Descrição de chapéu Livros

Feira de Frankfurt deve sossegar nos negócios e sacrificar o cafezinho

Realizado em formato virtual, maior evento do mercado literário tende a perder frenesi e descobertas casuais

São Paulo

Principal evento mundial do mercado literário, a Feira de Frankfurt vai ter um clima diferente em ano de pandemia. Quase toda feita numa plataforma virtual, desta quarta até domingo, a feira vai se parecer menos com a tradicional maratona em que editores perdem o fôlego para fechar os títulos mais quentes do momento.

Os profissionais de fora da Alemanha ficaram em seus países, inclusive os brasileiros, que em vez de marcar uma batelada de reuniões diárias estão espalhando conversas via Zoom ao longo de sua rotina normal de trabalho.

“Não dá para comparar com uma feira normal”, diz Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras. “Espero menos negociações acaloradas. Quando vários editores internacionais estão juntos, maximiza a comoção em torno de alguns livros. Esse frenesi não deve acontecer.”

mulher arruma livros
Funcionária prepara livros para a abertura da Feira de Frankfurt, nesta terça - Arne Dedert/AFP

“Normalmente, você tende a tentar fazer uma oferta para fechar já durante a feira e tirar o livro da mesa logo, com receio da próxima reunião que aquele agente vai ter”, diz Sonia Jardim, presidente do grupo editorial Record. “Agora a sensação que eu tenho é que as pessoas estão mais cautelosas. Não tem a pressão de sair dali com o negócio fechado.”

Ao mesmo tempo que se pacifica essa correria, que gera muita espuma em torno de livros que depois provam que não valiam tanto assim, a feira a distância também deve extinguir oportunidades de fazer bons achados por acaso.

“Faltam os encontros informais de corredor, as dicas dos colegas”, diz Lucas Telles, editor da Intrínseca. “O presencial é indispensável nessa indústria feita de relações pessoais.”

“Tomando um cafezinho informal na feira, você tem uma troca que não há nesse formato”, comenta Jardim, da Record. “Não é uma coisa que você consegue fazer passando um email para uma editora na Espanha ou na Suécia, perguntando o que compraram.”

Telles frisa que isso é uma perda insubstituível num ano que já não teve a Feira do Livro de Londres, outra das internacionais mais importantes, nem Flip ou Bienal do Livro de São Paulo —ambos os eventos costumam acontecer na metade do ano e anunciaram edições exclusivamente online para dezembro.

A realização da própria Feira de Frankfurt foi um percurso de idas e vindas. Em maio, já com a pandemia assolando a Europa, os organizadores insistiram que ela aconteceria de forma presencial. Voltaram atrás no mês passado.

Na cerimônia de abertura, nesta terça, a apresentadora recebeu o presidente da feira alemã, Juergen Boos, dizendo “parabéns, você conseguiu”. Ele contou que o evento era replanejado a cada duas semanas, conforme a pandemia melhorava ou piorava. “Tivemos que reinventar tudo sem nenhum modelo a seguir.”

Ana Paula Hisayama, diretora de direitos da Todavia, afirma que toda essa incerteza talvez tenha culminado numa feira em que não vão aparecer grandes livros quentes. “Será que o hype não aconteceu porque não estamos lá ou não estimularam os autores para entregar logo os livros?”

As tendências que se apontam até agora, para se ter uma ideia, são os livros de não ficção, que refletem sobre o que vai sobrar depois da pandemia ou sobre a eterna crise da democracia. O arroz com feijão dos nossos tempos.

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