Perseguida na ditadura, escola de design Iadê renasce após 30 anos

Nova encarnação de instituto resgata propostas de encontro entre disciplinas e proximidade com o mercado

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São Paulo

O burburinho reinava nos corredores do Instituto de Artes e Decoração, o Iadê, na primeira metade dos anos 1970, conta o designer e professor Auresnede Pires Stephan, que deu aulas no local na época. “Pairava sempre no ar a sensação de que algo não estava caminhando bem.”

Às vezes, os boatos eram sobre o envolvimento de alguns dos professores com movimentos de contestação da ditadura militar. Um deles, o crítico musical J. Jota de Moraes, foi algumas retirado da sala de aula e chegou a ser preso pelos militares, enquanto outro, o artista e ativista Antonio Benetazzo, foi assassinado no DOI-Codi de São Paulo, centro de repressão do Exército, anos depois.

Em outras ocasiões, os rumores tratavam das ameaças de bomba recebidas em telefonemas anônimos, que não raro exigiam a evacuação imediata do prédio, diz Stephan.

Se no campo político a situação do colégio era delicado, no artístico ele é lembrada ainda hoje como um lugar de vanguarda, palco de debates efervescentes e de experimentações entre disciplinas.

Entre 1959 a 1987, primeiro como um curso de decoração e depois como escola técnica, ele reuniu entre os professores nomes centrais do panorama criativo paulistano, como o designer Ricardo Ohtake, os arquitetos Ruy Ohtake e Guto Lacaz, e o fotógrafo Antonio Saggese.

“Acho que naquela época qualquer um que tinha um pensamento mais avançado era visto como inimigo número um do estado, e o Iadê, por ser um antro disso, foi muito perseguido”, pondera Adriana Bianchi.

Neta de um dos fundadores do instituto, o cenógrafo italiano Ítalo Bianchi —o outro era o decorador português Álvaro Landerset Simões—, ela resgata agora o instituto, após um hiato de mais de três décadas. Rebatizado de Instituto de Arte e Design, o novo Iadê é lançado neste sábado (5), com um programa de cursos a distância e a promessa de uma sede física ao fim da pandemia.

Como na sua encarnação anterior, seu corpo docente é formado por profissionais respeitados, como os curadores Tadeu Chiarelli, Denise Mattar e Marcus Lontra.

E une de professores originais, como Stephan e o arquiteto e designer Carlos Perrone, a ex-alunos, caso da também curadora Maria Alice Milliet. A última, aliás, fez parte da primeira turma do colégio e diz que a formação forneceu as bases de toda a sua trajetória profissional.

Também à semelhança do antigo Iadê, a ideia é que o instituto seja, mais do que uma simples escola, uma porta de entrada para os mercados de arte e de design. “Tenho como princípio envolver para se desenvolver”, resume Bianchi.

Entre os seus planos, estão a criação de uma residência artística e de um espaço para vender tanto criações dos estudantes quanto mobiliários assinados. É o caso, por exemplo, da antiga Cadeira Iadê, projetada por Ítalo Bianchi e reeditada agora.

Lontra, que também faz parte do conselho do instituto, destaca a vontade de fazer dele um local interdisciplinar de fato, onde arte, design e tecnologia se unem para fomentar um ambiente de criação de produtos brasileiros de referência. “Nosso objetivo é colaborar para a formação de produtores artísticos, não necessariamente artistas ou designers”, afirma.

“Percebo que hoje, no mercado nacional, há um conhecimento excessivamente técnico, que a questão artística é compreendida quase como uma cereja do bolo. Mas tem uma frase do Niemeyer que é ideal nesse sentido: a beleza é uma função.”

Já o contexto em que o espaço ressurge não poderia ser mais distante daquele em que foi forjado, mais de meio século atrás.

O Iadê foi inaugurado num momento em que a indústria criativa fervilhava em São Paulo, com a arquitetura modernista se impondo com a inauguração de Brasília, a televisão chegando ao país, e o mercado de arte dando os seus primeiros passos, com o nascimento das primeiras galerias e museus.

Seu objetivo era justamente fornecer mão-de-obra qualificada para a gama de profissões criativas que nasciam naqueles anos.

Agora, a crise pela qual passa a cultura “chega a ser desesperadora”, diz Bianchi. “Meu avô falava que temos que juntar o ideal com as ideias. Acho que é um bom momento para estarmos juntos e fazer acontecer, já que o governo não vê como isso é importante.”

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