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Como será a temporada do Oscar 2021 após tantos lançamentos cancelados?

Veja os principais acontecimentos que teremos na próxima edição da maior cerimônia de cinema do mundo

Kyle Buchanan
The New York Times

Conquistar um Oscar é uma grande realização. Mas, em 2021, organizar a entrega dos prêmios pode ser uma realização ainda maior.

Estamos chegando ao fim de um ano desastroso para o cinema, no qual o calendário de lançamentos desapareceu diante de nossos olhos e as salas de exibição ficaram em apuros por conta da pandemia, que continua rondando. Não é o clima ideal para celebrar Hollywood, mas mesmo assim, a temporada do Oscar começou, ainda que com novas regras que admitem lançamentos em serviços de streaming e uma cerimônia de premiação adiada para dois meses depois daquela anteriormente escolhida, e que acontecerá em 25 de abril.

Quem será indicado, quem será eleito e quem estará vacinado até lá? Seria complicado prever qualquer uma dessas coisas, e por isso vou me limitar ao Oscar. Abaixo, quatro coisas que devem acontecer à mais consagrada das disputas de Hollywood durante o período mais incomum de nossas vidas.

Filmes de grande orçamento serão escassos

Diante da queda da audiência do programa do Oscar, a rede de TV ABC pressionou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas por mudanças nas categorias para permitir que mais blockbusters disputem prêmios. Mas com as bilheterias trancadas desde março, o número de sucessos legítimos de público será muito baixo.

Grandes candidatos potenciais como “West Side Story” e “Duna” já tiveram suas estreias transferidas para 2021, e mesmo alguns dos títulos especializados em elenco de estrelas, como “The French Dispatch”, de Wes Anderson, optaram por ignorar as salas de cinema completamente e chegar ao mercado em lançamentos digitais.

A Universal continua empenhada em lançar no Natal seu western com Tom Hanks, “News of the World”, dirigido por Paul Greengrass, de “Capitão Phillips”, mas outro grande lançamento marcado para o mesmo período, “Mulher Maravilha 1984”, deve ficar para 2021.

Essa escassez toda da parte dos grandes estúdios pode abrir caminho para “Soul”, da Pixar, que foi retirado do calendário das salas de exibição e agora estreará em dezembro no serviço de streaming Disney+. Diante da escassez de potenciais blockbusters, “Soul” pode se tornar o primeiro longa de animação indicado para a categoria melhor filme desde “Toy Story 3”, de 2011.

As grandes categorias serão mais diversificadas que nunca

A Academia adotou recentemente novas regras de diversidade com o objetivo de encorajar representação mais equitativa por trás e na frente das câmeras. Ainda que as normas só devam entrar em vigor em 2024, os indicados deste ano podem já representar um passo na direção de realizar esse objetivo.

Na categoria melhor diretor, regularmente criticada pela falta de mulheres indicadas, as opções deste ano são muitas. Diretoras como Chloé Zhao, que dirigiu o drama “Nomadland”, com Frances McDormand, que sai em dezembro, e Regina King, premiada recentemente com o Oscar de melhor atriz coadjuvante e que se tornou diretora com a adaptação para o cinema da peça “One Night in Miami...” (que também sai em dezembro), podem se tornar as primeiras mulheres não brancas a ser apontadas na categoria melhor diretor.

E uma repetição da hashtag #OscarsSoWhite nas quatro categorias de atores deve ser evitada graças a um conjunto forte de dramas com protagonistas negros. Além de “One Night in Miami....”, e de “Destacamento Bloods”, drama de Spike Lee sobre o Vietnã, que podem ter diversos de seus protagonistas indicados para o prêmio de melhor ator, há três filmes de impacto centrados em cantoras negras que estão para ser lançados e podem resultar em indicações para o prêmio de melhor atriz: “A Voz Suprema do Blues”, estrelado por Viola Davis; “The United States Vs. Billie Holiday”, com Andra Day como a cantora de jazz; e “Respect”, com Jennifer Hudson interpretando Aretha Franklin.

A Netflix ganhará mais terreno

Não aguarde um catálogo completo de títulos de distribuidoras quentes como a A24, Neon e Searchlight. Já que ir ao cinema continua a ser uma proposição arriscada durante a pandemia e os calendários de produção estão em geral paralisados, os estúdios menores optaram em geral por ficar fora da corrida.

Entre os títulos que ainda serão lançados, a A24 vai fazer campanha pelo drama “Minari”, sobre imigrantes, que recebeu elogios antes da pandemia no Sundance Film Festival, em janeiro, mas “C’mon C’mon”, que o estúdio produziu como veículo para Joaquin Phoenix e deveria ser lançado no final de 2020, só será visto no ano que vem.

