Descrição de chapéu The New York Times

Arquivo inédito de Prince revela os tesouros do disco 'Sign O 'The Times'

Material mostra quantos caminhos o músico estava tentando seguir antes de concluir sua obra-prima

Jon Pareles
The New York Times

“Sign O’ The Times”, a obra-prima que Prince lançou em 1987, caminha do realismo bruto à festa e prazeres carnais, e chega ao amor verdadeiro, fé inabalável e comunhão extasiante. O disco começa com o funk enxuto e mínimo de sua faixa título —cuja letra fala de Aids, drogas e gangues— e viaja pelo R&B, jazz, rock, synth-pop, gospel e muito mais.

A ambição do álbum era intensificada por seu espírito brincalhão, pela competência técnica, pela disposição de provocar e agradar e, ao mesmo tempo, ignorar —e transcender— limites. E Prince, como sempre, gravou muito mais material do que o disco duplo original podia comportar.

Agora, “Sign O’ The Times” foi relançado e vastamente expandido. Uma versão especial inclui oito CDs e um DVD; além do material original e dos singles e lados B a eles associados, duas gravações ao vivo de 1987 (áudio de um show em um estádio na Holanda, vídeo de um show de Ano-Novo no complexo de estúdios de Prince em Paisley Park, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos) e, no melhor de todos os presentes, três CDs de faixas extraídas do "Vault", o imenso arquivo de material de Prince.

Algumas das canções do "Vault" são versões iniciais ou alternativas de faixas do disco, ou composições conhecidas, mas dezenas são completamente inéditas. As escolhas originais de Prince para o disco se sustentam. Mas ouvir tanta coisa mais é uma delícia.

“Sign O’ The Times” não começou como disco duplo. Prince estava produzindo música demais para isso, naquele momento. Sua intenção era lançar um álbum triplo, “Crystal Ball”, a evolução de um projeto chamado “Dream Factory”. Mas a Warner, sua gravadora na época, insistiu em que ele cortasse faixas. Prince cedeu, enxugando o número de faixas para 16.

Algumas das canções excluídas foram aparecendo aos poucos, ao longo dos anos. Quando Prince criou um selo próprio, “Crystal Ball” mesma —uma suíte ousada, polimorfa, de dez minutos de duração, que teria dominado um lado inteiro de um LP— saiu em 1998 como faixa-título de um conjunto de três CDs. Uma versão editada para um possível single, que transformava a composição em um estranho funk psicodélico, é parte da nova coleção.

Na metade da década de 1980 —e por muito tempo mais—, Prince era infatigável. De 1985 a 1987, ele não só compunha canções para seus discos como fazia turnês, desenvolvia projetos de cinema, supervisionou a construção de Paisley Park e compôs material para músicos que admirava, entre eles Miles Davis, Joni Mitchell e Bonnie Raitt. E testou diversos alter egos —entre os quais Camille, personagem criado para cantar vocais muito agudos, para quem ele havia contemplado todo um álbum.

Prince estava lidando com duas separações. Ele dissolveu a banda que o acompanhou por muito tempo, Revolution, em outubro de 1986. E também terminou seu noivado com Susannah Melvoin, ainda que sua canção de amor para ela, “Forever in My Life”, tenha continuado fazendo parte de “Sign O’ The Times”, rearranjada para se tornar mais austera e percussiva do que a versão mais country, com um violão dedilhado que os arquivos revelam.

As canções lançadas agora revelam quantos caminhos que Prince estava tentando seguir antes de concluir “Sign O’ The Times” e quantas composições sólidas pareciam não satisfazer seus padrões muito rigorosos, antes de sua morte em 2016. Ele estava incursionando mais no jazz, em instrumentais como “It Ain’t Over ’Til the Fat Lady Sings” e no swing de ”All My Dreams”. Afirmou sua fé em “Walkin’ in Glory”, em que ele se torna um coral gospel de um homem só. Avançou no pop elaborado e neopsicodélico que tinha destacado em seu disco anterior, “Parade”, em “Adonis and Bathsheba” e “Big Tall Wall”.

Voltou a mergulhar no funk pesado, como em “Soul Psychodelicide”, uma canção que ele dispara no palco, em versão ao vivo, ao gritar “ice cream!” –uma versão de 12 minutos de duração está documentada no novo álbum.

Prince estava experimentando com os instrumentos sampleados em seu sintetizador Fairlight e com efeitos de estúdio; uma das canções, a fantasmagórica “Nevaeh Ni Ecalp A”, aplica em versão invertida os vocais de outra canção dos arquivos, uma valsa excêntrica que ele retrabalhou por muito tempo, “A Place in Heaven”. Ele estava compondo canções juvenis em estilo new wave como “Cosmic Day” (para sua voz aguda como Camille). Em “Love and Sex”, ele esbanjou guitarra e recombinou o soul e o rock pesado em duas versões muito diferentes de “Witness 4 the Prosecution”.

