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Cinema

Borat parece quase um gentleman em contraste com Donald Trump

Sequência abandona metralhadora giratória para centrar fogo nos republicanos, pegos em cenas constrangedoras

Borat: Fita de Cinema Seguinte

  • Onde No Amazon Prime Video a partir desta sexta (23)
  • Elenco Sacha Baron Cohen, Irina Novak, Maria Bakalova e Rudy Giuliani
  • Direção Jason Woliner

A esta altura, todo mundo já sabe a cena pela qual o segundo "Borat" vai ficar conhecido.

Rudy Giuliani, advogado pessoal de Donald Trump e ex-prefeito de Nova York, é filmado em ângulos pouquíssimo republicanos num quarto de hotel, seduzido pela atriz que faz a filha do repórter cazaque. Mesmo antes da estreia, ele já teve que se explicar.

Escândalos atrás das câmeras não são consequência ocasional, mas propósito fundamental da comédia praticada por Sacha Baron Cohen, que, ao aceitar um Globo de Ouro pelo primeiro filme, agradeceu a "todo americano que ainda não entrou com um processo" contra ele.

Bafafás como esse insuflam audiência, geram manchetes e inflamam o debate —o que parece mais relevante que nunca para Cohen, que admitiu, em entrevista, uma intenção de influenciar as eleições americanas, patente nesta "Fita de Cinema Seguinte".

No gancho do novo filme, o presidente do Cazaquistão quer cair nas graças de Trump, enciumado porque o americano ficou amigo de outros líderes durões como "Putin, Kim Jong-un, Bolsonaro e Kenneth [Kanye] West", e envia o repórter para oferecer sua filha de presente para o vice Mike Pence.

A tática de "Borat" sempre foi elevar o machismo, o racismo e a islamofobia a graus que beirem o insuportável para escancarar como essas intolerâncias estão presentes nos seus interlocutores e no público. Arriscado é uma palavra tímida para definir o que é adotar uma estratégia dessas em 2020.

Quando o primeiro filme foi lançado, as redes sociais só engatinhavam como agregadoras de grupos que lutam por representatividade. Foi na última década que se consolidou na internet o que se chama hoje —meio pejorativamente— de cultura woke. "Borat" continua ofensivo. Mas agora se choca com um público mais disposto a levantar a voz quando se vê ofendido.

Também encontra um cenário político radicalmente diferente. Perto de Trump —e das posturas incentivadas por uma direita que exacerba o nacionalismo boçal e aceita o "pegue as mulheres pela xoxota"—, Borat é quase um gentleman.

Se o filme original queria satirizar, pelo excesso, o preconceito nos Estados Unidos, foi justamente esse excesso que ganhou as últimas eleições. É como se não houvesse mais nada que expor além do que o trumpismo já deixou grosseiramente claro.

Essas mudanças de contexto alteram bastante o modus operandi do filme. Primeiro, se a arma de Cohen antes era uma metralhadora giratória, agora ela está bem apontada para os republicanos.

O pessoal do Make America Great Again é alvo de quase todas as piadas, seja com dois anfitriões que papeiam a sério sobre como Hillary Clinton bebe sangue de crianças, seja uma plateia que canta em coro para picar jornalistas em pedacinhos "como eles fazem na Arábia Saudita". Ou quando Borat irrompe na convenção republicana com traje completo da Ku Klux Klan ("queria passar despercebido").

A segunda mudança brusca é que esta "fita de cinema" abandona a completa anarquia narrativa da primeira para construir —quem diria— um arco de empoderamento feminino na figura da filha de Borat (a excelente revelação Maria Bakalova), criada dentro de uma gaiola com os animais.

A moral do filme continua torta, como se deve, mas esse tom francamente progressista fica mais explícito —vale lembrar que o primeiro filme trazia Borat argumentando com militantes feministas, indignadas, que mulheres têm o cérebro equivalente ao de um esquilo. Aqui, esse tipo de provocação é deixado de lado.

Um dia foi chocante ver Cohen em cena fazendo tamanhas afrontas. Ainda pode ser. Mas não dá para esquecer que ali há um personagem arquitetado milimetricamente para ser revoltante. Agora olhe só o que tem à sua volta.

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