gravata e mulheres em tailleurs e saltos altos—, cada um deles tinha sido coberto por cinco quilos de argila.

Segundo uma das produtoras da performance relatou na época, a ação visava criticar o "aprisionamento ao trabalho", que deixa diariamente as pessoas "paralisadas".

A performer Priscila Toscano é uma das que faziam parte da ação. Ela descreve Denny como “uma pessoa extremamente lúcida, à frente do seu tempo". "Ele era um grande irmão para mim. Tínhamos muitos projetos, uma pesquisa em andamento."

A obra ainda sinalizava um interesse pelo corpo e pelos encontros entre teatro experimental, performance e artes visuais que, segundo Ferdinando Martins, foi uma constante na trajetória de Denny.

“Como cenógrafo e diretor de arte, ele criava silhuetas corporais que expressassem as angústias e os impasses de nosso tempo. Denny possuía muitos admiradores de uma geração mais nova, interessada nas relações entre corpo, arte e sexualidade”, afirma o professor, acrescentando que no momento Denny iniciava uma pesquisa para um novo trabalho cênico, inspirado nas reflexões sobre os impactos da pandemia do novo coronavírus.

Denny deixa o parceiro, Marcelo D'Avilla, o pai e duas irmãs. Segundo Martins, seu corpo será levado para Pindamonhangaba, sua cidade natal e onde vive a sua família.

Erramos: o texto foi alterado

O nome correto do cocriador da performance dos "executivos de pedra" é Marcos Bulhões, não Marcelo Bulhões. O texto foi corrigido.

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