Enquanto isso, suas letras brincavam com perspectivas masculinas e femininas e incorporavam desilusão, solidão, luxúria, espiritualidade e euforia.

“Sign O’ The Times” teria sido muito diferente caso Prince não tivesse dissolvido o grupo Revolution e cortado, minimizado ou engavetado a maior parte das contribuições de seus músicos —ainda que um dos picos do disco original seja “It’s Gonna Be a Beautiful Night”, gravada ao vivo por Prince & The Revolution. Com a banda, o álbum bem poderia ter sido mais lapidado e menos ousado, mais comunal e menos uma empreitada solitária.

A maioria de “Sign O’ The Times” foi, como sempre, trabalho da banda de um homem só, “composto, arranjado, produzido e executado por Prince”. Mas certas faixas do "Vault" no álbum expandido iluminam até que ponto Prince havia se acostumado a colaborar com alguns dos membros do Revolution, especialmente Wendy Melvoin (irmã gêmea de Susannah), na guitarra, e Lisa Coleman nos teclados, que mais tarde se lançariam como dupla, gravando como Wendy & Lisa.

Prince criou algumas faixas com base nos instrumentais com levada de jazz compostos pelas artistas e, em versões alternativas de algumas das canções de “Sign O’ The Times”, ele convocou Wendy e Lisa para que cuidassem de produção adicional.

Um dos achados entre as canções do "Vault" —um intrigante caminho não percorrido— é “In a Large Room with No Light”. Criada sobre uma base gravada por Wendy & Lisa, a faixa tem um clima de big band latina, ensolarado, com um refrão cantado em scat e melodias e harmonias sinuosas, tudo isso contrariando uma letra de Prince que fala de vidas encurraladas e “situações que não são certas”. O

Outra colaboração entre Melvoin, Coleman e Prince, “Power Fantastic”, oferece um vislumbre de Prince no trabalho. É a primeira tentativa de uma balada serpenteante que começa com Prince instruindo os músicos e resulta numa interpretação ricamente introspectiva que nada tem de hesitante.

“Can I Play With U”, a colaboração entre Prince e Davis no estúdio, muito documentada mas até agora inédita, prova ser apenas uma curiosidade. É uma base de sintetizador e riffs de saxofone ao estilo do funk de Minneapolis que Prince enviou a Davis para que este acrescentasse solos de trompete. Em meio aos vocais de Prince, acordes de teclados, uma guitarra solo distorcida e um baixo tagarela, Davis encaixa suas conhecidas corridas cromáticas e harmonias tangentes. Mas Prince parece estar se esforçando tanto para impressionar Davis que termina comprimindo demais o espaço do parceiro.

Não admira que Joni Mitchell tenha rejeitado a canção que Prince ofereceu a ela, “Emotional Pump”; o funk anguloso e os versos lacônicos não se enquadram bem ao estilo da cantora. (“Power Fantastic” teria sido muito mais compatível.)

Prince retrabalhou canções de seu catálogo para Raitt; “There’s Something I Like About Being Your Fool”, com sua levada de reggae, e a ranzinza “Promise to Be True” poderiam ter funcionado, mas, de acordo com as copiosas notas de gravação da nova edição, os dois não conseguiram encontrar espaço em suas agendas para gravar juntos.

Prince era capaz de compor e gravar todas as partes de uma canção em um dia e, às vezes, de mais de uma canção. Ele ouvia todas as partes instrumentais na cabeça e as registrava em fita assim que possível. Também parecia capaz de ouvir todos os pontos de vista: homens e mulheres, amantes e adversários, pragmáticos e sonhadores, heróis e calhordas.

A imensa lista de personagens mencionados no disco original —a garçonete Dorothy Parker, os colegas de escola em “Starfish Coffee”, a menina bonita mas durona de “U Got the Look”, todas as pessoas desesperadas em “Sign O’ The Times”— encontram muitos companheiros novos nas canções do "Vault". Apesar de passar muito tempo trancado fazendo música, Prince jamais se fechou às vidas de outras pessoas.

E ele sempre compreendeu o poder do som bruto, de uma melodia, de uma batida e de uma voz. Uma canção que ele deixou no "Vault" foi “Blanche”, talvez por ser um conceito tão peso leve, talvez porque “Sign O’ the Times” já contivesse “Housequake”, outra faixa pronta para as pistas de dança.

“Blanche” é uma levada funk que remete diretamente a James Brown, ainda que deslize livremente pela escala cromática. Executada inteiramente por Prince, ela é uma série de cantadas, grunhidos e gemidos cantados por Stanley —Stanley Kowalski, da peça “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams— para uma Blanche arisca –“Blanche, você nunca terá viajado/ até subir no meu carro”. Era o tipo de coisa que Prince parecia capaz de realizar sem pensar duas vezes e depois decidir manter arquivado. Agora que a faixa saiu, tente não dançar, se conseguir.

Tradução de Paulo Migliacci

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