Doar meu acervo é uma manifestação de liberdade, diz Paulo Mendes da Rocha

Arquiteto vencedor do Pritzker diz não se orgulhar de nenhum projeto em meio à polêmica sobre ida de desenhos a Portugal

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha em seu escritório em São Paulo

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha em seu escritório em São Paulo Eduardo Knapp/Folhapress

São Paulo

Liberdade. É com essa palavra que o arquiteto Paulo Mendes da Rocha resume a sua última —e conturbada— semana.

“Antes de mais nada, gostaria que vissem a doação que fiz como uma manifestação da liberdade que tenho de fazer o que eu quiser”, diz o arquiteto de 91 anos ao receber o repórter em seu escritório, no centro paulistano.

Mesmo que as janelas estivessem todas abertas, a onda de calor que faz os termômetros da cidade ultrapassarem os 30 graus obriga o vencedor do Pritzker, principal prêmio mundial da arquitetura, a arregaçar as mangas da camisa enquanto comenta as críticas que recebeu nos últimos dias.

O motivo foi a sua decisão de doar todo o seu acervo, com cerca de 9.000 itens, para a Casa da Arquitectura —instituição privada portuguesa que fica próxima à cidade do Porto. Os objetos, entre desenhos, maquetes e documentos, foram todos catalogados e já chegaram à Europa, onde estão sendo higienizados, ficarão em quaretena e serão expostos online só a partir do ano que vem e ao vivo em 2022.

Professores, pesquisadores e arquitetos reclamam que a saída do acervo do Brasil pode dificultar pesquisas acadêmicas e seria mais um capítulo de uma certa erosão cultural que o país vive desde o fim do Ministério da Cultura na gestão de Jair Bolsonaro.

A própria Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde Mendes da Rocha foi professor por quase 40 anos, disse que soube da decisão com “grande pesar”. A FAU abriu negociações para abrigar os objetos, mas foi preterida.

“Tenho seis filhos. Se, por alguma razão, eu resolver dar um presente para um e não para os outros, serão cinco reclamações”, diz Mendes da Rocha, que assina projetos conhecidos no país, como o do Sesc 24 de Maio e o da reforma da Pinacoteca, ambos em São Paulo, por exemplo. “Compreendo muito bem quem acha que eu fiz mal. Como disse, eu respeito a liberdade —a minha e a de todos.”

Muitas dessas objeções também apontam uma possível contradição entre a opção do arquiteto por Portugal e a sua defesa constante de um pensamento anticolonialista. Essas ideias aparecem em muitas falas de Mendes da Rocha, que faz questão de as retomar ao longo da conversa.

“A divisão dos países da América Latina é uma fantasia e uma consequência grotesca da política colonial”, diz ele em seu escritório, defendendo mais acordos de cooperação e de integração entre as nações do continente.

Nesse sentido, o envio dos itens para a Europa seria uma forma de entregar um importante acervo brasileiro para a sua antiga metrópole. Mendes da Rocha discorda. “Portugal não é mais um país que nos coloniza. Ele é um parceiro, principalmente se considerarmos que falamos a mesma língua”, defende. “Portugal hoje não está de acordo com a sua própria política de colonização do passado.”

Nos bastidores e pelos corredores da própria Faculdade de Arquitetura, pesquisadores também apontam um suposto ressentimento do ex-professor como uma das causas para que ele não tenha entregue o seu acervo à universidade.

Mendes da Rocha se tornou docente da FAU em 1961, a convite do arquiteto Vilanova Artigas, que desenhou o próprio prédio da escola. Em 1969, com a publicação do AI-5, ele foi cassado e afastado de suas funções pelo regime militar, retornando à USP s em 1980, com a promulgação da Lei da Anistia —só que, dessa vez, na função de auxiliar de ensino.

O afastamento e a volta à sala de aula motivaram uma carta de demissão, na qual o professor critica o seu retorno à faculdade no cargo mais baixo da carreira docente. Mendes da Rocha seguiu na FAU e, nos anos seguintes, acabou se tornando livre-docente. Ele se aposentou em 1998.

Quando fala dessa época, o arquiteto troca as frases longas e as explicações contextualizadas por respostas curtas. “A história não é feita de gracinhas”, diz. “Ela é difícil, dolorosa e deve servir de exemplo para que não se repitam desastres tão estúpidos”, acrescenta ele, ao se referir à ditadura. Mas nega em seguida qualquer rusga ou ressentimento em relação à USP ou à FAU.

A doação do acervo, porém, não gerou só críticas. Cerca de 250 nomes ligados à arquitetura publicaram nesta segunda uma carta pública em que apoiam o gesto e classificam a opção por Portugal como um esforço para salvaguardar a obra de um dos principais arquitetos brasileiros e uma forma de resistência contra o que chamam de desmonte da cultura no Brasil.

“Não queria transformar essa conversa em um debate de política cultural. Tenho a impressão de que qualquer país precisa ter interesse em guardar seus acervos. Caso contrário, ele não tem memória”, afirma Mendes da Rocha.

Na Europa, o conjunto composto por 6.300 desenhos, 3.000 fotografias e slides, 300 publicações e maquetes, que correspondem a mais de 320 projetos, serão digitalizados pela Casa da Arquitectura e disponibilizados de graça para pesquisadores e curiosos. Servirão também de matéria-prima para exposições, que podem circular por outro país, afirma a instituição.

Mendes da Rocha diz acreditar que a doação é mais um passo de sua carreira —e não o capítulo final. “Eu me sinto muito bem. Acho que, tendo nascido, não tenho outra alternativa senão viver”, diz. “Espero viver para sempre.”

Se os olhos para o futuro são os de um projetista, a mirada ao passado e para sua própria obra não conta com tanto encantamento. “Não tenho orgulho de nenhum projeto que fiz. Não trabalho para ter orgulho, nunca acho que fiz o melhor. Fiz o melhor que pude.”

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