De modo semelhante, “Nomadland”, da Searchlight, e “Ammonite”, drama romântico da Neon com Kate Winslet e Saoirse Ronan, serão as maiores esperanças de suas companhias quanto a conquistar múltiplas indicações, já que outras opções atraentes serão mantidas em reserva para 2021.

Enquanto isso, a Netflix, que não está presa às salas de exibição, tentará abocanhar ainda mais indicações ao prêmio de melhor filme do que as três obtidas neste ano. Além de “Destacamento Bloods” e “A Voz Suprema do Blues” (que inclui um desempenho digno de Oscar por Chadwick Boseman), a Netflix promoverá “Mank”, de David Fincher, filmado em preto e branco e tratando da história de Hollywood, e o drama histórico “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin, que a Paramount vendeu para a companhia de streaming.

A Netflix também terá “The Prom” (musical de Ryan Murphy com Meryl Streep), “Pieces of a Woman” (com um desempenho devastador de Vanessa Kirby, de “The Crown”), e “Hillbilly Elegy”, adaptação do livro de J.D. Vance estrelada por Amy Adams e Glenn Close. Todos esses filmes estarão na disputa por indicações.

Em outras palavras, as empresas de streaming estão mandando no mercado. Os votantes mais conservadores do Oscar que tentaram bloquear essa incursão podem ter que hastear a bandeira branca.

Além das diversas possibilidades de prêmios para a Netflix, a Amazon (“One Night in Miami...”), a Apple TV+ (“Cherry”, “On the Rocks”, “Boys State”) e a Hulu (“Palm Springs”) são outras empresas de streaming que tentarão tirar vantagem de um panorama que mudou radicalmente em seu favor ao longo deste ano.

Nada será como no passado

A temporada do Oscar costuma ser uma aventura selvagem mas sentimental, feita de ovações clamorosas, festas elegantes regadas a champanhe e conexões face a face emotivas que fazem com que a coisa toda valha a pena.

E fácil afirmar que nada disso será possível via Zoom.

O circuito de premiações terminará por se adaptar à realidade dos espectadores condenados a ficar em casa, mas o barômetro do agito será mais difícil de ler agora que não é mais possível medir conclusivamente os aplausos e as bilheterias.

Lembro de uma exclamação coletiva de espanto em uma sala de exibição no Sundance diante de uma virada na trama de “The Father”, com Anthony Hopkins, um drama sobre demência senil com estreia marcada para dezembro, mas será que a sensação será a mesma quando o votante assistir ao filme sozinho, com o cachorro no colo e a luz do sol entrando pela janela da sala?

É claro que os votantes do Oscar estão bem acostumados a assistir em casa aos filmes indicados, mas isso em geral é contrabalançado por planos de exibição em cinema robustos a ponto de garantir a conquista de diversos Oscars ao longo dos anos. “A Forma da Água” jamais teria saído vitorioso sem a paixão contagiante de Guillermo del Toro pelo filme, tal qual evidenciada nas suas respostas às perguntas da plateia depois das sessões de exibição.

Sem os referenciais usuais, nenhum concorrente pode ser descartado antes do amargo fim. Isso vale para filmes que estão por ser lançados como “Ammonite” e “French Exit”, que tiveram críticas polarizadas em festivais mas ainda ostentam desempenhos louváveis de Winslet e Michelle Pffeifer, respectivamente; e até mesmo para “Tenet”, que foi recebido com muito mais desagrado do que “Dunkirk”, o trabalho anterior de Christopher Nolan a ser indicado ao Oscar, mas ainda assim foi o único filme sobre o qual as pessoas estavam comentando, por um bom tempo.

A cerimônia também será quase certamente diferente. Não há como adivinhar de que modo o país abalado pela pandemia estará se saindo no final de abril, mas tapetes vermelhos lotados e salões de festas repletos de espectadores nas cerimônias de premiação terão provavelmente que passar por modificações, admitindo um grupo menor e mais distanciado de convidados.

A transmissão televisiva do Oscar vai se inspirar na do Emmy, na qual os apresentadores foram ao palco mas os indicados, vestidos para a ocasião, assistiram de casa? E uma cerimônia dispersa como essa se beneficiaria de um mestre de cerimônias carismático, ainda que o Oscar nos últimos anos não tenha tido um apresentador fixo?

Descobriremos quando chegar a hora. Mas observando daqui, só uma coisa é certa: se os Oscars sempre refletem o ano em que foram votados, para o bem e para o mal, a premiação deste ainda terá alguns abalos a sofrer.

Tradução de Paulo Migliacci

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