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'Sertânia' revela no cinema por que São Paulo e Nordeste são faces da mesma moeda

Novo longa de Geraldo Sarno, diretor do clássico 'Viramundo', segue grande tradição do filme brasileiro moderno

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Cangaceiros em cenário com árvores, um deles segura uma arma e o outro carrega um homem morto

Cena do filme 'Sertânia', de Geraldo Sarno Divulgação

Rio de Janeiro

O sertão, se não virou mar, se tornou ao menos a grande paisagem do cinema brasileiro moderno. “Sertânia”, o novo longa de Geraldo Sarno, demonstra a força perdurável do imaginário nordestino.

Diretor de “Viramundo”, clássico documentário de 1965 sobre a migração e as virações nordestinas em São Paulo, o baiano Sarno teve o sertão como origem e o assumiu como destino. “O meu cinema é o Brasil. É a nação brasileira. E é o sertão. Fora daí, não tenho praticamente nada. Quando tentei fazer fora, quebrei a cara. Desde o início, é o meu mundo”, afirma o cineasta, de 82 anos, que hoje vive no Rio de Janeiro.

Depois de passar pelo Festival de Havana, pela Mostra de Tiradentes e pelo Festival Ecrã, "Sertânia" despertou o entusiasmo de críticos e cinéfilos durante a quarentena e agora volta a ser exibido na plataforma online do festival Olhar de Cinema, de Curitiba.

O delírio do cangaceiro Antão, ou Gavião, papel do ator Vertin Moura, estrutura “Sertânia”. Sobrevivente da matança de Canudos, ele é levado ainda garoto para São Paulo, onde esboça uma carreira militar. Mas, ao perder a mãe, faz a viagem de volta e ingressa no bando do Capitão Jesuíno, interpretado por Julio Adrião, que invade a cidade de Sertânia.

A revelação das mazelas do mundo coincide com o início de sua agonia na caatinga. Baleado, Antão delira e vai à terra dos mortos em busca do pai executado pelos militares no arraial de Antonio Conselheiro. O cineasta Edgard Navarro, de “Superoutro”, vive o líder messiânico.

Na figura do migrante, o sertão se desloca para o país industrializado. “'Sertânia' é uma espécie de 'Viramundo'”, sugere o diretor. “São Paulo e o sertão são duas faces da mesma moeda. Essa moeda é o Brasil. Praticamente não existe família sertaneja com um membro que não tenha migrado ou que não irá. Depois que você compreende isso, percebe muito do Brasil.”

Migração, seca, sebastianismo, fome e cangaço remetem aos filmes definidores do cinema novo –“Os Fuzis”, de Ruy Guerra, “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha. Sarno reconhece as referências, mas lembra que, ao estrear com 26 anos, assumiu a sua autonomia em relação aos programas estéticos geracionais.

“Entre o caminho do cinema novo e o caminho da desconstrução da linguagem, eu, que não tinha um conhecimento claro do campo, de forma meio intuitiva, escolhi aprender a fazer cinema no sertão", conta. "Era documentar o sertão e aprender com a cultura popular as maneiras de operar uma linguagem de audiovisual mais erudita.”

Do núcleo baiano do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, o cineasta reuniu os então pré-tropicalistas José Carlos Capinan, Caetano Veloso e Gilberto Gil na trilha de “Viramundo”. A civilização nordestina, medular no projeto cinemanovista, é quase todo o corpo de sua filmografia.

Em 1966, acompanhado do fotógrafo Thomaz Farkas, Sarno filmou o sertão pela primeira vez. Essa viagem originou quatro curtas montados anos depois. Em mais de cinco décadas, sua imersão sertaneja produziu joias da vida brasileira, como “Vitalino/Lampião” e “Viva Cariri”, de 1969, “Casa de Farinha”, de 1970, e “Segunda-Feira”, de 1974.

“Era um sertão que não existe mais. Quando eu fui, estava movido por um sentimento de urgência, que Lina Bo Bardi me passou. O Brasil começava a sofrer um surto de desenvolvimento. A televisão e o rádio estavam abrindo o sertão. Haveria uma mudança.”

O interesse pelo transe nas religiões afro-brasileiras, manifestado em “Viramundo”, tomou forma mais concentrada em “Iaô”, de 1976, que documenta o ritual de iniciação num terreiro jeje-nagô da Bahia. Sua filmografia tem ainda os longas “Coronel Delmiro Gouveia”, de 1978, e “Tudo Isto me Parece um Sonho”, vencedor do prêmio de melhor direção do Festival de Brasília de 2008.

“Sertânia” incorpora a sua experiência de documentarista, a exemplo da cena dos sobreviventes de Canudos, quadro vivo que evoca uma conhecida fotografia de Flávio de Barros. No roteiro, é notável ainda a influência da história de cangaceiros menos famigerados.

Muitas pessoas sentadas em jardim
Jagunços prisioneiros em 2 de outubro de 1897, em Canudos, na Bahia - Flavio de Barros/ Instituto Moreira Salles

“Há uma relação entre documentário e ficção que eu venho construindo desde 'Viramundo'. 'Sertânia' é uma etapa dessa construção, que ainda não fecha. Mas vejo uma coisa que é essencial –como aprendi a pensar o cinema nessa fronteira entre o documental e a ficção", afirma. "Se eu quiser ser mais claro, entre o formalismo genial de Eiseinstein e, do outro lado, a resposta frente ao imprevisto do Vertov.”

Nas cidades baianas de Milagres e de Brumado, as chuvas de junho levaram Sarno e o diretor de fotografia, Miguel Vassy, a optar por uma luz ainda mais estourada, para o benefício da questão-chave do filme. “Na migração, a cegueira é um tema central. O tema do olhar vai explodir em Vertin com o tema da consciência.”

Sua paixão literária, anterior à cinematográfica, sedimentou seu interesse por Homero e Guimarães Rosa. Nascido em Poções, na Bahia, Sarno leu “Corpo de Baile” quando estudava em Salvador, no final dos anos 1950. “Ele tinha frases inteiras que me recordavam o que eu ouvia no sábado de feira. No sudoeste da Bahia, o escritor que mais nos expressa é o Rosa.”

Ajustada às imagens áridas, a trilha foi tecida com peças de Lindembergue Cardoso, um dos brilhantes maestros formados na Escola de Música da Bahia.

A representação do povo não sofre de desencanto. Nos quadros vivos de Sarno, os nordestinos olham para a câmera, altivos diante do julgamento do espectador. Numa das cenas centrais, Gavião Antão clama ao líder do bando para não matar os retirantes famélicos. “O povo é inocente!”

“Na tragédia brasileira, se tem alguém que é inocente, é o povo. Ele é vítima de todas as sacanagens terríveis. A gente só tem que ter respeito”, diz o diretor. “Não se pode perder esperança. E você não pode fechar as portas de uma nação. O povo é inocente do desastre que estamos vivendo.”

Sertânia

  • Quando De 8 a 12 de outubro
  • Onde Site do festival Olhar de Cinema
  • Preço R$ 5
  • Elenco Vertin Moura, Julio Adrião, Lourinelson Vladmir, Igor de Carvalho, Gilsérgio Botelho, Kécia do Prado, Edgard Navarro, Isa Mei, Marcelo Cordeiro, Rogério Leandro, Marcos Duarte e Teófilo Gobira
  • Direção Geraldo Sarno
  • Duração 97 min.
Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior deste texto afirmava erroneamente que a disponibilicação de "Sertânia" no festival Olhar de Cinema era gratuita. Para assistir ao filme no evento é cobrada uma taxa de R$ 5,00. O texto foi corrigido. 

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